Covid-19

Pandemia ressuscita antigas rotas clandestinas da emigração a salto e contrabando

Pandemia ressuscita antigas rotas clandestinas da emigração a salto e contrabando

Pontos de passagem recônditos que foram bloqueados no âmbito do estado de emergência são usados por pessoas de ambos os lados da fronteira no Alto Minho. Polícia Marítima detetou artes de contrabando.

O encerramento das fronteiras por causa da pandemia da Covid-19 fez regressar movimentações clandestinas no rio e em terra às zonas de atravessamento mais recônditas do Alto Minho. Desde 16 de março, naquela região há apenas um ponto de passagem, entre Valença e Tui, dos nove permitidos a nível nacional. A população das zonas altas de Melgaço sabe que pessoas atravessam regularmente a pé antigos caminhos outrora trilhados por emigrantes a salto para França e por contrabandistas. Provavelmente para fazerem compras no outro lado. E, no rio Minho, a Polícia Marítima já detetou mecanismos artesanais que permitem passar produtos entre margens.

"Ó presidente, olhe que ainda ontem esteve aí uma camioneta a descarregar", grita Alzira dos Anjos, para o presidente da Junta de Fiães, José Luís Douteiro.

A mulher é a única habitante da Rua de Quingosta, que conduz a uma pequena ponte sobre o rio Trancoso, um afluente do Minho, que dá passagem para Cela de Baixo em Espanha. A população chama à zona Penseira. José Douteiro acena que sim, agradece a Alzira a informação e estuga o passo. Explica depois, em jeito de brincadeira, já longe do olhar controlador da mulher, que ela é "a polícia" daquela fronteira.

No Alto Minho, segundo informação do Comando Territorial da GNR de Viana do Castelo, foram encerradas oito fronteiras: Vila Nova de Cerveira-Goian, Monção-Salvaterra do Miño, Valença-Tui, Lindoso-Aceredo, em Ponte da Barca, e em Melgaço, Peso-Arbo, São Gregório-Ponte Barxas, Castro Laboreiro-Azoreira e Castro Laboeiro-Guxinde (Entrimo).

"Fronteiras" tapadas

A zona fronteiriça que dá para Azureira também compreende território da freguesia de Fiães. Uma terra onde, apesar de não constar da listagem da GNR, foram fechados outros pontos de passagem, que as gentes usavam noutro tempo para atividades clandestinas: Alcobaça, Penseira, Pousafoles e Balçada.

"Tapei as quatro fronteiras com pedras grandes. Andei com o trator a transportar, mas na primeira e na segunda semanas foi uma trabalheira para mim e para a GNR. As pessoas desviavam as pedras", contou Cândido Lopes, o funcionário da Junta de Fiães. "Há pessoas que passam a pé. Algumas que têm animais vão levá-los a pastar ao outro lado".

O presidente da Junta de Fiães também admite que população local que possui terrenos de cultivo do outro lado do rio galga as fronteiras bloqueadas. E refere que após o encerramento, "trabalhadores portugueses que estavam em Espanha retiraram as pedras para poderem passar".

"É uma falta de Educação"

Ao JN, a "polícia" Alzira dos Anjos contou, indignada, que há movimentações furtivas junto à sua porta. "A esse da camioneta disse-lhe: "não pode passar que a fronteira está tapada". E ele respondeu: "eu já tenho lá quem leve o material"". "Passam aí todos os dias, de manhã e à noite, pessoas de Espanha. O que vêm cá fazer? Buscar comida para comer com certeza. Não vêm com o carro, mas a pé passam. Vão a Melgaço buscar coisas. Depois daqui chamam um carro para ir à vila", descreve

Mas não ´é tanto o movimento que incomoda Alzira. É mais a atitude. "Mal essa gente não faz, mas é uma falta de educação. Se a fronteira está tapada não deviam passar. Ainda hoje passaram aí os guardas com um jipe, mas eles vêm de manhã e as pessoas passam à tarde".

Fonte do Comando Distrital da GNR de Viana do Castelo, refere não haver registos de que as fronteiras do Alto Minho tenham sido furadas, à exceção de uma situação na fronteira de Lindoso, em Ponte da Barca, logo nos primeiros dias após o seu encerramento.

Artes de contrabando

No rio Minho, há sinais de atividade furtiva. Segundo o comandante da Capitania do Porto de Caminha, Pedro Cervaens Costa, a Polícia Marítima detetou nas águas, na zona de Monção e Melgaço, em três ocasiões diferentes, dispositivos artesanais de passagem de produtos de uma margem para a outra, que remetem para o tempo do contrabando. As artes foram encontradas em zonas mais estreitas do rio e a sua origem está a ser investigada.

Localmente, há relatos de populares que acreditam que os artefactos possam ser utilizados para passar até produtos estupefacientes. Até agora, não foi feita qualquer apreensão, além dos próprios artefactos.

"Temos notado nas patrulhas no rio que existem alguns mecanismos artesanais que vão de uma margem à outra. É um bocado um regresso ao passado, do tempo do contrabando e de quando as fronteiras estavam fechadas. Estamos a reviver isso", contou o comandante Pedro Cervaens Costa.

"Os dispositivos foram encontrados a montante, nos concelhos de Monção e Melgaço, onde o rio é mais estreito. Apreendemos dois ou três. Há realmente algumas atividades que estão a começar a acontecer. Andamos a investigar se há algo de relevante", pois o que está a atravessar o rio "pode ou não tratar-se de material ilegal".

Cervaens explica que os mecanismo são constituídos por "fio de pesca com grande extensão, enrolado em rolos, e que funciona num esquema de vaivém, entre as margens". "É um sistema muito parecido com o das embarcações fundeadas nas boias. Permite que alguém coloque alguma coisa numa margem e que seja recolhida na outra", descreveu.

Ainda segundo o comandante, neste tempo de pandemia "há muito menos movimento" no rio Minho, o que torna movimentações estranhas mais notadas. "As embarcações de pesca profissional são as únicas. O resto está tudo parado", diz.

719 pessoas não foram autorizadas a atravessar as fronteiras, apenas entre 19 de março e 2 de abril. Foram fiscalizadas 102 717 pessoas, mais de metade na fronteira Valença-Tui, onde 266 foram impedidas de entrar em Portugal. O maior número de situações por fundamento deslocações para compras em pequeno comércio e turismo de cidadãos espanhóis (587), brasileiros (100), romenos (65), alemães (38) e britânicos (35).

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