Religião

Portugueses são católicos, devotos a Fátima e liberais nos costumes

Portugueses são católicos, devotos a Fátima e liberais nos costumes

Católicos e admiradores do Papa Francisco, mas não seguidores cegos das posições da Igreja, como no caso do fecho de shoppings e híperes ao domingo.

Devotos a Fátima e assíduos no santuário. Liberais nos costumes e divididos quanto ao Islão. Críticos dos abusos sexuais por clérigos e da inação de uma instituição que a maioria quer ver afastada da política. A sondagem "Os Portugueses e a Religião", feita para o JN pela Pitagórica, mostra um país em que os sacramentos são seguidos, mas cada vez menos, e em que ainda um terço da população vai à igreja, no mínimo, uma vez por mês.

Afirmar-se como católico pode ser uma declaração de fé professa ou de matriz identitária do povo. Seja como for, é essa a religião indicada por 74% das pessoas, com maior incidência nas mulheres, nas classes sociais desfavorecidas e no Centro e Norte (incluindo o urbano Grande Porto). A exceção são os jovens até aos 24 anos: pouco mais de metade se diz católica ou até acreditar num Deus; mas 73% respondem "sim" sobre a existência de alguma forma de espírito, força de vida ou energia.

O mundo ocidental, diz a professora da Universidade do Minho Helena Vilaça, é marcado por uma "modernidade líquida", pela "dificuldade em aderir a uma instituição", marcada pela "bricolage religiosa". E não é nos ritos de passagem (como batizados, casamentos ou funerais), mas na família que a religião se transmite, diz.

São precisamente os sacramentos que mais levam os portugueses à igreja (34%). Somando os 21% que lá vão uma a duas vezes por ano, é mais de metade da população. Olhando a outros países europeus, Portugal continua a ter assíduos frequentadores dos ritos católicos: 17% vão à igreja todas as semanas e 36% vão, pelo menos, uma vez por mês. Os valores fazem de Portugal um dos países mais católicos da Europa, a seguir à Polónia e perto da Itália e Irlanda.

É certo que são, sobretudo, as pessoas acima dos 65 anos quem mais segue os ritos católicos: só 14% nunca se confessaram e 20% fizeram-no há menos de um ano. Em contraste, quase metade dos menores de 24 anos nunca entrou num confessionário. Além disso, um quarto das pessoas com mais de 65 anos vai à igreja todas as semanas. Em sacramentos como o batismo, até os mais novos têm indicadores acima dos 90% e mais de metade fizeram a primeira comunhão - mas até aos 34 anos de idade, já não se casa pela Igreja nem se batiza os filhos.

A interferência da Igreja em assuntos mundanos desagrada. Para metade das pessoas, deve limitar-se a temas religiosos e, para um décimo, pode pronunciar-se sobre tudo, menos política. Veja-se o caso da abertura de centros comerciais e híperes ao domingo: a Igreja é contra, a maioria é a favor.

Os portugueses também não seguem a doutrina oficial da Igreja em assuntos como o casamento de padres (até os mais velhos, por norma mais conservadores, são esmagadores a aceitar) e o casamento religioso de homossexuais (quase metade dos idosos e mais de 80% dos jovens aprovam).

A linha é igual para a possibilidade de freiras celebrarem eucaristias: qualquer que seja a idade, a classe social (exceto a mais desfavorecida), a religião professa e a região do país, 70% ou mais aprovam a ideia. Com a crise de vocações católicas, acontece em povoações mais pequenas só haver missa quando um padre lá pode ir.

Quase todos já visitaram o santuário e um terço fez uma promessa

Em peregrinação ou em turismo, o Santuário de Fátima já foi visitado, pelo menos uma vez, por nove em cada dez portugueses, e 60% das pessoas fizeram a viagem nos últimos cinco anos. Muitas serão atraídas pela "energia espiritual muito forte" que lá encontram 87% dos inquiridos, incluindo uma parte significativa (79%) de quem professa outras religiões.

Este é, todavia, um dado que deve ser lido com cautela, avisa Helena Vilaça, socióloga da religião e professora na Universidade do Minho: se é certo que metade das pessoas vinculadas a outras religiões já rezaram em Fátima, também é certo que muitas poderão ter pedido a recristianização do santuário, encarado por muitos crentes não católicos como um lugar de paganismo. "Para os protestantes evangélicos", exemplifica a docente, "Maria é um apóstolo de Jesus", pelo que não deve receber a devoção que lhe é dada.

É junto das religiões orientais, todavia, que o santuário mais pode ser um espaço promotor de diálogo inter-religioso. Helena Vilaça lembra que o Budismo e o Hinduísmo integraram a figura de Maria como a "mãe de todos os budas" ou a "santíssima mãe", e que é mencionada no Corão, propiciando a visita ao santuário de muçulmanos, sobretudo xiitas, muitos vindos do Irão.

No global, "Fátima continua a ser muito marcada pela religiosidade popular," disse. Os seus seguidores são sobretudo pessoas de mais idade e com menor capacidade económica, que são em simultâneo as que mais professam o Catolicismo e aderem aos ritos da Igreja.

Quem mais acredita na existência de "Nossa Senhora, mãe de Jesus", tem mais do que 35 anos, enquadra-se sobretudo na classe média-baixa e baixa e vive nas ilhas, Norte (exceto Grande Porto) e Centro. Grosso modo, são também estas as pessoas que mais rezam no santuário (70% dos portugueses já o fizeram), que mais acreditam nos milagres de Maria (média de 60%) e que mais promessas fazem.

Quanto a visitas ao santuário, a capacidade económica para suportar a deslocação pode explicar o facto de 97,7% das famílias abastadas já o terem feito, contra 87% das mais pobres - ainda assim, uma percentagem expressiva. Há também uma diferença entre idades: 99% das pessoas com mais de 65 anos já foram a Fátima e a percentagem vai diminuindo à medida que se desce no escalão, até chegar aos 70% de quem tem menos de 24 anos. Falta saber se os mais novos só não foram ao santuário porque ainda não tiveram tempo para isso.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG