Reportagem

Os bebés que nasceram na quarentena

Os bebés que nasceram na quarentena

Mães contam como vivem a covid-19 com os filhos recém-nascidos. Os receios do novo normal.

Afonso é um pequeno pedaço de vida e um mundo inteiro de amor, todo aconchegado nos braços protetores da mãe. São pouco mais de 15 dias de existência, a crescer devagarinho e a dormir muito - é um dorminhoco nato e "é preciso acordá-lo para comer", sorri Marta Vilaça, que o deu à luz a 20 de abril.

"É muito pequenino, custa a ganhar peso", embala a médica de 36 anos, sabendo bem que o corpo materno, imenso na proteção do corpinho tão frágil e ainda de recém-nascido - a cabeça de Afonso cabe na palma da mão -, não o defende de tudo. Menos ainda de uma ameaça invisível e omnipresente como o novo coronavírus, que exponenciou as angústias da maternidade e trouxe novos receios e preocupações aos pais, forçados a adaptar-se ao que julgavam impossível: teleconsultas de pediatria, apresentar o bebé à família por videochamada, prescindir do apoio vital dos avós, resguardar-se dos amigos, a clausura em casa para evitar contactos, o terror de contágios....

O rosto tranquilo de Afonso, de olhos fechados num sono de anjo, dá-nos a ilusão, por instantes, de que tudo está como deveria estar; as ansiedades esbatem-se, já não sufocam, e cedem à ternura desmesurada - os bebés têm esse poder fascinante de fazer-nos esquecer o resto do Mundo. Mas um altifalante que ecoaria por Custóias, Matosinhos, a aconselhar o recolhimento em casa, ou um grupo de rapazes que cantam parabéns na rua, virados para o prédio vizinho ao de Marta e de máscaras a tapar bocas e narizes, voltam a prender-nos à realidade. Lembram que este é um tempo cruel para os afetos: há pais afastados dos filhos, avós que não sabem quando voltarão a abraçar os netos, amigos que não se reúnem e famílias inteiras em retalhos para protegerem quem amam de um vírus traiçoeiro que proíbe beijos e põe seres humanos à distância de dois metros, demasiado longe de um toque, um afago, um abraço em que se afoguem saudades.

Medo de apanhar o vírus

Há medo. Muito. A cada passo. Disfarça-se com risos; às vezes, embrulha-se o temor no relato de peripécias de quem tenta adaptar-se ao irreal da nova realidade. Marta Vilaça é especialista em oncologia médica no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, e sabe bem o que pode correr mal num caso de covid-19. Estava nas 33 semanas de gravidez quando "a obstetra achou melhor vir para casa, por causa do risco".

"Foi um mês e tal fechados em casa. É um stress adicional, porque nada é normal: não podemos sair, e há todo o medo de apanhar [o vírus]. Sabia que, se tivesse covid, não ia estar com o meu filho, e isso para mim não era pensável", antevia a médica.

"Várias vezes chorei"

"Várias vezes chorei ao imaginar esse cenário", confidenciaria Lorena Pinto, da idade de Marta e também mãe de um rapaz em abril, após um parto atribulado mas "muito feliz": Manuel Eduardo veio ao mundo no dia 28, na casa da família, em Vilar de Andorinho, Vila Nova de Gaia, pelas mãos do pai e de uma irmã, por não ter dado tempo para mais. "Quando o INEM chegou, ele já tinha nascido. Foi muito rápido. Apesar de a covid ter sido ruim em todos os aspetos, este foi um presente que me deu, porque o meu marido esteve comigo todo o tempo", conta a brasileira de Goiás, a viver em Portugal há três anos.

Agora, "é um momento de muita vigília", alerta Lorena, que neste ano não volta a levar a filha do meio, de 21 meses, para a creche, por receio de contágios. E não sai de casa: usufruir do ar livre, só no "jardim grande do prédio". "Há sempre o medo de pormos o bebé em risco quando saímos um bocadinho para uma caminhada higiénica. Ou se temos de ir a uma Urgência. É angustiante para nós, que temos um ser para proteger. Vivemos com medo de que alguma coisa corra mal, principalmente para ele, que é muito pequenino e não tem grandes defesas". A confissão de Marta é o eco dos piores temores de Filipa e Cristina, que também foram mães de dois rapazes, mas antes do estado de emergência. O turbilhão da pandemia apanhou-as já com os filhos nos braços, e pôs-lhes as vidas e os planos do avesso.

Não é seguro sair

"Não sei o que é passear de carrinho com o meu filho. É horrível", lamenta Cristina Vasconcelos, de 40 anos, que teve Olivier a meio de fevereiro, no Dia dos Namorados, e foi logo alertada pelos médicos para o que estava iminente, com a eclosão da covid-19 no país. De casa, no Marco de Canaveses, a família só sai "em caso de necessidade", e não arrisca sequer pequenos passeios. "Não é seguro. Não me sinto com confiança", diz a esteticista, que aos oito dias de vida do filho "já andava com desinfetante e pedia para não se aproximarem nem darem beijinhos ao bebé".

Teleconsulta pediátrica

Com 30 anos e a morar em Lisboa, Filipa Botas estreou-se na maternidade a 4 de março, mas só iniciou os "passeios higiénicos a partir do primeiro mês" de José Maria.

"Viemos para casa no dia 6, e só saímos para a consulta da primeira semana. Não fomos mais ao pediatra, o que é muito anormal no caso de um recém-nascido", avalia a jovem. Marta concorda que "está tudo vocacionado para a covid", mas ambas louvam o acompanhamento pediátrico por "teleconsulta". Ainda que as consultas ao longe não tranquilizem por completo os pais: Filipa, por exemplo, diz-se "expectante" quanto à segunda ida ao pediatra.

E aflige-as a distância das famílias, que dói e rouba apoio. "Para nós, pais, sabe bem ter o amparo dos avós, que são o nosso porto seguro, e para já não dá", conforma-se Marta, que há dois anos e meio foi mãe de outro rapaz. Lorena e Cristina também sabem que não terão uma maternidade tranquila como a que viveram com os primogénitos. "Aquela vida que tive há 20 meses nunca mais vai existir. A liberdade que a gente tinha, nunca mais vai ter. É como se a nossa vida estivesse suspensa", concluiria Lorena.

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