SNS

Pandemia pôs a Saúde em todas as políticas, mas será para valer?

Pandemia pôs a Saúde em todas as políticas, mas será para valer?

A covid-19 colocou a Saúde em todas as políticas, uma reivindicação com décadas mas nunca concretizada. Saberão os atores políticos aproveitar a onda para galvanizar o Serviço Nacional de Saúde (SNS)? Que outras lições e oportunidades trouxe a pandemia? Especialistas ouvidos pelo JN acreditam que este pode ser um momento de viragem.

"É a primeira vez, no Mundo inteiro, que a Saúde esteve em praticamente todas as políticas. Ou somos capazes de aproveitar isto ou será mais um epifenómeno e daqui a uns seis meses voltamos a discutir as mesmas questões de sempre, aliás isso já está a recomeçar", nota o ex-secretário de Estado da Saúde, Francisco Ramos, cético sobre o futuro. "Duvido que haja líderes políticos com força e coragem para isto", remata.

Uma das oportunidades que emerge da pandemia é a possibilidade do SNS recuperar talentos perdidos nos últimos anos. "Há muitos profissionais, como os anestesistas, que depois desta experiência estão abertos a regressar ao SNS, temos é de criar condições para os acolher", defende Alexandre Lourenço, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares.

Francisco Ramos concorda, mas entende que "condições já existem, precisam é de um impulso", referindo-se aos centros de responsabilidade integrada, um modelo de gestão dos serviços hospitalares que valoriza o desempenho. "Com 100 milhões de euros atrairíamos centenas de profissionais para o SNS", realça.

Sem ação, sNS moribundo

Para Luís Cunha Miranda, presidente da Sociedade Portuguesa de Reumatologia, é preciso saber exatamente quantos e que profissionais faltam em cada hospital e tornar os processos de contratação mais ágeis. "A organização do SNS, em camadas de decisão, é obsoleta", critica. O especialista considera que, sendo Portugal um país envelhecido, a Saúde tem de estar em todas as políticas e é fundamental "um planeamento a dez anos para o SNS, um pacto para a Saúde que deixe de lado as ideologias".

Luís Miranda nota que "unanimidade política em torno de um objetivo" funcionou e acredita que este pode ser um momento de mudança. Mas não tem ilusões: "Estamos a embandeirar em arco a achar que o SNS está bom, mas não está. O que fez foi um esforço brutal para combater a pandemia, mas tudo o resto parou. Estava moribundo e vai continuar se nada se fizer".

PUB

Francisco Ramos acredita que "este pode ser o momento de corrigir algumas imperfeições e debilidades do sistema de saúde". As idas desnecessárias às urgências caíram durante o estado de emergência? "Não podemos voltar ao velho normal, o acesso à urgência só deve acontecer por referenciação", defende. O pluriemprego foi vetor de transmissão do vírus? "Aí está um argumento de saúde pública para não autorizar a acumulação [público/privado]", conclui.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG