Covid-19

Portugueses desesperam sem saber como irão voltar

Portugueses desesperam sem saber como irão voltar

Há portugueses retidos pelos quatro cantos do mundo sem saber como irão conseguir regressar a Portugal após o cancelamento de voos e ligações aéreas. Alguns foram de férias, outros a trabalho ou em missões humanitárias. As embaixadas, lamentam, ainda não lhes deram qualquer saída. "É um tempo de incerteza. É só o que temos. Precisamos da proteção social do Estado", defende Sara Montalvão, retida na Argentina.

Nuno Pedrosa e Ângela João estão retidos no Peru. Partiram dia 8 quando havia 25 infetados em Portugal e nenhum no Peru (esta quarta-feira com 145 infetados). Domingo à noite ainda conseguiram comprar os bilhetes de autocarro para Matchu Pitchu. De madrugada receberam mail da Iberia a cancelar o voo de regresso que seria esta sexta-feira dia 20. O estado de emergência tinha sido decretado, os turistas foram evacuados para Cusco, uma cidade a 1100 quilómetros da capital Lima. "Não há transportes, nem supermercados ou restaurantes abertos, apenas pequenas mercearias com muito poucos bens. Há recolher obrigatório", contam ao JN.

Nuno e Ângela estão num hostel, única instalação que conseguiram reservar. A embaixada pediu-lhes os contactos e números de passaporte. A única coisa que o casal sabe é que os voos estão cancelados nos próximos 30 dias. "A Iberia só nos disse que nos dava um voucher para usarmos até 31 de dezembro, como se isso nos ajudasse", critica Ângela. Foram realizar um sonho pelo seu aniversário, agora temem pela sua segurança, assumem.

Pedido apoio diário

Manuel Coelho é um dos diretores da Organização Não Governamental para o Desenvolvimento (ONGD) "Na Rota dos Povos" e está retido na Guiné-Bissau com outros cinco portugueses. Nos últimos dez anos montaram 200 salas de aula e uma casa de acolhimento para órfãos, tinham chegado há três semanas para reforçar a equipa e agora não fazem ideia como voltar ao Porto.

"Tentámos juntar-nos ao grupo de portugueses em Marraquexe que foram repatriados mas não conseguimos voo para Marrocos, tentámos reservar um voo em Dakar mas as ligações a partir do Senegal também já foram suspensas. Em Bissau, a TAP já cancelou todos os voos", conta ao JN, sublinhando que conseguiu falar com o cônsul português, "bastante solícito mas na verdade sem soluções para nos dar".

Sara Montalvão está em Buenos Aires. A bailarina e atriz viveu na Argentina entre 2009 e 2012 e conseguiu este ano voltar à sua "segunda casa". Foi no dia 11 de fevereiro, antes do primeiro caso de Covid-19 em Portugal ou no país. E tinha passagem de regresso para 26, adiada segunda-feira para 16 de abril. Anda a saltitar de casa em casa de amigos, que já estão em isolamento social. A partir da próxima quinta-feira não sabe onde poderá ficar e todos os trabalhos que tinha agendados para abril e maio foram cancelados. A artista pediu, por isso, na embaixada o repatriamento ou um apoio financeiro. A embaixada, garante, ficou com os seus contactos e estará a fazer uma lista com todos os portugueses retidos.

Viagem para Madrid

Susana Ribeiro autora do blogue "Viaje comigo" está retida no Chile mas no seu caso conseguiu anteontem passagem para um voo sexta-feira dia 20 de Santiago do Chile para Madrid. No Facebook, a jornalista pede ajuda a "alguém que vá de Madrid para o Porto dia 21 de março".

"Quando saí nesta viagem, havia dois casos no Chile e quase nenhuns nos países vizinhos e, em apenas uma semana, «rebentou a bomba» em toda a América do Sul", escreveu na rede social, numa mensagem em que apelou à contenção de discursos alarmistas. "Vamos para onde as companhias aéreas estiverem a voar e com sorte temos voo, com sorte o voo realiza-se, com sorte estaremos nos próximos dias em Portugal...Estou bem em casa de amigos em Santiago. Tenho sorte, porque muitos turistas estão a ser expulsos dos hotéis e dos países onde estão", lê-se no post.