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Paulo Portas: "O PSD está dependente de clientelas"

Paulo Portas: "O PSD está dependente de clientelas"

Aos que o acusam de ter pressa de chegar ao poder por ter já avançado com a ideia de uma coligação pré-eleitoral, Paulo Portas responde que a situação do país exige urgência em mudar de Governo e considera que, à Direita, só o CDS pode influenciar o rumo político que garante apoio social aos que mais precisam.

Urgente é também dar o salto em frente. E, já que o PSD não quer para já falar de acordos, o líder do CDS, que se recandidata sem opositor a novo mandato nas directas no dia 12, acusa o partido de Passos Coelho (tal como o PS) de colonizar o Estado, de ser clientelar e de estar dependente de baronato e do caciquismo.

No dia em que Portugal pedir ajuda externa, cairá o Governo?

Se Portugal for atirado para a ajuda externa, oficializa-se o protectorado, passaremos a ser co-governados e com essa ajuda virá uma receita socialmente dolorosa e economicamente recessiva.

Não é a que temos já?

De facto, já cá está o que eu chamo de fundo monetário informal.

É esse o timing para derrubar Sócrates?

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Disse há muito tempo que este primeiro-ministro não servia e os factos deram-me razão. Tenho uma certa dificuldade em compreender que se diga que este primeiro-ministro é incompetente, mas que deve continuar, ou que se diga que a situação do país é péssima, mas que vamos continuar assim, ou ainda que se diga que o Orçamento é horrível, mas viabiliza-se. É preciso tirar consequências.

Com uma moção de censura?

Para uma moção de censura passar são precisos 116 deputados. É preciso medir o texto e contexto. Se a moção não passa, Sócrates sai do hemiciclo a dizer que ganhou. O meu peditório não é esse.

Não esclarece se votará a favor de moções de outras bancadas?

Não vamos dificultar.

Isso quer dizer o quê?

Já disse mais que os outros líderes. Não posso dizer mais sem analisar as circunstâncias. E não digam que sou impaciente e sôfrego.

Há quem o acuse de ter pressa de chegar ao Governo...

A esses, lembro que cada bebé que nasce em Portugal já deve 15 mil euros, antes de dizer papá e mamã, por conta da dívida pública. Sou eu que sou impaciente, quando há 600 mil desempregados? São penalizados os mais pobres dos pobres, que são os idosos. O PS e o PSD nem pestanejaram quando tomaram a decisão de retirar protecção social a quem mais precisa, eliminando abonos de família e pensões para idosos.

Foi um erro o PSD ter viabilizado o OE? Teria sido preferível uma crise?

Teria sido possível obrigar o Governo a fazer um orçamento melhor. A verdade é que se não for o CDS, a questão social fica apenas no território do BE e do PCP, cujos modelos de Estado e de sociedade nunca se definiram para liberdade e prosperidade. O PS e o PSD negligenciaram a questão social, que não esteve sequer nas negociações.

Que teria feito o CDS no lugar do PSD?

Teria forçado um Orçamento melhor e exigiria provas do controlo do endividamento, que a consolidação das contas públicas não tivesse como consequência obrigatória uma recessão, que os mais desfavorecidos fossem protegidos e se fizesse um esforço mais sério para que o Estado reduzisse a despesa. Era um caminho diferente.

Conhece bem Pedro Passos Coelho?

Conheço-o há muitos anos.

Fala com ele com frequência?

Quando eu tiver um conversa pública com ele, essa conversa será pública.

O PPM anunciou que apoia a sua ideia de coligação pré-eleitoral. Espera uma reviravolta do PSD?

É interessante a posição do PPM. Quanto ao PSD, não fiz proposta, fiz uma declaração do meu pensamento. Pus as cartas na mesa como era a minha obrigação perante o partido e o país. Não faço propostas para serem recusadas.

A sua ideia pode ser entendida como um sinal de fraqueza, de quem teme ir a votos sozinho.

Nunca tive medo. Sobrevivi a tudo do ponto de vista eleitoral

Não teme o voto útil da Direita no PSD?

Não, porquê? A sociedade mudou muito, as pessoas são muito mais exigentes. Acha que Portugal ainda vive o sequestro ou a cobardia de não se poder ser de Direita democrática? Isso já lá vai.

O PSD não quer acordo pré-eleitoral, o senhor já disse que não repetirá a experiência de 2005. Que condições porá para entrar num futuro Governo?

Devíamos sentar-nos à mesma mesa e analisar sector a sector e identificar o tem que mudar. Há exemplos de como era possível e desejável um trabalho de entendimento prévio. Um deles é a limitação dos vencimentos dos gestores públicos. O PSD está contra porque tem uma dependência das clientelas das empresas públicas, de que, graças a Deus, o CDS está livre. Tanto o PSD como o PS têm uma prática de colonização do Estado pelos partidos. Quanto a um governo pequeno, coincidimos na ideia, mas nunca na hipótese de a agricultura deixar de estar no Conselho de Ministros. São matérias que se discutem antes e não depois. Este é o caminho que o PSD não quer.

