Covid-19

Os trabalhadores que não podem mesmo ficar em casa 

Os trabalhadores que não podem mesmo ficar em casa 

Porque "a vida do país não pode parar", mensagem repetida diariamente pelo Governo, há quem tenha de continuar a sair de casa para desempenhar as suas atividades profissionais, independentemente do estado de emergência decretado no país.

Apesar da tecnologia atual permitir superar barreiras outrora impensáveis, o teletrabalho não é opção em alguns setores, sobretudo quando estão em causa aspetos fundamentais como a segurança, a mobilidade, a saúde ou o fornecimento de bens à população. No Porto e em Lisboa, o JN encontrou alguns destes profissionais que, nos próximos tempos, vão continuar a marcar presença nos seus empregos em prol de toda uma comunidade, com as necessárias adaptações nas suas rotinas e, sobretudo, sem nunca perder de vista que é preciso protegerem-se a si próprios e aos que servem.

Joana Ribeiro, agente de condução da Metro do Porto, tem de limpar o espaço onde trabalha várias vezes por dia.

De cada vez que troca de cabina com alguém, Joana Ribeiro, 23 anos, desinfeta sempre o espaço. É um cuidado acrescido, que demora mais 30 ou 40 segundos, apesar de as composições da Metro do Porto circularem já com um produto 99,99% eficaz contra o novo coronavírus. Este é também um setor em que não pode haver paragens, apesar do estado de emergência. Há, porém, cuidados extra a observar. "Não é aconselhado conduzirmos de luvas, portanto desinfetamos a cabina toda", revela a trabalhadora.

A desinfeção é feita através de um kit que a Metro do Porto disponibilizou a cada um dos trabalhadores com dois frascos de gel desinfetante, dois pares de luvas, uma máscara e toalhetes que permitem limpar as superfícies da cabina "mais facilmente".

A circulação começou a ser reduzida ontem porque, "em certos horários, os veículos circulavam praticamente vazios". As horas de trabalho são as mesmas.

O gel desinfetante em todas as salas para trabalhadores é o principal indicador do combate constante ao vírus. "Caso algum de nós tenha algum sintoma, existem também salas de isolamento com casas de banho e comida em todos os locais de paragem", afirma Joana.

Ao chegar a casa, a primeira coisa a fazer é despir a farda. "Fica tudo à entrada. Geralmente, tomo banho porque o ar condicionado, em alguns veículos, é partilhado com os passageiros, portanto o ar circula", esclarece Joana.

A par disso, e do aumento da lavagem das mãos ao longo do dia, a trabalhadora diz lavar a roupa do trabalho no próprio dia.


Técnico de Junta de Freguesia de Lisboa leva compras e almoços a casa, mas deixa tudo à porta para evitar os contactos

Consciente de que do seu trabalho diário depende a subsistência de muita gente, Vanderlei Badalotti, técnico superior de Ação Social na Junta de Freguesia de Santo António, em Lisboa, não tem parado nos últimos dias. "E vai ser assim, trabalhando até um pouco mais de horas, provavelmente", assume ao JN, quando confrontado com o estado de emergência declarado no país, que, no seu caso, lhe passa "completamente ao lado".

"Temos de levar as compras a casa das pessoas que não podem sair e continuar a garantir as refeições daqueles que já dependiam de nós", explica o técnico de 40 anos. Afinal, como destaca, "é preciso evitar que as pessoas morram devido ao coronavírus, mas também não podem morrer de fome".

Vanderlei assume que o apoio social é a sua vocação e que não pode falhar nunca. Pai de duas meninas, de 7 e 11 anos, diz que está preparado para, a partir de agora, passar ainda menos tempo com elas.

Para o técnico de nacionalidade brasileira, o trabalho tem sido mais difícil nos últimos dias, sobretudo pela necessidade de diversificar os locais de abastecimento. "Às vezes tem sido difícil encontrar os produtos", explica. Por outro lado, nas entregas de compras, não tem contacto com os moradores. "Deixamos na porta e eles depois levam para dentro", conta.

Vanderlei concorda que é "fundamental que as pessoas fiquem em casa", mas confessa um sentimento de contradição. "Passamos os dias a combater o isolamento dos mais velhos e agora somos nós mesmo a recomendar-lhes que fiquem sozinhos".


Agente da 9 esquadra do Porto sabe os riscos que corre, mas tem orgulho em poder ajudar quem está em isolamento social.

Segurança Sueli Pereira, 37 anos, agente da PSP, deixa todos os dias o filho em quarentena, entregue aos avós, mas chega sempre ao posto de trabalho com o mesmo espírito de missão: contribuir para que a vida em sociedade continue a decorrer com a maior normalidade possível. "Quando vimos para a Polícia sabemos que temos a missão de ajudar e que, quando acontece uma situação destas, temos de estar na linha da frente. No fundo, representamos Portugal e, apesar de nos custar, sabemos que a nossa missão é tranquilizar o cidadão", alega.

A agente da 9.a esquadra, localizada no coração do Porto, até prefere, no atual contexto de crise, estar de serviço, com a possibilidade de ajudar quem está remetido a um isolamento social. "Estamos aqui hoje, amanhã e nos próximos dias para mostrar ao cidadão que vamos vencer juntos", justifica. A família fica preocupada, mas também sabe que o papel de Sueli Pereira é fundamental nos dias que correm. "Eles já sabem que esta é uma profissão de risco, que esta é a minha missão e que estamos cá para ajudar. O meu filho deseja-me sempre boa sorte, diz-me para ter cuidado, mas nunca me pediu para ficar em casa", assegura.

Com a farda vestida, a polícia mantém o foco no combate à criminalidade - que continua a ser o principal objetivo de todos os elementos da PSP - mas aproveita as ruas vazias para contribuir com conselhos úteis a quem procura informações sobre o modo de agir num cenário nunca visto. "Não consigo ver a sociedade sem Polícia, temos de estar prontos 24 horas por dia", defende.


Farmacêutica de Lisboa vai limitar ainda mais as suas deslocações diárias entre casa e trabalho para evitar contágios

Os últimos dias têm sido de grande azáfama na Farmácia Fernandes, situada na Rua de São José, no coração de Lisboa. Foi preciso reajustar horários, redefinir escalas, reforçar a segurança e, sobretudo, servir e acalmar uma população assustada, que, lembra a diretora técnica, Ângela Silva, "chegava a querer levar tudo o que havia sem perguntar nada".

Os próximos dias não serão muito diferentes para a farmacêutica, de 37 anos, que "por sorte", mora perto do local de trabalho e consegue deslocar-se a pé. "Temos de continuar a servir a população, as pessoas precisam de ter acesso aos cuidados de saúde", observa, acrescentando que, apesar de tudo, esta semana "já se nota alguma acalmia" e o mesmo deve suceder nas próximas. "Como há menos empresas a laborar e mais pessoas em casa, notou-se bem a diferença. A semana passada foi o caos", explica.

Em plena pandemia do coronavírus, as preocupações de Ângela Silva estão, sobretudo, concentradas na segurança coletiva. "Eu venho a pé para o trabalho, mas vou evitar ainda mais as deslocações. Vai ser mesmo só casa-trabalho e trabalho-casa para não correr risco de qualquer exposição ao vírus. Porque, além de ter de me proteger a mim própria, não posso contagiar os que precisam de nós", refere.

O facto de não ter filhos acaba por ajudar numa altura destas, mas a reorganização de escalas num ramo de negócio em que se trabalha por turnos obriga a alguma flexibilidade. "Não sobra tempo para nada. É organizar as equipas e aproveitar os intervalos nas escalas para ir às compras", conclui.

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