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Pedro Adão e Silva: Partido Socialista pode apoiar Manuel Alegre

Pedro Adão e Silva: Partido Socialista pode apoiar Manuel Alegre

Foi membro do Secretariado Nacional do PS na direcção de Ferro Rodrigues, mas entretanto afastou-se da militância. Assina textos de opinião regularmente na imprensa e faz comentários no Rádio Clube Português. Foi convidado por José Sócrates para integrar o grupo que redigiu a moção estratégica que o secretário-geral vai levar ao congresso de Fevereiro. Mas, ao JN, confessa não ter vontade de regressar à política activa.  

Ficou surpreendido com o convite para participar na redacção da moção que José Sócrates vai levar ao próximo congresso do PS, no final de Fevereiro? Porque é que acha que foi convidado?

Fiquei surpreendido, claro, por estar afastado da vida política partidária. Acho que o convite tem a ver com o reconhecimento de uma necessidade de o PS integrar várias vozes e que a força de que o partido precisa para se apresentar nas próximas legislativas depende da capacidade de abertura e de pluralismo.

Os temas que constam da moção, designadamente o dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo, tem em vista essa abertura? Resulta de uma necessidade de conquistar pessoas mais à Esquerda?

Acho que a afirmação do PS à Esquerda não se faz nos temas dos costumes, faz-se nos temas económicos e sociais. Percebo o apelo mediático do tema (casamentos entre pessoas do mesmo sexo), mas o essencial da moção são as questões económicas e sociais e a questão das desigualdades.

O que é que está inscrito na moção sobre isso?

Está o reconhecimento de que o PS tem um importantíssimo património no combate à pobreza mas que o próximo ciclo implica que seja feito um esforço para responder às classes médias e às classes médias-baixas, nomeadamente em sede fiscal. É preciso utilizar os instrumentos fiscais de modo a promover mais a justiça social, nomeadamente fazendo com que as classes médias vejam as suas deduções com despesas sociais serem maiores do que aqueles que ganham muitíssimo.

E acha que isso vai acontecer numa próxima legislatura? Porque agora o Governo tem dito que não vai mexer nos impostos...

Isto não é uma mexida nos impostos no sentido de aumentar ou diminuir, é uma mexida no sentido de redistribuir em torno dos vários escalões. O que me parece é que esta crise veio tornar mais premente a necessidade de proteger mais as classes médias. Esta moção é um conjunto de princípios programáticos, a seguir será densificada num programa eleitoral que será sufragado e, se o PS vencer, será traduzido em medidas políticas. Há um novo ciclo, que tem a ver com o facto de ter havido novas eleições legislativas, mas também com o contexo, que mudou radicalmente. Um novo contexto precisa de novas respostas e não apenas de uma continuidade.

E o que poderá ser feito para ajudar as classes mais desfavorecidas?

A meu ver, é preciso que quem ganha menos possa fazer deduções maiores do que aqueles que ganham muitíssimo, isto tem um grande impacto redistributivo. Depois há uma questão moral que é saber se os que ganham muitíssimo devem estar no mesmo escalão dos que ganham muito. Ou seja, quem ganha 3500 euros por mês deve estar no mesmo escalão que aqueles que ganham 20 mil euros/mês? Eu acho que não.

Mas está a falar num novo escalão de IRS? 

Não necessariamente. Pode ser uma solução que passe por taxar o remanescente do rendimento acima do escalão mais alto. Mas isto não é uma posição minha. Já foi defendido pelo presidente da República e pelo dr. Fernando Ulrich, que é presidente de um dos maiores bancos. O que me parece é que esta crise, nomeadamente pelos exemplos de gestão danosa, veio tornar esta questão mais premente. É uma questão moral e de justiça, um sinal que deve ser dado.

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Fala na importância das questões sociais e na atenção aos mais pobres. Como é que acha que essas pessoas vêem estes apoios que o Governo tem vindo a dar aos bancos?

