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Porquê o colete amarelo? Conheça o primeiro a vesti-lo

Porquê o colete amarelo? Conheça o primeiro a vesti-lo

Chama-se Ghislain Coutard. Foi o primeiro "colete amarelo" a merecer aspas. Porque foi o pai da ideia de usar um sinal de apoio ao movimento social que crescia nas redes sociais.

Era finais de outubro, mais concretamente 24, já a famosa petição contra os aumentos dos combustíveis que esteve na origem de tudo tinha cinco meses. Essa tivera uma mãe, Priscillia Ludosky, lojista e "farta" de ver o fim do mês encurtar-se à medida da subida dos preços nas bombas de gasolina.

Nunca ela pensara no colete amarelo. Pensara apenas juntar 1500 fartos como ela. Mas só depois de uma jornalista local (vive na região de Paris) se cruzar com o texto é que conseguiu. Vezes mil. Era já outubro, início.

Dias depois, era Eric Drouet, camionista, que se cruzava com a notícia sobre a petição. Farto, também ele, dos aumentos que lhe punham em causa o hóbi dos fins de semana, o tunning. Desafiara os amigos do clube que frequenta a uma marcha lenta no "periférico" de Paris no dia 17 de novembro, nada a ver com o facto de ser camionista, porque ali é, acima de tudo, automobilista.

A petição entusiasmou-o. Falou com Priscillia, divulgou a petição e um jornal contou a história. foi "uma bola de neve". Branca, sem cor. O texto dela chegou aos 200 mil nomes, o evento dele aos 93 mil aderentes.

O Facebook fez o resto e a França entrou em ebulição, com a multiplicação de grupos e eventos locais e de vídeos no Youtube, incluindo os dirigidos ao presidente francês, Emmanuel Macron. Incluindo o de Jacline Mouraud, quinquagenária farta.

Até que surgiu Ghislain e o seu vídeo viral.

"Vi que as coisas estão a mexer para o dia 17 de novembro. Espero que vá mexer mesmo, que os franceses vão motivar-se, sair mesmo, fazer um pequeno bloqueio bem duro. Mostrar que não é só o futebol que mobiliza. Se pudermos fazer como em 1998 e 2018 para os mundiais, na rua pelo gasóleo, as taxas, tudo... Os que estão de acordo com o movimento mas estão a trabalhar, não podem, todos temos um colete amarelo no carro. Ponham-no em evidência, no tablier, toda a semana, até ao dia 17, um pequeno código de cor para mostrar que está de acordo. Vai motivar".

Ghislain filmou-se na cabine da sua carrinha e falou em código de cor, longe das teorias de comunicação que explicam por que razão a ideia dele viralizou como o vídeo, estendeu-se a outros países e está, por estes dias, a animar também Portugal.

Arnaud Beneditti, especialista em História da Comunicação ouvido pelo jornal "Le Monde", resume: o colete amarelo é acessível e isso, para comunicar, é o melhor que há. Acessível porque está em todas as malas de carro e pode ser comprado por três reis de nada, além de ser igual para todos. À vista, deixa apenas o amarelo fluorescente, esconde o nível de vida, o estrato social, a simpatia política. E dá nas vistas que dói, que é aquilo que mais se quer numa contestação.

Depois, diz o historiador, é fruto de uma obrigação comportamental imposta pelo Estado, que acaba por ser usado para contestar esse estado, no limite da subversão pacífica.

Por fim, é o sinal de emergência na condução. Portanto, serve para "mostrar que se está em desespero, que se está económica e socialmente na faixa de emergência", serve para dar visibilidade a "pessoas invisíveis, esquecidas".

Quanto a ser amarelo, calhou. Mesmo que, historicamente, o amarelo seja associado aos sindicatos associados ao patronato, contra os outros, vermelhos. Ghislain não terá ido tão longe na análise da sua simples ideia. Nem terá imaginado que o amarelo fluorescente se transformou inelutavelmente num símbolo de revolta. Para o bem e para o mal.

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