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Para lá da porta dos cuidados intensivos, uma enfermeira desenha o "outro lado da pandemia"

Para lá da porta dos cuidados intensivos, uma enfermeira desenha o "outro lado da pandemia"

Nunca se interessou pelos pontos, linhas e formas. Preferia as palavras. Até que veio a pandemia e um gesto de alento tornou-se mais do que uma folha de rascunho. Marli Vitorino, enfermeira, trabalha numa unidade de cuidados intensivos, em Lisboa. O desenho tornou-se uma terapia e ajudou-a combater o stresse e a ansiedade de lutar contra uma doença nova e imprevisível.

Em meados de março, o Hospital Santa Maria, em Lisboa, preparava-se para abrir a primeira enfermaria do país dedicada a doentes covid, com capacidade para 22 pessoas, e uma unidade de cuidados intensivos (UCI) para 11 infetados. Marli Vitorino, de 30 anos, até então a trabalhar numa unidade médico-cirúrgica, foi destacada para auxiliar no tratamento à nova doença. "Os doentes surgiam a conta-gotas, a afluência não foi imediatamente muito grande", recorda. A enfermeira lembra-se de estar na UCI do Santa Maria apenas com um doente, "que estava estável".

Porém, já nessa altura, os óculos, a máscara e o fato de proteção pesavam no corpo dos profissionais de saúde e a preocupação em lidar com um vírus, do qual sabiam muito pouco, aumentava a cada minuto. "Dividíamos os turnos e estávamos no máximo três horas dentro do isolamento. Mas aquelas horas pareciam um dia inteiro de trabalho. O cansaço era enorme e o desconforto também". Ainda com poucos doentes para tratar, sozinha numa sala de UCI e desesperada por ver o tempo passar, Marli agarrou numa folha de rascunho e começou a desenhar o que via em seu redor. Mais tarde colocou o esboço na porta dos cuidados intensivos: um profissional de saúde "mascarado" contra a covid-19 e a frase "Stay Together" ("Fiquem Unidos").

O ato espontâneo da enfermeira valeu-lhe depois várias reações dos colegas que lhe perguntavam insistentemente quando ficaria pronto o próximo desenho. Os dias foram passando e a pandemia evoluiu. Se nos primeiros tempos ainda era possível desenhar dentro da UCI, a gravidade da doença remeteu a "terapia" para casa. Marli Vitorino, que nunca mostrou uma aptidão especial para o desenho, encontrou uma maneira de diminuir o stresse e a ansiedade do trabalho. "Começou a fazer parte do meu dia-a-dia", relembra, numa altura em que estava longe da família e "afastada do suporte emocional". A enfermeira, natural de Torres Vedras, aproveitou a boa vontade de algumas pessoas que disponibilizaram casa aos profissionais de saúde. Marli residiu algum tempo em Lisboa para descansar melhor e recarregar baterias. O desenho foi uma "fonte de escape para tentar gerir as emoções".

O "salto" dos desenhos para as redes sociais foi quase intuitivo. Se as reações eram tão positivas, porque não dar a conhecer a mais pessoas? Assim foi. Incentivada por colegas, a enfermeira criou a página "O outro lado da pandemia" no Facebook e no Instagram, onde expõe um pouco do dia-a-dia numa unidade de cuidados intensivos, sejam as dificuldades, os desabafos ou as alegrias. "Eu percebi que poderia enviar uma mensagem às famílias das pessoas de quem estávamos a cuidar e mostrar efetivamente o que enfermeiros, médicos e assistentes operacionais fazem para lá das portas dos cuidados intensivos, a chamada 'porta mística'", esclarece Marli. Para a enfermeira, ainda existem muitas ideias erradas sobre as UCI, como por exemplo, "todos os que vão lá, vão morrer".

"Às vezes, costumo dizer que fui salva pelo desenho, quando achei que ia escrever", afirma. Antes da pandemia e durante os tempos livres, Marli encontrava inspiração em vários momentos e apontava algumas palavras num bloco de notas. No projeto "O outro lado da pandemia", cada desenho é acompanhado de uma reflexão que serve para "dar voz" a cada traço feito a lápis ou a caneta. Numa publicação é retratada uma realidade diferente e, por vezes, metafórica do vasto mundo dos cuidados intensivos: uma enfermeira vestida de Super Mulher, o espírito de equipa, a corrida contra o tempo, o consolo nos braços de outro, as seringas, os ventiladores e o desespero das famílias.

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Talvez um dos desenhos mais icónicos no projeto seja o de uma assistente operacional em pose, de saltos altos, à saída do turno de trabalho. "Foi um dos primeiros que fiz: tinha sido um turno atroz, de dez horas, tocou-me imenso ver a força dela. Para mim, aquilo foi um ato de coragem", recorda Marli Vitorino. A mensagem que quis passar aos outros foi: "não vamos [profissionais de saúde] baixar os braços por mais cansaço e dificuldades que possamos ter".

Apesar de ser uma terapia, os desenhos e os textos nem sempre foram lineares durante a pandemia. Houve momentos em que Marli Vitorino vacilou e julgou que não valia a pena continuar. Porém, o alento dos que partilhavam a UCI com ela dava continuadamente uma nova vida ao projeto, inclusive para os que estiveram infetados. "Lembro-me de ter lido um texto a um doente e ele disse-me que era arrepiante a forma como me tinha expressado sobre o tempo em que ele não esteve consciente [em coma nos cuidados intensivos]", refere.

Os números crescentes da covid-19 em Portugal refletiram-se no projeto. "A essência é a mesma", diz a enfermeira do Santa Maria. Mas, se no início, a esperança ditava muito do traço, a exaustão dos profissionais de saúde tornou-se agora um tema recorrente nos desenhos. Nada, no entanto, que desvirtue o que é o "outro lado da pandemia": "o não vacilar perante os desafios e o que podemos aprender com o que estamos a viver e jamais imaginávamos", conclui.

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