Entrevista

"Os hospitais são cada vez mais uma arma de Guerra"

"Os hospitais são cada vez mais uma arma de Guerra"

Gustavo Carona, 35 anos, leva já seis missões com os Médicos Sem Fronteiras (MSF), cinco delas em zonas de conflito. Entre eles, o Afeganistão e a Síria.

Dois dias depois de regressar de Idlib, na Síria, cinco médicos foram raptados da casa onde vivia. Os hospitais, acredita, são "uma arma de guerra": bombardeá-los é deixar as populações desprotegidas e atraí-las para, ou contra, uma causa. Anteontem, o autoproclamado Estado Islâmico (EI) atacou um hospital na parte ainda comandada pelo regime sírio em Dar ez-Zor, cidade em 60% nas mãos jiadistas.

As estruturas de saúde passaram a ser um alvo de guerra. Porquê? São usadas como escudos?

Estamos realmente a assistir a uma mudança de paradigma. Não me parece coincidência a quantidade de incidentes que têm ocorrido nos últimos tempos. Em algumas ocasiões podem ser usadas como um escudo. No incidente - ou acidente, não sei como lhe hei de chamar de forma politicamente correta - em Kunduz, no norte do Afeganistão, haveria alguma presença de forças da oposição, nomeadamente grupos talibã, nas imediações do hospital e terá sido esse o motivo por que o hospital foi atacado...

Esteve lá perto?

Estive noutra zona do Afeganistão, mas sinto quase como se tivesse sido num sítio onde estive, porque reconheço a importância que hospitais como o de Kunduz têm na região. Era a única estrutura de saúde bem desenvolvida. E, muito mais do que as vidas perdidas no momento do ataque, é de partir o coração sentir a quantidade de gente que fica absolutamente desprotegida de cuidados de saúde num raio de centenas de quilómetros à custa desta vontade de atacar seja quem for. Estive no sul, em situações muito próximas de ataques por outros motivos, em que se tem a perceção de se estar no sítio errado à hora errada e de que a guerra não vai parar porque passa um carro dos MSF. Mas a minha leitura pessoal é que cada vez mais é uma arma de guerra atacar estruturas de saúde para que o povo se sinta ainda mais desprotegido.

Como assim?

Por exemplo: na Síria, ganhar a guerra é ganhar o coração do povo. Passa por fazer as pessoas sentirem-se cada vez mais inseguras e desprotegidas. Nem é tanto pelos feridos de guerra - trabalhei em zonas de conflito e as vítimas de guerra são uma pequena percentagem daquilo que nós vemos. O que fazemos é uma substituição dos serviços de saúde que colapsaram porque os recursos humanos fogem, as ilhas de comunicação deixam de existir, o material não chega, as pessoas têm medo de trabalhar. Além de já terem pressões de grupos islâmicos, com os bombardeamentos por parte das forças do governo e dos aliados sentem-se sem a possibilidade de terem qualquer cuidado de saúde. Obviamente que a sua resiliência será fragilizada.

Está a dizer que eventuais apoiantes dos rebeldes deixam de sê-lo...

Acontece para o outro lado também, não tenhamos dúvidas disso. Mas a oposição não tem aviões. E isto são bombardeamentos de helicópteros e de aviões... Vi há pouco tempo um relatório do MSF que falava de 50 a 80 ataques a estruturas de saúde na Síria só no ano de 2015. Aquilo que vimos agora - aquele médico pediatra que deu que falar, e ainda bem que deu, que morreu em Alepo com 20 e tal pessoas - é apenas um ataque. E estas 80 são estruturas de que os MSF têm conhecimento. Desde os raptos de 2014 que não têm nenhum expatriado na Síria. Apoiam profissionais locais e enviam material.

É outra coisa curiosa: quando há estes ataques nunca se sabe quem são as vítimas...

