Política

Poiares Maduro defende que direita não pode confundir "projeto de poder com projeto de país"

Poiares Maduro defende que direita não pode confundir "projeto de poder com projeto de país"

O ex-ministro do PSD Miguel Poiares Maduro defendeu esta quarta-feira que o centro-direita só deve voltar ao poder com um "projeto para o país", alertando para o risco de ficar "refém" de cedências aos "extremos políticos".

Numa intervenção na convenção do Movimento Europa e Liberdade (MEL), num painel sobre "O caminho das liberdades", o antigo ministro de Pedro Passos Coelho - que assistiu à sua intervenção na primeira fila - alertou para os perigos do fim da alternância política em Portugal, mas traçou linhas para a sua área política.

"Muitos entendem que a necessidade de oferecer uma alternativa se sobrepõe à qualidade dessa alternativa. Não é o meu caso. De pouco serve unir todo o espaço não socialista se as diferenças no seu seio forem tão ou mais graves do que as que nos separam do outro lado. Não devemos confundir um projeto de poder com um projeto para o país", considerou.

Para Poiares Maduro, "o país não pode ficar refém democrático de uma escolha entre dois projetos políticos oportunísticos, incoerentes e incapacitados pelas suas cedências respetivas aos extremos políticos".

Questionando-se como é que o centro-direita pode em Portugal ter um projeto alternativo de sucesso para chegar ao poder, Poiares Maduro considerou que "a resposta mais simples é liderança".

"Como explico aos meus alunos, a definição mais correta de liderança é quem é capaz de redefinir, de expandir as margens do politicamente possível (...) Esperar mudar continuando a fazer o mesmo, como dizia Einstein, é a definição de insanidade. E eu espero que o país não caia nessa definição de insanidade", afirmou.

Na sua intervenção, o académico apontou como marcas à governação do PS "a ocupação partidária da máquina do Estado, o ataque à independência da magistratura e entidades reguladoras e a opacidade permanente".

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"Mas, não basta substituir o PS no controle do Estado, é necessário substituir a cultura política que permite esse controle por qualquer partido. Isto exige uma verdadeira agenda de reforma das instituições e do Estado: que despartidarize os processos de seleção e promoção dentro da máquina do Estado; que reforce e proteja as entidades independentes; que promova a transparência e combata os conflitos de interesse", defendeu.

Para o antigo governante, "o principal problema português não é o peso do Estado na economia", mas "o peso do partido do poder no Estado".

"Um Estado que não assume uma posição de neutralidade não é um Estado de Direito. É um Estado de favores e compadrio, castas e privilégios. É isso que tem sido boa parte da história do nosso Estado, em ditadura e, infelizmente, também em democracia", criticou.

Para Poiares Maduro, "este continua a ser o país em que uns entram pela porta principal, enquanto outros apenas acedem pela porta de serviços", mas considerou que "o combate a fazer não pode ser, no entanto, aquele de substituir o porteiro de serviço", mas garantir "a neutralidade deste perante todos os cidadãos".

"Para isso necessitamos de despartidarizar o Estado e reforçar as instituições e mecanismos que controlam e escrutinam o poder. Tudo o contrário do que têm feito o Partido Socialista e este governo", defendeu.

O antigo ministro criticou ainda a relação com a verdade no discurso político, quer à esquerda - que disse promover "uma cultura de cancelamento e de policiamento do discurso" -, mas também à direita, onde disse que "há quem promova uma cultura que parece normalizar qualquer discurso, transformando ofensas e preconceitos em opiniões políticas".

"A democracia tem de respeitar mesmo os intolerantes, mas isso não deve ser confundido com respeito por essas ideias", avisou.

No mesmo painel, o antigo dirigente do PS Álvaro Beleza defendeu que "não há verdadeira democracia sem tolerância e sem diálogo".

"É importante que o debate seja feito sem berros, sem histeria, o país preciso de menos muros e mais pontes", apelou, pedindo, por exemplo, um "acordo de regime ao centro" na área da Justiça.

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