Qual é o passo que se segue?

O objectivo do CDS é reforçar-se. Estão muito enganados os que pensam que a passagem dos 10% foi episódica. Ouço falar em votos por empréstimo, o dono do voto é o cidadão. Que género de cultura política é essa? A partir daqui, vou valorizar o nosso modelo de governação, inovador. No congresso, apresentarei propostas para um governo reduzido, menos clientelar.

Que ministérios são prescindíveis?

Ainda estamos a estudar isso.

A sua estratégia é de atacar o PSD?

É a de valorizar as vantagens comparativas do CDS na actual situação. Como se reforma o Estado se se depender clientelarmente do Estado? Muita gente percebe a dependência que o PS e o PSD têm das clientelas públicas. O CDS não tem. Quando o país precisa de uma política de máximo interesse público, é importante um partido que não dependa de caciquismos locais ou regionais e toda a gente sabe que o PS e o PSD têm muita dependência na sua estrutura interna desses baronatos e caciquismo locais. Ninguém pode estar à espera que o CDS fique caladinho. O CDS tem uma vontade indomável de crescimento...

E de chegar ao poder?

Não vou dizer que sim, mas realço que o entendimento nobre do poder é o exercício do bem comum. É evidente que consigo alterar mais as coisas a partir do Governo do que na Oposição. No Governo, tem-se essa possibilidade.

E qual é base negocial mínima do CDS?

Levar o CDS ao máximo de crescimento possível. O país só tem a ganhar com uma capacidade de influência e de decidir maior por parte do CDS.

O ciclo político mudou com a reeleição de Cavaco?

O presidente da República é uma pessoa que deve ser lida na fonte, medita o que diz e o que escreve. Por alguma razão abriu este mandato com o conceito de nova magistratura activa. Só isso permite perceber que haverá, porventura, uma intervenção mais intensa do chefe de Estado sobre a situação do país. Por outro lado, acho que não é possível ignorar que o candidato apoiado pelo Governo, que se envolveu na campanha, aliás num ponto excessivo, perdeu e de uma forma rotunda.

Quando fala em intervenção mais activa está a criticar o mandato anterior?

Não é uma crítica. Tinha prometido no primeiro mandato a cooperação estratégica e cumpriu. Só que a situação do país tornou-se muito mais grave em aspectos em relação aos quais o presidente foi fazendo avisos. O grau de responsabilidade dos políticos em Portugal pode medir-se entre os que percebem a gravidade da dependência externa do país e os que não percebem as consequências dessa dependência.

Cavaco deverá acompanhar com mais atenção a execução orçamental?

Os partidos não substituem o presidente nem o presidente substitui os partidos. É por isso que o CDS defende um reforço das competências do PR, nomeadamente no sector da justiça e na nomeação dos supervisores e dos reguladores.

Que espera da intervenção de Cavaco?

Nós somos nós e a nossa circunstância e o presidente vai viver também a circunstância que o país vive hoje. Eu faço parte daqueles que acham que a soberania foi sendo transferida progressivamente dos cidadãos para os credores. É por isso que eu digo que Portugal se está a aproximar perigosamente da situação que caracteriza os protectorados. Temos que dever pouco e crescer muito e o que sucede é que Portugal deve muito e cresce pouco. Esta circunstância pode valorizar a necessidade de intervenção do presidente da República.

Em que termos?

Não sou eu que vou sugerir qual.

Dependerá da execução orçamental?

Acho que ele está muito atento.

Vai deixar de ser líder se for para o Governo?

Continuarei a ser líder, mas não executivo. O que eu proporei na revisão dos estatutos é o seguinte: se nos próximos dois anos, o país puder escolher outro governo; e se o CDS conseguir um mandato para governar, os militantes devem saber hoje que eu defendo a separação entre cargos no Governo e partidários. É uma questão de franqueza. Um sinal que Sá Carneiro também deu.

Como é escolhido esse líder executivo?

O Conselho Nacional fica mandatado para adaptar a direcção executiva à separação dos cargos. Até dia 11, apresentarei a proposta de alteração estatutária.

Qual é a vantagem dessa alteração?

São duas razões essenciais. É um sinal para o exterior de não colonização do Estado pelos partidos. Internamente, destina-se a manter o partido forte. Pela minha experiência, quando se vai para o Governo, a tendência é para o partido perder autonomia, voz e identidade. Não quero que isso aconteça ao CDS. No quadro de uma coligação, o partido tem de manter o seu nervo e a sua força.

Mas a designação de um líder executivo pode ser uma prática dinástica.

De todo. Havia essa intenção no Egipto e está a terminar.

É o líder partidário mais novo, mas também o que há mais tempo está em funções. Já disse que quer fazer outras coisas fora da política. Este será o seu último mandato?

Não é possível dizer isso nem o contrário disso. Sou candidato a líder para mais dois anos e espero reunir o maior número de votos. Não me falta vontade. Mas não sou o Kim Il Sung.

Porque acha que não tem adversários na eleição interna?

Por razões de estabilidade. Mas vai haver debate interno.

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