Porque não têm as nacionalidades com que nos importamos. Se morresse um europeu ou um americano em Kunduz, certamente que o barulho seria diferente. Há uma parte de mim que tem pena que as vítimas sejam "apenas" afegãs, sírias, iraquianas.

Quem trabalha num hospital desses sente os riscos?

Normalmente tento não me preocupar muito com isso, delego a minha segurança nas pessoas que são competentes para avaliar os riscos. Agora sentimos obviamente que essa proteção não é dourada. O que existia em tempos cada vez menos existe. Ou se calhar nós, na nossa perceção romântica da ajuda humanitária, achamos que somos intocáveis por sentirmos que fazemos alguma coisa especial, mas não. Há um risco bem real de que todos nós estamos conscientes, que é estarmos no sítio errado à hora errada e tentamos minimizá-lo ao máximo, com regras de segurança muito restritas.

Regressou agora da República Centro-Africana. É diferente?

É um tipo de guerra completamente diferente, muito mais cara a cara, de Kalashnikov e granada e em que as ideologias, ainda que existam, não têm uma representação tão grande na vontade de guerrear. É uma guerra só pelo território, pelo poder. E apesar de tudo acho que em África há um respeito maior pelo "branco", pelos MSF, pelas ONG.

Sente-se mais protegido em África enquanto trabalhador humanitário?

Claramente. Sabemos que os grupos extremistas islâmicos têm como estratégia raptar ocidentais. É uma fonte de rendimento significativa, não estará ao nível do petróleo mas não andará assim tão longe. Estamos a falar de milhões. De cada vez que vemos pessoas a serem resgatadas na televisão, esquecemos que estamos também a patrocinar aquilo que chamamos de terrorismo. Até que ponto é que as vidas que vamos lá buscar valem mais do que aquelas que depois o nosso dinheiro vai contra? É um bocadinho hipócrita...

Esteve na Síria em finais de 2013, já andava por lá o autodesignado Estado Islâmico. Notava-se?

Sim. Eu estive perto de Alepo, na província de Idlib. O EI já tinha uma presença fortíssima. Ainda não se falava muito de EI na Europa. Não o nomeávamos assim, mas o hospital onde estive tinha sido evacuado pouco tempo antes de eu lá estar, exatamente pela crescente pressão de grupos islâmicos, e os MSF tiveram que readaptar a presença. Por isso, quando eu entro, em meados de novembro 2013, para reabrir esse hospital, sabíamos que estávamos perante a presença de grupos islâmicos extremamente radicais.

Só o EI ou a al-Nusra (ramo sírio da al-Qaeda) também?

Também. Aquilo que começámos mais tarde a chamar de EI é que não se sabia muito bem o que era. Quando lá estava, ouvia falar de uma coisa que era o Daula. No hospital as pessoas tremiam, gelavam quando se falava em Daula. No início até pensava que seria uma pessoa, mas era o EI, que era representado por figuras que faziam tremer as pessoas e impôs uma transformação brutal do comportamento, roupas, proibições, ameaças. As pessoas estavam aterrorizadas. Apesar de ser um país muçulmano, a Síria era relativamente moderada, muitas pessoas bebiam sem qualquer restrição, as mulheres não andavam cobertas, nem com véu. Passaram a andar completamente tapadas. Se calhar nunca mais vai ser a mesma coisa. Até para nós, ocidentais: as mulheres eram obrigadas a estar tapadas, a proibição do álcool, que é a proibição máxima, também nos atingia. Falava-se que o tal Daula queria proibir a venda de cigarros. Quando estamos num ambiente de guerra em que caem bombas todos os dias, a nossa perspetiva de longevidade é um bocadinho diferente. Pensar viver até aos 80 quando caem bombas? O coração bate um bocadinho mais rápido. E fuma-se muito. É estúpido, como médico, dizer isto, mas faz-me imensa confusão que um povo que está encurralado entre um ditador que tem o desejo literal de os matar a todos e grupos islâmicos que condicionam toda a sua forma de viver ser proibido de um pequeno prazer da vida quando caem bombas a toda a hora. Resumindo, sim estávamos numa fase de transformação.

