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Fecho dos centros de estudo deixa crianças sozinhas nos recreios

Fecho dos centros de estudo deixa crianças sozinhas nos recreios

Há alunos que com as escolas abertas e os centros de estudo e ATL fechados vão ter de ficar nos recreios das escolas, sozinhos em casa, ir para o trabalho dos pais ou ficar com os avós por não terem onde ficar após as aulas, alertam proprietários.

Há petições contra o fecho destes estabelecimentos que em poucas horas recolheram milhares de assinaturas. Há uma que já tinha mais de 13 mil assinaturas, mas a autora falhou a autenticação do cartão de cidadão e teve de começar do zero com nova iniciativa.

"Sou a favor do fecho das escolas durante este estado de emergência e acredito que no final do mês isso possa ainda acontecer por as medidas serem insuficientes para reverter a curva epidemiológica. No entanto, ou se mantinha todos os estabelecimentos abertos ou se fechava tudo, assim o Estado está a tirar a mão aos pais", protesta Maria Semedi, uma das sócias-gerentes do Centro de Estudos Juanna's (Parede, Cascais) que lançou na quinta-feira à noite a petição "Não ao fecho de Centro de Estudos e ATL'S" e que esta manhã já conta com mais de 13 mil assinaturas.

"Tivemos que nos manifestar independentemente dos resultados da petição", frisa, sem esconder a "revolta". O problema é que Maria e a sua sócia Ana Martins, que decidiram pela primeira vez lançar uma petição, falharam na autenticação do cartão de cidadão e tiveram de lançar nova petição esta sexta-feira de manhã - tem o mesmo texto e o título "Não ao fecho de Centros de Estudo" e conta com mais de 400 assinaturas pois é o link da outra anterior que está a ser partilhado nas redes sociais.

As duas estiveram até quase à meia-noite de quinta-feira a informar os pais que hoje não abriam portas. Receberam telefonemas de mães que ligaram "a chorar por não terem outra solução senão deixar os filhos com os avós ou a ter de os levar para o trabalho até às aulas". Há ainda alunos que vão ficar a deambular pelas escolas até os pais os irem buscar, outros que ficarão em casa sozinhos, porque muitos pais não têm teletrabalho e muitos alunos não estão inscritos nas atividades de enriquecimento curricular (AEC) ou nas componentes de apoio à família (CAF) que funcionam dentro de escolas públicas e, por isso, se mantêm a funcionar.

"Há centros de primeira e centros de segunda", insurge-se Diogo Moreira, um dos proprietários do centro Oficina Mente Ativa (Pontinha, Odivelas) que subscreveu e partilhou outra petição - "Salas de estudo em funcionamento durante o confinamento" que conta com mais de sete mil assinaturas.

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Pais não sabem se têm apoio da Segurança Social

"É uma injustiça e tremenda hipocrisia. Então as escolas não se mantêm abertas pelo desenvolvimento dos alunos? E nesta situação, há alunos que ficam sem sítio onde comer, onde ficar e sem apoio e é esta situação que os beneficia?", critica Diogo Moreira, explicando que no seu caso o centro fica próximo de escolas que só estão a servir refeições take-away pelo que os alunos não comem dentro do agrupamento.

Há pais que vão levar os filhos para o trabalho, outros não o podem fazer, aponta, dando o exemplo de uma família dos seus alunos em que pai e mãe são motoristas na Carris. No seu caso, menos de um quarto dos pais têm teletrabalho e a maioria dos alunos têm menos de 12 anos - ou seja, frisa, "de acordo com a lei é crime deixá-los sozinhos em casa, a Segurança Social pode retirá-los aos pais por abandono e eles hoje foram trabalhar sem saberem se a Segurança Social irá dar o mesmo apoio que deu em março".

O JN já interpelou o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS) sobre os apoios previstos para pais com filhos menores de 12 anos que não têm onde ou com quem deixar os filhos depois das aulas mas ainda não recebeu resposta.

"Os centros de estudo são apoio não só para as crianças mas também para os pais que não têm avós ou alternativas", sublinha Ana Martins, que teme que o fecho destes estabelecimentos provoque ainda maior circulação e ajuntamento de pessoas em locais de trabalho ou escolas, resultando num efeito oposto em termos de contágios.

Ana Martins e Maria Semedi admitem avançar para lay-off por a maioria dos seus alunos serem de 1.º, 2.º e 3.º ciclo. O serviço de explicações para alunos do Secundário, à hora, que também disponibilizam, passará a ser feito online. Já Diogo Moreira é um de três sócios a recibo verde, trabalhadores independentes "sem direito a lay-off. Vamos oferecer serviço online", diz, manifestando a esperança que a petição consiga reverter o fecho dos centros e ATL (centros de ocupação de Atividades de Tempos Livres), "no mínimo, na próxima renovação do estado de emergência, daqui a 15 dias, que serão uma tormenta para os pais".

Os dois centros abriram em 2019 e perderam, este ano letivo, cerca de metade dos alunos devido às regras impostas pela pandemia como o distanciamento entre os alunos nas salas. "E temos divisórias em acrílico, regras que as escolas não conseguem cumprir", destaca Diogo Moreira.

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