Numa situação destas, estabilizar o sistema financeiro deve ser o primeiro passo porque é necessário para que haja liquidez nas economias e dinheiro a circular. Proteger os bancos significa proteger o emprego e as pessoas. Agora, é preciso também dar sinais de estabilizar o rendimento das famílias. Há duas prioridades: proteger o emprego e estabilizar os rendimentos das famílias que perdem o emprego, designadamente nas despesas com a habitação. Julgo que no curto/médio prazo vai ser preciso encontrar soluções para proteger a propriedade privada das casas daqueles que perdem o emprego. Não é algo de novo, quando foi a Grande Depressão nos EUA o presidente Roosevelt uma das coisas que fez foi garantir que quem tinha uma casa de que era proprietário e era afectado pela crise não perdia essa propriedade, até porque é uma forma de manter o crédito dos bancos relativamente estável.

Mas como é que o Governo pode fazer isso?

Os Estados, e não apenas o português, vão ser obrigados a encontrar formas de garantir que, durante um período de tempo, as pessoas não perdem a propriedade da casa por serem afectadas pela crise. O que esta crise está a revelar é que não são apenas as empresas que não são competitivas que são afectadas pela crise, são também as competitivas, como por exemplo a Quimonda. Não é uma questão só de fazer ajustamentos, substituir emprego pouco competitivo por emprego competitivo. É uma questão de proteger para que depois da crise as coisas possam voltar à normalidade.

E como é que isso pode ser feito?

Subsidiando. O Estado tem de recorrer a soluções que seriam completamente erradas noutro contexto, mas a alternativa a não aumentar a despesa pública é entrarmos numa crise social e política de contornos difíceis de antecipar e muito grande.

E o Estado tem capacidade para subsidiar?

O Estado não tem alternativa. Com a retracção do investimento privado, o Estado tem de ocupar esse lugar. E não é um exclusivo do caso português. As democracias vão estar todas perante esta situação e vão ser obrigadas a recorrer a soluções que, há um par de anos, seriam completamente erradas.

A crise pode favorecer o PS nas eleições?

Esta crise tende a favorecer quem está no poder. As pessoas têm percepção que os factores que a causaram são importados e que ela é suficientemente grave para que não convenha acrescentar turbulência àquela que já existe. Utilizando uma metáfora, em situações em que o navio está a afundar, a última coisa em que os passageiros pensam é mudar a tripulação.

É possível o PS governar sem maioria absoluta?

O objectivo da maioria absoluta é ainda mais necessário neste contexto. Se somarmos à crise económica e social uma crise política, teremos muito maior dificuldade em ultrapassá-la. O que nós precisamos é de um Governo forte. Se tivermos um Governo fraco num contexto de crise económica e social as coisas serão muito piores.

E se a maioria absoluta não acontecer, quem deve ser o parceiro do PS?

Logo se verá. Abrir cenários “b” é a melhor foma de fragilizar o cenário “a” e eu acho que o país precisa de um governo forte.

Manuel Alegre é uma vantagem ou um óbstáculo para chegar à maioria absoluta?  

As instituições precisam de memória para se projectarem no futuro e, portanto, eu acho que um PS forte é um PS com Manuel Alegre. O PS será tanto mais forte quanto mais plural e mais capaz de integrar as várias vozes que existem dentro do PS. É essa a força do partido, portanto seria um erro, nesta fase, excluir. O PS deve ter uma atitude inclusiva, é preciso que Manuel Alegre demonstre vontade no mesmo sentido.

Alegre podia ser o candidato do PS às presidenciais?

Sim.

E seria uma boa solução?

É uma solução. Não há boas soluções. Há menos más.

Quando é que o PS devia tomar essa decisão?

Há um ciclo eleitoral de três eleições. Primeiro o PS tem de se concentrar e depois seguirá o seu caminho. 

Há espaço para um outro partido à Esquerda do PS?

Pode haver um espaço conjuntural, mas é um espaço que no médio prazo desaparecerá. A política faz-se nos grandes partidos. Um partido à Esquerda do PS seria um epifenómeno, que prejudicaria a Esquerda e tenderia a desaparecer no médio prazo.

Já foi dirigente do PS, afastou-se há algum tempo. Tem vontade de voltar à actividade política mais activa?

Tenho a minha vida profissional e não está no meu horizonte neste momento suspendê-la.
  

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