Reportagem

Os profissionais de saúde no olho do furacão. O pior está para vir

Os profissionais de saúde no olho do furacão. O pior está para vir

Dois médicos que coordenam equipas de ataque à Covid-19, uma enfermeira e uma auxiliar de unidades do Norte falam do impacto do coronavírus nos serviços e na sua rotina pessoal. O pior, dizem, ainda está para vir.

Nos dias que correm, Nélson Pereira tem duas certezas: "A situação vai piorar muito e levará meses a passar". A dúvida é se bateremos tão fundo como Itália ou Espanha, resume, sem medo das palavras. É especialista em Medicina Interna e está na coordenação do Serviço de Urgência do S. João, "hospital no olho do furacão". Nélson, Miguel, Fernanda e Ana são todos profissionais de saúde na linha da frente. Dois médicos, uma enfermeira e uma auxiliar, todos em hospitais diferentes na região mais afetada pela epidemia de Covid-19. Todos com funções distintas numa guerra que tem de ser travada em conjunto.

Na passada semana mudou tudo. À Urgência do S. João, no Porto, chegam casos "cada vez mais graves". É preciso tomar decisões rápidas, adaptar espaços e equipas, operar verdadeiras revoluções para criar novos circuitos para os doentes infetados, sem descurar o atendimento de tantos outros com patologias tão ou mais graves, explica Nélson Pereira. O estado anímico das equipas também está em adaptação, com altos e baixos. "No início foi pior, houve um choque inicial, o medo do desconhecido. E os momentos em que alguns de nós tombaram [ficaram infetados] foram muito difíceis", conta o internista de 49 anos. No meio de muito cansaço, de noites e noites sem dormir, há "uma equipa de profissionais unida e coesa que faz pequenos milagres todos os dias", elogia.

O Hospital de S. João ainda não esgotou a capacidade, mas terão de ser tomadas decisões importantes nos próximos dias, avisa Nélson Pereira. O internista pede "uma resposta musculada e concertada" das "entidades competentes e da sociedade em geral" para os chamados internamentos sociais. Fala dos doentes infetados dos lares, que têm condições para alta clínica, mas que não podem regressar à instituição para não porem em risco outros utentes. "É preciso criar condições e espaços adequados para estes doentes", frisa, sob pena do sistema colapsar sem camas para tratar quem realmente precisa. À população em geral deixa um apelo em letras garrafais: "Venham aos hospitais só em último recurso, só em risco de vida".

"NUNCA IMAGINEI TER DE ME PREOCUPAR COM MÁSCARAS"

A escassos quilómetros, Miguel Abreu, 39 anos, médico infecciologista no Hospital de Santo António, coordena a equipa que está na linha da frente da Covid-19. "Nunca imaginei viver algo com tal dimensão", admite. Para um especialista em doenças infecciosas, os vírus, os surtos, as epidemias têm um quê de entusiasmante. Mas "isso era antes de viver uma coisa destas", assegura. As palavras de Miguel não se cingem aos efeitos na saúde e no sistema de Saúde. É o impacto socioeconómico que o assusta. Há dias ouviu um médico norte-americano dizer "esqueçam o 11 de setembro, isto é muito pior". E concorda. "Não sei como será o Mundo depois disto", atira, num curto momento de reflexão após 26 dias de trabalho seguidos, com poucas horas de descanso.

No hospital está preocupado com os doentes que não são Covid-19 e que, em situações normais, estariam nas urgências com enfartes e outras patologias graves, mas que estão em casa com medo de sair. E está preocupado com a falta de material de proteção nos fornecedores, porque por mais dinheiro que haja e por mais esforços que a tutela faça, sabe que o problema é na fonte.

"Até agora não nos faltou nada, mas já sou infecciologista há alguns anos e nunca imaginei ter de me preocupar se vou ter ou não uma máscara para trabalhar", assegura. Nas últimas semanas, o hospital tem vindo a adaptar-se à nova realidade. Não cresce propriamente, mas ocupam-se espaços de outros. Vive-se "uma espécie de bipolaridade interna", com especialidades a trabalharem a 300% e outras a meio gás, porque a atividade programada foi suspensa. Mas a qualquer momento podem ser chamadas a travar uma guerra que é de todos.

ATAQUE DE CHORO AO VER O NETO POR VIDEOCHAMADA

"Está a ser pesado, muito pesado". Com a voz embargada, Ana pára uns segundos para se recompor. Tem 49 anos, 23 de experiência como assistente operacional nos Cuidados Intensivos do Hospital de Gaia. É ali que a linha da vida e da morte se cruzam todos os dias. Já viu quase tudo, já passou por epidemias como a da gripe A - "uma menina comparada com esta", garante - mas nunca viveu nada assim.

