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Portugal entrou em défice ambiental: seis dias mais cedo do que em 2021

Portugal entrou em défice ambiental: seis dias mais cedo do que em 2021

Se toda a humanidade vivesse como uma pessoa média em Portugal, a capacidade do planeta para produzir os recursos necessários teria sigo esgotada este sábado, e a partir de hoje estaríamos já em "dívida" e a recorrer ao "cartão de crédito ambiental", consumindo os recursos de 2023. Este ano, o dia de sobrecarga da Terra foi atingido seis dias mais cedo no nosso país, já que em 2021 a data "só" foi assinalada a 13 de maio.

Susana Fonseca, da associação ambientalista Zero, diz que "é necessário começarmos a pensar muito mais sobre o nosso modelo de produção e consumo". "Melhoramos a eficiência de muitos bens e a forma como transformamos os recursos, mas continuamos a consumir demasiado e a usar muitos bens que têm vida curta, pelo que temos de estar sempre a produzir novas coisas. Não estamos a otimizar o que já está na economia, não há circularidade e muitos dos nossos recursos ainda acabam em aterro", lamenta.

Dados da Global Footprint Network mostram que há muitos países, nomeadamente os considerados desenvolvidos, com maior pegada ecológica do que Portugal (ver infografia). O Qatar, por exemplo, é dos primeiros a esgotar o tal cartão de crédito ambiental, não chegando sequer ao final de fevereiro. No caso de Portugal, demorou 127 dias a consumir os recursos naturais de que dispunha para 2022.

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Pontos críticos

São sinais de que, no geral, "não estamos ainda a alterar estruturalmente a forma como funcionamos enquanto sociedade, para garantir que funcionamos dentro dos limites que o planeta nos impõe", sublinha Susana Fonseca, que exorta os portugueses a pensarem "como podemos maximizar as capacidades e características do país para alterar esta tendência".

O consumo de alimentos (32% da pegada global do país) e a mobilidade (18%) encontram-se entre as atividades humanas diárias que mais contribuem para a Pegada Ecológica de Portugal e constituem assim pontos críticos para intervenções de mitigação, aponta a Zero.

Aproveitar teletrabalho

A associação defende que é preciso intervir na alimentação, seja na forma como produzimos alimentos, no desperdício que pode ser evitado e na dieta (consumimos três vezes mais proteína animal, sobretudo carne, do que o que é recomendado na roda dos alimentos, o que acaba por ter reflexos na saúde).

Na mobilidade, "não nos podemos cingir à mudança para veículos elétricos. O foco deve ser procurar privilegiar o transporte coletivo elétrico", assim como meios de mobilidade suave.

Outras medidas passam por aproveitar o teletrabalho e ferramentas digitais para evitar viagens desnecessárias. Também é necessário regulamentar para que os produtos colocados no mercado tenham durabilidade e sejam reparáveis e recicláveis, tornando-se mais sustentáveis. Isto permitirá "criar novas áreas de trabalho qualificado e promover uma redução da pegada dos produtos", refere a Zero.

Susana Fonseca realça que, apesar de tudo, "há sinais positivos" na Europa, como o Pacto Ecológico, preocupação com a sustentabilidade dos equipamentos e com a forma como se produzem alimentos. Espera que o Plano de Recuperação e Resiliência seja aproveitado para transformações sociais, com vista a um maior respeito pelos limites do planeta.

Para determinar quando se atinge o limite, a Global Footprint Network divide a biocapacidade do planeta (a quantidade de recursos ecológicos que a Terra é capaz de gerar naquele ano) pela Pegada Ecológica de cada país (tendo em conta o consumo de alimentos, bens e serviços dos cidadãos, os recursos naturais que utilizam e o dióxido de carbono emitido para a produção dos bens e serviços).

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