Covid-19

Por que desaparecem casos já confirmados de alguns concelhos?

Por que desaparecem casos já confirmados de alguns concelhos?

Porque nem sempre o concelho de registo é o mesmo do concelho de residência do utente e porque "os números são dinâmicos", diz a DGS. Salvador Malheiro, autarca de Ovar, levanta novas dúvidas sobre a contagem.

Vários concelhos do país têm visto diminuir nos últimos dias o número de casos de Covid-19 confirmados e divulgados pela Direção-Geral de Saúde no seu relatório diário de situação. Esta variação estará a provocar confusões de leitura quanto ao número de casos reais - e levantou já uma nova polémica sobre a fiabilidade de registos do SINAVE, o Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica, de onde saem os dados oficiais.

O exemplo do Porto é ilustrativo: na segunda-feira, 27 de abril de 2020, o Porto tinha oficialmente 1211 casos da nova doença provocada pelo coronavírus. Mas, dois dias depois, no relatório de situação da DGS de quarta-feira, 29 de abril, o valor tinha descido para 1187, perdendo assim 24 casos positivos de Covid-19. O que aconteceu a esses 24 casos?

Mais três exemplos: Braga tinha 1019 casos na segunda-feira e esta quarta-feira registava menos sete (1012); Santa Maria da Feira tinha 387 casos positivos na segunda e dois dias depois mostrava 380; Ovar marcou 564 casos no relatório de situação de segunda-feira e esta quarta-feira viu cair oito casos, somando agora, oficialmente, 556 pessoas que acusaram positivo.

O que aconteceu para vários concelhos estarem a ver diminuir o número de casos previamente confirmados? O trânsito dos dados e das pessoas, entre o local onde acusaram positivo e o concelho onde oficialmente residem. Haverá utentes que foram testados, por exemplo, no Porto e o seu caso entrou no boletim desse concelho, mas como o seu local oficial de residência é Matosinhos, passam mais tarde a figurar como positivos no concelho matosinhense.

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Se nuns concelhos pode diminuir, noutros pode aumentar. Vejam-se exemplos também tirados dos relatórios de situação divulgados pela DGS na segunda-feira e nesta quarta-feira: Lisboa tinha no início da semana 1413 casos e hoje tem 1447; Gaia registou 1263 na segunda e agora tem 1322; Matosinhos tinha 1017, hoje tem 1068.

"Números são dinâmicos", diz DGS
"É normal que haja estas oscilações porque os números são dinâmicos", disse já a DGS através do seu subdiretor geral de saúde, Diogo Cruz. "Tem a ver com aquilo que as autoridades de saúde ajustam, versus aquilo que é a primeira notificação que ocorre - que pode ser pelo sítio onde está a ser notificado ou pela morada que a pessoa tem no registo nacional de utente", explicou Diogo Cruz. Ou seja: nem sempre o concelho está inicialmente correto e são feitos ajustamentos permanentes.

"As oscilações são normais", repetiu aquele responsável na conferência de imprensa da DGS de terça-feira. E, perante uma pergunta do JN, deu este exemplo: "Uma mesma pessoa pode hoje ser notificada num lado, mudar-se depois para o sítio onde fica internada e mais tarde, por alguma razão, voltar ao local onde ficou notificada". Por isso, disse Diogo Cruz, "às vezes os números crescem, outras vezes podem decrescer", mas não desaparecem.

Diogo Cruz remeteu ainda o tema para a nota metodológica dos boletins da DGS, os quais indicam que os dados correspondem aos registos no sistema SINAVE, num total de 84% dos casos confirmados.

As polémicas sobre a fiabilidade dos números oficiais não são novas; já em março houve uma outra que dizia respeito a contagens duplas, por exemplo entre os dados das Unidades Locais de Saúde e a tabela da DGS, passando desde então a ser contabilizados, e oficialmente divulgados, só os casos da plataforma do SINAVE.

Salvador Malheiro duvida dos números
Esta quarta-feira à tarde, o autarca de Ovar, município que esteve em cerco sanitário de 17 de março a 17 de abril, publicou nas redes sociais uma nova reclamação sobre a veracidade do número de casos oficiais publicitados pela Direção geral de Saúde.

"O relatório da DGS apresentava ontem 564 casos no nosso município e hoje apresenta 556. Este número nunca pode diminuir!", exclamou Salvador Malheiro no Twitter, sublinhando a diminuição de oito casos oficiais.

Ouvido pelo JN, o presidente da câmara de Ovar vincou a sua afirmação inicial - "é impossível o número de casos diminuir, é matemática" --, dizendo depois que "tem que haver um erro, um lapso da DGS, porque não é de fácil explicação que haja diminuição de casos que já foram confirmados oficialmente. Estou a constatar o erro e o erro exige explicação", disse Malheiro.

"Ovar já tem 689 casos"
O autarca de Ovar eleito pelo PSD está a receber dados diretamente do Agrupamento de Centros de Saúde do Baixo Vouga, que estão, aparentemente, mais avançados no tempo do que os números da DGS. "Os números que possuo sobre o concelho de Ovar dizem que temos já 689 casos positivos de Covid-19 e não os 556 que foram divulgados".

Salvador Malheiro manifesta uma preocupação final: "Temo que estejamos a usar essa contabilidade, uma contabilidade que não é correta, como base de sustentação de medidas que tanto afetam e vão afetar os portugueses".

Segundo os dados oficiais mais recentes, a situação epidemiológica em Portugal regista agora 24.505 casos confirmados de Covid-19. Já morreram 973 pessoas e 1470 recuperaram oficialmente da doença respiratória.

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