Há 15 dias, quando surgiu o primeiro caso suspeito no Hospital de Gaia, a rotina de Ana Neves mudou. Mudaram as escalas, o trabalho é agora à quinzena (quinze dias no hospital e outros quinze em casa) e adiaram-se férias para sabe-se lá quando. Tudo conversado, nada imposto, faz questão de realçar. Mudou de unidade e está agora a assegurar a limpeza e o apoio aos doentes na Unidade de Cuidados Pós-Anestésicos, transformada em UCI. Tem nove camas, todas com ventiladores. Na última quinta-feira, mais de metade já estavam ocupadas. E preparava-se a abertura de uma nova UCI ali ao lado porque "isto não pára".

Alguns dos doentes ainda aguardavam resultados, mas para quem os trata "é como se todos estivessem infetados, não dá para correr riscos". E não correr riscos significa calçar dois pares de luvas, usar bata, pôr viseira e máscara e ainda uma cogula, uma proteção sobre a cabeça e o pescoço que teima em não chegar.

"A falta de material é a nossa principal preocupação", assegura a auxiliar. Nossa porque todos pensam o mesmo, todos sabem que o país teve mais tempo para se preparar e o material não pode falhar.

Durante o turno, "a máscara é o pior". São 12 horas por dia a respirar o ar que expele, a sentir a garganta dorida, a voz rouca e cansada. Só tem uma por dia, guarda-a "como se fosse ouro". Só a retira para comer, nunca mais do que dez minutos na copa, onde agora só se sentam dois colegas de cada vez. Foi num desses pequenos momentos de pausa que, há dias, teve uma crise de choro depois de receber uma videochamada do neto, com apenas um mês de vida.

É ali que Ana e muitos outros quebram. Quando o lado emocional entra e varre tudo. Quando pensa que não pode pegar no novo bebé da família, quando batem as saudades dos filhos, com quem só fala por telefone. Quando vem para casa, estourada, com a preocupação de poder infetar o marido, mas também com um sentimento de culpa por não poder ajudar mais a equipa.

Além do imprescindível trabalho de desinfeção da UCI, Ana dá apoio aos enfermeiros em momentos críticos como a entubação e a aspiração do doente. É nestes procedimentos invasivos que se correm mais riscos porque há gotículas expelidas para o ar. Faz tudo com a maior responsabilidade, segue os procedimentos à risca, mas sabe que não há milagres. "Isto é mesmo muito contagioso e não estamos bem protegidos", repete. Um médico e três enfermeiras com sintomas de Covid-19 já foram para casa de quarentena e Ana conta pelos dedos as horas que faltam para domingo à noite [hoje], quando a equipa que está em casa virá assegurar os próximos quinze dias. Será que vai? As colegas estarão saudáveis, sem infeção? As regras ditam que, em caso de falha na substituição das equipas, quem está ao serviço continua. Sempre. Na linha da frente.

A REALIDADE CHEGOU E CAIU A FICHA A TODA A GENTE

Fernanda Coutinho, enfermeira do Hospital de Barcelos há 16 anos, está a dar os primeiros passos na experiência Covid-19. Trabalha no Serviço de Urgência, onde os primeiros doentes chegaram há dias. No primeiro embate, "parece que caiu a ficha a toda a gente". "A realidade chegou" e sentiu-se "alguma desorganização", os circuitos planeados ainda não estavam a funcionar, as enfermarias que iam receber aqueles doentes ainda não estavam totalmente prontas, o que prolongou as estadias na Urgência.

Especialista em enfermagem médico-cirúrgica, Fernanda acredita que as falhas vão ser rapidamente corrigidas, mas admite que ficou apreensiva. De resto, tem a certeza de que, daqui em diante, os dias serão cada vez mais intensos e fará de tudo para cumprir criteriosamente todas as medidas preconizadas, incluindo as de proteção. "Se falharmos pode ser muito grave", atenta.

Ainda não sabe o que a espera no mês de abril, mas o mais certo é as escalas mudarem, passarem a ser "em espelho" (por exemplo, à quinzena, como no caso de Ana Neves) para se protegerem as equipas e os doentes, e os turnos serem mais longos. Mais do que o cansaço físico - "todos dizem que lido bem com isso - aflige-a o desgaste psicológico a que os profissionais de saúde ficarão sujeitos. "Quanto tempo teremos de lidar com isto?", pergunta, sem esperar resposta. "Não ter qualquer perspetiva de quando vai começar a melhorar, não ter um fim à vista deixa-me ansiosa".

Também no plano familiar terá de fazer mudanças. Está a equacionar sair de casa e ir morar com colegas que estão na mesma situação no centro de Barcelos. "Algumas vão deixar os filhos pequenos para os protegerem, é horrível", desabafa. Fernanda vive com os pais, ambos com idades próximas dos 70 anos, e nunca se perdoaria se algum deles ficasse infetado porque levou o vírus para casa.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG