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As partículas poluentes dos incêndios de outubro de 2017 viajaram até ao Reino Unido

As partículas poluentes dos incêndios de outubro de 2017 viajaram até ao Reino Unido

Os incêndios de 15 e 16 de outubro de 2017, que vitimaram 50 pessoas em Portugal, tiveram impacto nos países do norte da Europa. O Reino Unido foi o país que recebeu fumo com partículas poluentes dos fogos portugueses, naquele mês e anos fatídicos. A conclusão é de um estudo feito em parceria pelo Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, a Universidade de Múrcia e a Universidade Rovira i Virgili.

Logo após os incêndios de outubro de há três anos, um estudo ganhou forma pelas mãos de nove investigadores, divididos entre Espanha e Portugal. No nosso país, o ano de 2017 foi fatídico em época de incêndios -- até novembro desse ano 114 pessoas perderam a vida em fogos. Os dois grandes incêndios em Pedrógão Grande, em junho, e na zona Centro (Arganil, Seia, Oliveira do Hospital, entre outros) provocaram comoção nacional e internacional. Para além disso, tornou-se óbvio aos olhos de muitos que era preciso investigar o que aconteceu antes, durante e após estes momentos.

Sofia Augusto, investigadora do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), é uma das autoras do estudo publicado há menos de um mês sobre as partículas poluentes dos incêndios, cujos resultados foram surpreendentes. É que o fumo dos fogos de outubro de 2015 chegou aos países do norte da Europa, mais precisamente ao Reino Unido, que nesse mesmo mês recebeu partículas poluentes dos incêndios. Os resultados chegaram aos investigadores através de imagens de satélite. "Surpreendeu-nos o facto de o fumo ter chegado tão longe. Os países nórdicos não estão habituados a lidar com isto", diz ao JN.

Na verdade, as partículas poluentes designadas por "PM" ("particulate matter" em inglês) tiveram uma ajuda para dispersarem. A tempestade Ophelia, que nesse ano também atingiu Portugal, empurrou a coluna de fumo para terras britânicas. "Chegou com intensidade e fez o efeito de uma ventoinha", diz Sofia Augusto.

Enquanto alguns países da Europa foram afetados pelos incêndios de 2017 de Espanha e Itália, o Reino Unido foi aquele que, na mesma altura, sofreu o impacto dos fogos portugueses de outubro. A juntar à poeira dos fogos veio também a poeira do deserto do Saara, quente e seca. Nesse ano, ao contrário do que é normal, também Inglaterra teve a sua época de incêndios.

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Apesar de terem chegado tão longe, as partículas poluentes terão chegado menos concentradas ao Reino Unido, já que com a dispersão do espaço, a poeira torna-se menos densa. "Não conseguimos medir partícula a partícula para saber onde foram parar, mas o lógico será que a maioria das partículas fiquem mais próximas no lugar onde são emitidas", explica a autora do estudo. Ou seja, a maioria terá ficado por Portugal.

No estudo, as partículas foram classificadas de acordo com a dimensão. "Estudámos a PM10 com diâmetro inferior a dez micrómetros", aponta investigadora do ISPUP, que revela que independentemente do tamanho, todas têm efeitos nocivos para a saúde. Mas, há "estudos que mostram que quanto mais pequena for a partícula, mais ela consegue penetrar no sistema respiratório", afirma Sofia Augusto.

Para já, não está posta de parte uma colaboração com investigadores do Reino Unido para avaliar até que ponto a coluna de fumo teve impacto na saúde dos britânicos. "Não nos fixamos nisso, mas queremos tentar identificar pontos e juntar os nossos estudos", conclui. Para a investigadora, o fenómeno que uniu Portugal e Reino Unido por uma coluna de fumo deverá ser cada vez mais recorrente, já que as previsões apontam que as tempestades tropicais vão ser também elas mais regulares, à boleia das alterações climáticas.

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