Manifestação

"Para eles só existimos no Natal". Sem-abrigo protestam junto ao Parlamento

"Para eles só existimos no Natal". Sem-abrigo protestam junto ao Parlamento

Cerca de 50 pessoas concentraram-se esta segunda-feira junto ao Parlamento, em Lisboa, exigindo melhores condições para os sem-abrigo. Alguns dos participantes vivem na rua, outros juntaram-se em solidariedade. Joacine Katar Moreira foi a única personalidade política a marcar presença.

"Estamos fartos de ser tratados como invisíveis. Agora, com a covid, as pessoas aproveitam para dar ordem de despejo e o Governo promete, promete e não dá nada", diz Sandra Tiago, 43 anos e na rua há dez.

As críticas ao presidente da República e ao presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, também não faltaram. "Para eles só existimos no Natal e nas quadras festivas. Já chega", afirma.

Sandra é uma das quatro pessoas em situação de sem-abrigo que organizaram o protesto. Também tiveram, revela, o apoio de um grupo de frequentadores do centro comunitário Regueirão dos Anjos, em Arroios.

"Já vivi em instituições, mas as regras são piores do que as prisões", diz Sandra. "Não temos condições, há roubos, os monitores batem-nos e a Santa Casa ganha balúrdios com isso. É preferível ficar na rua", garante.

José ainda não vive na rua, mas aguarda uma ordem de despejo e já se mentalizou de que é apenas uma questão de tempo até esse dia chegar. Há três anos, quando ainda trabalhava, um acidente de viação atirou-o para uma cadeira de rodas. "Desde aí aguardo um subsídio", diz ao JN, antes de as lágrimas lhe interromperem o discurso.

Mas José recompõe-se. Diz que "não há nada a esconder" e quer continuar a falar. "Recorri à Santa Casa, mas até hoje... Estou à espera de um rendimento, de uma pensão digna".

José recorda com saudade os tempos em que era serralheiro e ajudou a recuperar o antigo edifício onde funcionavam o Diário de Notícias e a redação de Lisboa do Jornal de Notícias, no Marquês de Pombal. "Todas aquelas janelas foram retiradas por mim".

Joacine foi a única deputada presente

A maioria dos manifestantes eram pessoas solidárias com os sem-abrigo, mas havia várias que vivem na rua. Ao fim de mais de uma hora - já uma parte da meia centena de pessoas tinha dispersado -, alguém pegou pela primeira vez no microfone.

António Santos, outro dos organizadores da concentração, foi quem falou. Agitado, lançou a pergunta: "Onde é que está o Jerónimo de Sousa? Onde está a Catarina Martins? Onde anda o Ventura? Saiam da toca e deem a cara!"

Alguns minutos depois, quem apareceu foi Joacine Katar Moreira. A deputada não inscrita foi saudada por António, que era quem mais tempo passava ao microfone: "Foi a única que deu a cara, obrigado por ser a pessoa que é. Aqui não há racismo. Quando eu via as coisas contra si na televisão, pensava: 'Se tivesse um buraco enfiava-me, como português'". Joacine agradeceu.

Ao JN, a parlamentar lembrou que o direito à habitação está consagrado na Constituição portuguesa. Dessa forma, argumentou, "a entidade que precisa verdadeiramente de ser responsabilizada é o Estado".

Joacine disse também que, "numa época de pandemia e de emergência sanitária", se torna ainda mais necessário "combater e minimizar" as dificuldades por que passam os sem-abrigo. A deputada acrescentou ainda que, segundo os testemunhos que ouviu da boca de quem vive na rua, o maior problema não é a inexistência de organizações de apoio, "mas sim a sua ineficácia".

"Câmara e Santa Casa têm milhares de casas fechadas"

António Santos disse sentir-se "revoltado" por ver "mais gente na rua do que quando mandava o Passos Coelho". Nos últimos tempos frequentava a associação Seara, encerrada na semana passada pela polícia por se ter instalado num prédio devoluto entretanto reclamado pelo proprietário. Garante que quem lá ia buscar conforto e abrigo vai voltar a cair nas ruas.

"A Câmara e a Santa Casa têm milhares e milhares de casas fechadas", lembra; ele, pelo contrário, só dispõe de um cartão, que lhe serve de cama "onde calha". Foi tudo isso que o fez impulsionar o protesto. "Hoje por mim, amanhã por vocês".

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