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Portugueses a viver no Reino Unido sentem-se abandonados

Portugueses a viver no Reino Unido sentem-se abandonados

Não estão previstos voos de repatriamento, mesmo com o encerramento do tráfego aéreo entre os dois países devido à pandemia.

Os portugueses que residem no Reino Unido sentem que estão "abandonados pelo Governo", sem qualquer orientação sobre como regressar a Portugal desde que os voos entre os dois países foram proibidos, no sábado passado. O Ministério dos Negócios Estrangeiros admite que não tem voos de repatriamento programados, por agora, e diz que encaminha os cidadãos portugueses para outros países que não introduziram restrições aos voos com Portugal. Com as dificuldades, alguns estão a viajar por terra, em viagens de longas horas.

O Conselheiro da Comunidade Portuguesa no Reino Unido disse, ao JN, que já não esperava que Portugal viesse a organizar voos de repatriamento, pois sente que estão "abandonados" pelas autoridades portuguesas. "Precisamos de ajuda a todos os níveis, nomeadamente documentação (passaportes e cartões do cidadão), mas o Consulado nunca deu vazão ao serviço e agora ainda pior. Sem isso, as pessoas não conseguem viajar", denunciou António Cunha.

Uma vez por semana, no Centro Comunitário Português em Londres, são distribuídos alimentos a "pelo menos 50 famílias portuguesas", havendo outro dia da semana em que "outras 50 famílias, portuguesas ou não, recolhem bens alimentares". Quem ajuda com bens é "a autarquia local". O panorama entre a comunidade de portugueses é de "muitas dificuldades, muito desempregado causado pela pandemia" e do Consulado, diz o conselheiro, "nem informações simples sobre onde poderiam exercer o direito de voto chegam à comunidade".

Tiago (nome fictício) queixa-se do mesmo. "Ninguém informou nada, ninguém explicou ou disse alguma coisa. A maneira como o Consulado opera deixa muito a desejar", relatou, após uma viagem por terra, no fim de semana passado, entre o Reino Unido e Portugal.

Esteve a trabalhar naquele país durante os últimos nove meses e não tinha o estatuto que o equipara a residentes, pelo que se sentiu inseguro em relação aos direitos que teria no Serviço Nacional de Saúde britânico se ficasse doente ou sem trabalho, mesmo com contrato até fevereiro.

"No momento em que a TAP proibiu o Luís de embarcar no voo, eu fiquei assustado, mas foi quando o Governo português, sem mais nem menos, decidiu banir os voos todos, que eu comecei a ver a minha vida a andar para trás", relatou, ao JN. "Cada um por si e eu decidi ir-me embora antes que bloqueassem as fronteiras", explicou.

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As dificuldades de Luís Pinto, que não conseguiu viajar para Portugal no início deste mês, já tinham sido relatadas pelo JN: sem teste negativo, cuja obrigatoriedade não lhe tinha sido comunicada, não conseguiu embarcar em Londres e perdeu o valor da viagem. Na altura, explicou que "os laboratórios estão sobrelotados, não se consegue marcar testes com brevidade e é difícil saber se será seguro marcar viagem e ter os resultados naquele dia".

Portanto, Tiago arriscou, carregou o carro com todos os pertences e, no domingo passado, fez a travessia de ferry entre Inglaterra e França. A partir dali, prosseguiu de carro até Portugal. "Foi complicado, mas ainda se pode apanhar o ferry para Calais. Foram uns dias complicados, especialmente porque havia muito tráfego no porto... Existem novas regras e nem uma sandes se pode trazer de Inglaterra, mas o carrito aguentou. Sei de vários portugueses que nem carro tinham e que queriam voltar", rematou Tiago.

Cidadãos devem tentar voos pelos próprios meios

O Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) explicou, ao JN, que "os cidadãos nacionais no Reino Unido que se encontrem impossibilitados de regressar a Portugal devido às atuais restrições à circulação entre os dois países devem contactar e informar o Gabinete de Emergência Consular da sua situação".

Apesar de sublinhar que "a situação está a ser monitorizada tendo em vista a avaliação da necessidade da organização de uma ação de repatriamento, à semelhança de outras já executadas no atual contexto da pandemia de covid-19", o MNE acrescentou que "os cidadãos devem continuar a diligenciar, pelos próprios meios, pela localização de voos para Portugal, com escala em outros países", dando como exemplo "Irlanda, Bélgica, Alemanha, Espanha ou França, uma vez que as respetivas autoridades não introduziram restrições aos voos de e para o Reino Unido".

Mesmo assim, um alerta: "Antes de proceder à aquisição de qualquer viagem, recomenda-se que estes cidadãos contactem previamente a companhia aérea e confirmem com a mesma se a escala naquele território é permitida e quais os requisitos que deverá cumprir, nomeadamente a exigência ou não de apresentação de teste RT-PCR ao SARS-COV2 negativo e qual a antecedência com que o mesmo deverá ser realizado".

"Compreendo que não se deixem viajar turistas, mas os portugueses não podem viajar para casa porquê?", questionou António Cunha, que estima que a comunidade no Reino Unido ascenda a "perto de 800 mil portugueses".

Apesar das restrições no tráfego aéreo que entra em Portugal, os viajantes provenientes de países como a Austrália, a China, Singapura, Coreia do Sul, Japão, Nova Zelândia, Ruanda, Tailândia e Uruguai podem entrar livremente sem apresentar teste negativo à covid-19. Também os passageiros que estejam em trânsito, isto é, que provêm do Reino Unido, por exemplo, com destino a outro país que não Portugal, mas que são obrigados a parar num aeroporto português, não têm de apresentar teste negativo antes de embarcar. Também não há controlo nas fronteiras terrestres.

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