10 de Junho

Os cinco emigrantes que levam longe o nome de Portugal

Os cinco emigrantes que levam longe o nome de Portugal

Se há prova dada pela pandemia é de que as fronteiras são barreiras que não se podem erguer quando se encontra em perigo o maior bem, a vida. Por todo o mundo, há portugueses de mangas arregaçadas, a fazer o melhor que sabem pelos outros, sem esquecer o sangue luso de que tanto se orgulham e que se comemora neste 10 de Junho.

Dois minutos "entre a vida e a morte"

Celine Mateus, 30 anos, é enfermeira. Emigrou para França em 2012, após se ter formado na Escola Superior de Enfermagem de Santa Maria, no Porto. "Os salários que ofereciam aí eram aberrantes". Pouco depois de aterrar em Paris começou a trabalhar no Hospital Georges Pompidou. Primeiro como enfermeira instrumentista, depois no bloco operatório na reanimação cardiorrespiratória.

A pandemia veio interromper-lhe o segundo ano da especialidade de enfermeiro anestesista que está prestes a concluir. A formação foi suspensa, como todas as outras, porque os profissionais de saúde foram chamados ao campo de batalha para combater o novo coronavírus.

Celine, natural de Ermesinde, foi integrada nos cuidados intensivos do Centro Hospitalar de Sainte-Anne quando a pandemia chegou. "Foi toda uma nova aprendizagem, novas técnicas, e o medo não foi das primeiras coisas que me passou pela cabeça".

É na prontidão, na rapidez, que encontra a chave do sucesso. Os doentes com covid-19 "têm de ser entubados em dois minutos e, se não fôssemos rápidos, o doente morria porque chegava com reservas muito baixas de oxigénio".

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Turnos de 12 horas, vestida de astronauta e a pensar nos pais, que vivem em Portugal. "Podia fazer o melhor por eles aqui, mas preocupava-me não poder apanhar um avião e ir ter com eles. Contava-lhes dos casos que tinha para perceberem a gravidade da doença e os riscos. Fui muito exaustiva ao telefone, a explicar-lhes todos os cuidados a ter".

Celine, mãe de um menino de três anos, era a única portuguesa da equipa. "Quando emigrei, o meu patriotismo dobrou". Aponta como ponto positivo o facto de a pandemia ter deixado de lado a geografia. "Durante a crise, não houve fronteiras, nem nacionalidades", apenas a preocupação de salvar vidas e de assistir ao milagre da recuperação. "É um renascer. Beber água! Ficava a sorrir a ver esses pequenos movimentos - um doente conseguir beber água depois de tantos dias de luta, conseguir engolir, é indescritível, e assim sabemos que o nosso trabalho vale a pena".

A força foi encontrada nos casos que levavam os médicos a baixar o olhar, abanar a cabeça, e que depois de muitos dias de internamento, "saíam pelo próprio pé. Era emocionante. Foi sempre tudo muito intenso".

A preto e branco se pinta a pandemia

"Sou mesmo um verdadeiro português, faço anos amanhã [10 de Junho]", afirma num sorriso que se conhece na voz. George Pimentel fala em inglês, e tem sangue ibérico a correr nas veias. O lusodescendente que vive no Canadá faz parte da terceira geração de uma família de fotógrafos, "os primeiros portugueses neste negócio em Toronto".

Começou por trabalhar com o pai a tirar fotografias de casamentos e batizados, mas a ambição levou-o mais longe e construiu toda uma carreira a fotografar celebridades como Tom Cruise ou Lady Gaga.

"Sou um português orgulhoso, aprendi a língua e nunca deixei a comunidade. É muito importante voltar às minhas raízes".

Por ano, cobria mais de 500 eventos. De repente, a pandemia cancelou tudo - os concertos, as festas glamorosas de Hollywood. "São quase todos trabalhos com multidões, então, como não sabia o que fazer, voltei atrás, tentei perceber a covid-19".

Aos 52 anos, recuou aos arquivos da gripe espanhola, que em 1918 matou alguns dos seus antepassados, para reviver a sua grande paixão: a fotografia a preto e branco. "Aquelas fotos são tão importantes que pensei que tinha de deixar a covid-19 documentada para o futuro".

Longe dos holofotes da fama, voltou a ser o George de quando tinha 20 anos, no seu "estado puro, não comercial, inocente".

Aponta como o seu melhor trabalho uma ida aos Açores, de onde é natural a família, para retratar a vida da comunidade de Rabo de Peixe. Fê-lo para a tese da universidade e agora sente-se a percorrer o mesmo caminho, mas nas ruas do Canadá, para retratar as mudanças na vida das pessoas, as máscaras e o distanciamento, o esforço e a adaptação.

"Quando ando na rua quero mostrar como a vida mudou. Tirei uma fotografia de uma mulher portuguesa de joelhos, numas escadas, perante a porta fechada de uma igreja. Quando a vi, pensei: tenho de documentar isto". É o que tem feito, e partilhado na conta do Instagram, onde também publicou a imagem do encontro que teve com o pai de 86 anos durante o confinamento, através da janela do carro. "As coisas não são normais. Ainda não o voltei a abraçar. É tudo muito intenso e emocional, vejo festas de aniversário nas varandas, as pessoas estão todas de máscara, mas temos de ter calma, vai demorar a voltar ao que era".

