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Presidenciais: Abstenção poderá ser a mais elevada da história

Presidenciais: Abstenção poderá ser a mais elevada da história

Participação já desce em eleições em que há um presidente recandidato. Mas tudo indica que pandemia vai piorar o cenário, alertam os especialistas.

Diz a história que, nos últimos 30 anos, as eleições para a Presidência da República em que um dos candidatos concorre a um segundo mandato são menos participadas do que aquelas em que o chefe de Estado não se recandidata. As do próximo dia 24 têm ainda a agravante de se realizarem em plena pandemia e confinamento, o que poderá contribuir para afastar ainda mais os eleitores, sobretudo os mais velhos, os que por tradição mais votam, mas que agora estão mais resguardados. Sem voto por correspondência, apenas previsto nas legislativas e nas europeias, os especialistas ouvidos pelo JN, garantem que estão reunidas as condições para que a abstenção seja a maior de sempre em presidenciais.

O recorde remonta a 2011, quando Cavaco Silva foi reconduzido: 53,5%. Há cinco anos, com Marcelo Rebelo de Sousa, a participação voltou a subir. Ainda assim 51,2% dos portugueses ficaram em casa, o valor mais elevado em eleições em que não havia recandidatos.

Neste sufrágio, todas as sondagens apontam para um número mais expressivo. Segundo as contas feitas por Carlos Jalali, professor de Ciência Política da Universidade de Aveiro, a abstenção pode até ficar perto dos 75%, por via do recenseamento automático dos residentes no estrangeiro, que somou 1,1 milhões de pessoas aos cadernos eleitorais.

"Todos os indícios e o contexto singular em que se realiza esta eleição apontam para que a participação eleitoral seja historicamente baixa", diz João Cancela, investigador no Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa. Em primeiro lugar, porque sempre que há um presidente recandidato são menos participadas. A única exceção foi a reeleição de Ramalho Eanes, em 1980, a mais concorrida de todas.

Votos de risco

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"Tipicamente, o incumbente tem uma vantagem de reconhecimento público significativa, o que leva a que o desfecho seja relativamente previsível: com baixos níveis de incerteza reduzem-se também os incentivos ao voto" lembra o coautor do estudo Abstenção e Participação Eleitoral em Portugal, que conclui que os escalões etários entre os 45 e os 64 anos e a partir dos 65, "são claramente os mais participativos." Os que hoje estão entre os grupos de maior risco de contágio por covid-19, pelo que terão mais resistências em deslocar-se às urnas.

"Está criado o quadro para que venhamos a ter as presidenciais menos concorridas da história", defende Viriato Soromenho-Marques, catedrático de Filosofia da Universidade de Lisboa, para quem o cenário é agravado pela ausência do voto por correspondência, apenas previsto nas legislativas e nas europeias. Essa foi a solução, recorda, para "uma percentagem muitíssimo considerável" de eleitores nas últimas presidenciais norte-americanas, as mais participadas desde 1900.

Em teoria, diz André Freire, professor de Ciência Política do ISCTE, a elevada taxa de abstenção poderia beneficiar João Ferreira, o candidato do PCP, aquele que, tradicionalmente tem o eleitorado mais fiel. "Mas sabemos que o eleitorado comunista é, tendencialmente, mais envelhecido, o que poderá levar a uma maior abstenção por via da pandemia."

Para Viriato Soromenho-Marques, "a diminuição do número de eleitores tende a valorizar os três candidatos que concentram o maior número de votos expressos."

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