Manifestação

Portugueses "não têm noção da violência contra as mulheres" no Irão

Portugueses "não têm noção da violência contra as mulheres" no Irão

Mais de uma centena de pessoas reuniram-se, no final da tarde desta segunda-feira, para homenagear Mahsa Amini, a jovem iraniana de 22 anos morta pela Polícia da Moralidade, depois de acusada de não usar o seu hijab corretamente. A manifestação, na Praça Camões, em Lisboa, contou com a presença de 20 organizações e entidades diferentes, que se juntaram para denunciar não apenas o estatuto de mulher que vivencia no Irão, mas também a perseguição que o governo teocrático leva a cabo junto de grupos sociais minoritários.

Sahar, de 37 anos, é iraniana e foi a primeira mulher a pegar no microfone e a dar o seu testemunho. Chegou a Portugal em 2012. "Os portugueses não têm noção da violência que existe contra as mulheres no meu país", disse. A história trágica que viveu no Irão, tendo sido vítima de violência conjugal por parte do seu companheiro, levou-a a fugir para Portugal. Lamenta que "o povo português não conheça melhor a cultura iraniana" dado que, entende, "em alguns aspetos, não é assim tão diferente da portuguesa". "Nós gostamos muito de conviver com outras culturas e de falar com outras pessoas, temos várias comunidades para além da comunidade muçulmana, mas o nosso Estado não deixa que essa imagem passe", explica, em conversa com o JN.

Agora, a trabalhar como chefe de inventários, mostra-se feliz pelas colegas com que trabalha diariamente e contente por ter virado opiniões em seu favor, algo que "não foi fácil" quando chegou a Portugal pois sentiu algum estigma por ser muçulmana, embora não use véu.

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Sahar, a viver em Casal de Cambra, em Sintra, sublinha o sentimento de segurança que tem ao viver em Portugal e tem "muito a agradecer ao chefe da polícia de Casal de Cambra por tanto a ter apoiado e aceite a sua cultura quando chegou". "Aqui posso dar ao meu filho aquilo que eu não tive no país onde nasci", conclui.

Várias dezenas de mulheres, homens, jovens e crianças estiveram (re)unidos na tarde desta segunda-feira, 26, na Praça Camões, em Lisboa.

Apoio às mulheres que ousam levantar a voz

As mais de 100 pessoas que marcaram presença na homenagem a Mahsa Amini, a jovem iraniana de 22 anos que há cerca de uma semana foi assassinada pela Polícia da Moralidade iraniana pelo utilização incorreta do seu hijab, juntaram vozes de luto e pesar. Não apenas pela jovem iraniana morta, mas também por todas as mulheres que agora se levantam em defesa dos seus direitos no seu país e se revoltam contra o governo teocrático que, afirma Sahar ao JN, "impede qualquer sentimento de liberdade que possamos ter".

Na manifestação estiveram representadas 20 entidades, a maior parte de apoio e promoção dos direitos das mulheres, mas também em defesa dos direitos da comunidade LGBTQI+, numa tentativa de captar o olhar público para outros problemas de que o Irão também padece: a perseguição das minorias sociais.

A Por Todas Nós, A Coletiva, Clube Safo, Feministas em Movimento, UMAR, Grupo de Apoio a Pessoas Queer, Núcleo Feminista da NOVA-FCSH, o Núcleo Feminista da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, a Rede 8 de Março e a Plataforma de Solidariedade com os Povos do Curdistão foram algumas das entidades e organizações que se fizeram representar esta tarde na Praça Camões, em Lisboa.

Almerinda Bento, de 71 anos, é professora reformada e membro da Feministas em Movimento. Para Almerinda, é "fundamental haver demonstrações de apoio ao povo iraniano e sobretudo às mulheres iranianas" e sublinha que, caso não existissem estas manifestações, "não ouviríamos a voz de nenhuma mulher iraniana em Portugal".

"Eu própria tenho 71 anos, eu vivi no tempo em que o Irão não era assim. Vivi no tempo em que as mulheres podiam andar vestidas nas ruas do Irão, como andam vestidas pelas ruas de Lisboa", conta Almerinda. Acrescenta que "é totalmente descabido que o Irão tenha um código moral como aquele que vigora neste momento e a Comunidade Europeia deveria ter uma posição clara de repulsa por aquilo que acontece no Irão, particularmente contra as mulheres".

Solidariedade internacional ajuda

Presente na manifestação, Joana Mortágua, deputada do Bloco de Esquerda, defende que a Europa devia ter uma posição mais forte no tratamento das matérias dos direitos das mulheres. "As lições devem ser retiradas de outras lutas e, se aprendemos algo, é que a solidariedade internacional é o que faz com que estas mulheres não se sintam sozinhas". Estas mulheres, "extremamente corajosas são vítimas de uma repressão fortíssima dos direitos mais básicos que existem". "Isso Bloco nunca deixará de apoiar".

A líder do PAN, Inês Sousa Real, foi outra deputada que marcou presença na manifestação. Lamenta que "aquilo que no nosso país damos por tão certo como por exemplo, sair á rua sem nada na cabeça, não seja ainda uma realidade em muitos países". Inês Sousa Real, na mesma linha de Joana Mortágua, defende a tomada de uma posição firme por parte da comunidade internacional e por parte da União Europeia.

"O crescimento de forças populistas de extrema-direita", em menção ao resultado das recentes eleições italianas, é também um sinal "sintomático e de alerta", diz. "A vigilância constante dos direitos humanos é uma necessidade e a União Europeia tem de se reforçar como um projeto comum", afirma. "Portugal já é um desses países em que os sintomas de uma extrema-direita populista começam a ser sentidos", lamentou.

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