Cofundador do projeto "Fotografia da Covid do Canadá" (Canada Covid Portrait, em inglês) tem lançado o desafio a quem queira partilhar histórias ou imagens para construir um arquivo que enriqueça quem o consultar no futuro, documentos que sirvam de "aprendizagem" e que pretende ver expostos em breve.

"Não estamos capacitados a nível psicológico para enfrentar uma segunda vaga do vírus"

Os hospitais espanhóis começam a recompor-se aos poucos da tempestade provocada pelo novo coronavírus. Na linha da frente desta dura batalha está Solange Valente, uma enfermeira portuguesa que trabalha desde 2008 nos cuidados intensivos neonatais do Hospital Geral da Catalunha.

A sua vida mudou drasticamente quando a unidade foi transformada do dia para a noite numa unidade de cuidados intensivos para adultos com covid-19. "A alteração foi completamente brusca, porque a unidade foi montada à medida que os doentes chegavam. Foi tudo muito rápido, tivemos que nos adaptar tanto aos pacientes como ao material completamente diferente do que costumávamos usar, sendo o conhecimento sobre o uso do ventilador a nossa única vantagem", explica Solange, natural de Ovar, Aveiro.

O trabalho da enfermeira nos cuidados intensivos ia além de controlar a evolução dos doentes ou administrar a certa hora a medicação necessária. Mesmo que a maioria deles pacientes estivessem em situação muito crítica - em coma induzido -, Solange tornou-se o seu único apoio, porque as visitas familiares foram proibidas. "Nós tentávamos alegrar o dia deles da melhor forma possível. Fazíamos videochamadas com os familiares e oferecíamos-lhes uma mão amiga num momento tão complicado".

Ultrapassados os piores momentos desta guerra, a frustração invade a mente de todos os profissionais que têm lidado com a vida e a morte. "Psicologicamente foi muito duro, das coisas mais duras que já vivi. Nós, os profissionais de saúde, dizemos que se agora surgisse uma nova vaga de contágios não estaríamos ainda suficientemente capacitados a nível psicológico para poder enfrentar esse novo problema".

Solange já voltou a tratar de crianças prematuras. "O hospital continua a ter alguns pacientes infetados, mas tem-se criado um circuito especial e fechado e, assim, podemos manter a segurança do resto dos doentes".

Apenas duas folgas em maio

No Luxemburgo desde 2013, Raquel Aguiar manteve-se à frente do único hotel que ficou aberto na cidade de Esch-Sur-Alzette. "Nem sequer me passou pela cabeça fecharmos. Tínhamos de garantir que havia um sítio para dormir".

Aos 26 anos, a rececionista natural do Porto atravessou o período "exaustivo" da crise sanitária sem baixar os braços, mesmo quando a equipa ficou reduzida aos serviços mínimos. Pelo balcão do hotel onde trabalha passaram por esses dias sobretudo médicos cansados, a viver longe das famílias, e investigadores que procuram criar uma vacina. "Andavam muito stressados, com muito trabalho e pouco tempo".

Ficou a gerir a unidade praticamente sozinha, "sete dias por semana", e em maio teve apenas dois dias de descanso. "Tínhamos de ajudar aquelas pessoas que não tinham para onde ir para que pudessem recuperar forças e voltar à luta".

Emigrou por não encontrar trabalho em Portugal, mas desdobra-se em elogios ao país que a viu nascer, cheia de saudades, mas ainda sem voo marcado para o reencontro com a família e os amigos, a sua maior preocupação nos dias críticos dos últimos três meses.

"Temos de viver uma vida sem fronteiras porque e para ter uma vida melhor, enquanto podermos e tivermos saúde".

O paciente inglês de Luís Pitarma

Foi pelas palavras de Boris Johnson que os enfermeiros portugueses voltaram a ser distinguidos internacionalmente. Desta vez, a classe inteira representada num elogio a Luís Pitarma.

Quando o primeiro-ministro britânico agradeceu ao aveirense de 29 anos pelos cuidados no hospital de St Thomas, em Londres, o peito da nação inflamou-se de orgulho.

Marcelo Rebelo de Sousa foi quem confirmou a identidade do português que trabalha nos cuidados intensivos, e que se manteve em silêncio por causa das regras do Serviço Nacional de Saúde inglês, que impedem os profissionais de falarem aos jornalistas.

A história seria contada também pela mãe do enfermeiro que explicou que o filho tinha ficado surpreendido pela "simpatia e simplicidade" do líder inglês.

Luís, que queria ser médico e se apaixonou pela enfermagem e a proximidade com os doentes, já tinha sido distinguido como um dos enfermeiros do ano num outro hospital. Tudo isto antes de ter os holofotes voltados para si. "Fiquei realmente surpreendido, mas muito feliz. Eu nunca pensei que teria um destaque assim. A mensagem do primeiro-ministro realmente veio do coração", diria o enfermeiro sénior, que se formou em Lisboa, através de um comunicado publicado dias mais tarde pelo hospital St Thomas.

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