Esperava que se transformasse ao ponto em que se transformou?

Não me escandalizou quando vi americanos a serem decapitados, porque sabia que havia muitos ocidentais raptados que, se calhar bem, não estavam com cobertura mediática, porque é exatamente isso que eles querem, que seja falado. Houve uma transformação completa daquilo que era a importância do EI - para o bem e para o mal - a partir do momento em que vemos um jornalista a ser decapitado no Youtube. A propaganda tornou-se mais forte. Apercebi-me disso enquanto lá estava. E dois dias depois de ter chegado a Portugal cinco dos meus colegas foram raptados. Foi se calhar a maior chapada que levei nos últimos tempos.

No sítio onde estava?

Na casa onde vivia.

Que é feito deles?

Foram libertados passados três meses as mulheres e cinco os homens. Quase todos continuam a trabalhar para os MSF.

Na altura não havia este fluxo de refugiados como agora.

Havia. Só não era para a Europa. Entrei na Síria pela Turquia e a Turquia já estava atulhada de refugiados.

Previa-se o rumo para a Europa?

Trabalhei e vivi com muitos sírios que tinham histórias muito semelhantes. Desertores, porque foram todos chamados ao exército e não quiseram matar conterrâneos e tornaram-se inimigos do governo, procurados, e retiraram-lhes os passaportes, muitas histórias de quem tentava fugir, sobreviver. Quando nos questionamos sobre este fluxo de refugiados esquecemo-nos dos números verdadeiros: a Síria tem, tinha, 22 milhões de habitantes e há oito milhões de deslocados e quatro milhões de refugiados. Aqueles que querem entrar na Europa são à volta de um milhão. Há outros três. E outros oito que estão lá dentro a viver em condições miseráveis como as daquele campo de refugiados que foi bombardeado na região de Idlib. A nossa preocupação é só mesmo quando nos batem à porta. Acho algo hipócrita que não nos concentremos no cerne da questão, que é acabar com a guerra.

Como?

A primeira solução é quase como a primeira regra ética da medicina: não fazer mal. Não contribuir, não mandar mais bombas. Volto ao que disse, ganhar esta guerra é ganhar o coração das pessoas. Se elas receberem bombas do ocidente vão odiar-nos mais e ficar mais próximas do EI e mais longe daquilo que gostaríamos que fosse uma forma de estar na vida moderada. Não entremos em mais Afeganistões, em mais Iraques. A criação do EI é uma consequência muito direta da guerra do Iraque. Não façamos mais isso e tenhamos vergonha daquilo que fizemos. Porque é que julgamos no Tribunal de Haia os líderes africanos e não julgamos as pessoas que cometeram erros estratégicos históricos que nos estão a fazer sofrer a todos neste momento. Como é que achamos legítimo que, depois de um atentado triste como o de Nova Iorque em 2001, que mata três mil pessoas, se justifique uma guerra que mata meio milhão. Uns são terroristas e outros são um exército legítimo? Não consigo compreender. Uns são fanáticos e outros defendem guerras e acabam com frases como "God bless America" e não são também fanáticos religiosos e fundamentalistas do que quer que seja. Não quero ter nenhum discurso anti-americano fácil, tenho contra políticas externas de muitos países. As pessoas não podem esquecer a importância da sua individualidade nestas questões. Podem votar. Achar que é mais importante quem as representa pensar na paz do mundo do que se o IRS vai variar meio por cento. Mas estas questões não estão nas campanhas eleitorais.

As pessoas acham que não está ao alcance delas.

Não está. Só quando lhes batem à porta é que pensam coitadinhos dos refugiados. Até lá são estatísticas e são pessoas estranhas que acreditam noutra religião e que têm cores um bocadinho diferentes.

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