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Conselhos úteis

Publicação fast science

Temos assistido a contradições quase diárias relativas a terapêuticas ou abordagens preventivas para a covid-19, com estudos que estão longe do rigor científico e fundamentação que se lhes deve exigir.

As publicações sobre a hidroxicloroquina, um medicamento utilizado na malária, e que se reposicionou no tratamento/prevenção da covid-19, é um bom exemplo disso. Os mecanismos de autorregulação da comunidade científica não têm conseguido funcionar de forma adequada.

Habitualmente os cientistas, quando querem partilhar os resultados da sua investigação, escrevem um artigo e enviam-no para um jornal científico. Quando o jornal recebe o artigo, distribui-o ao editor que está responsável pela área e que após uma primeira análise, se achar pertinente, o envia a dois ou três peritos.

Estes peritos têm a missão de rever o artigo de forma crítica. Trabalhos famosos foram rejeitados numa primeira e até segunda submissão. Este é um processo de melhoria e desenvolvimento da produção científica. Provavelmente demasiado demorado. No entanto, é destas publicações que saem orientações sobre como diagnosticar, tratar ou prevenir doenças e promover saúde.

Temos assistido, ultimamente, a duas situações que podem prejudicar a qualidade de informação que é produzida, com impacto nas decisões clínicas - a aceleração do processo de revisão e o aumento de publicações em plataformas públicas antes da sua revisão.

No decorrer desta pandemia, assistimos a uma explosão de artigos científicos sobre covid-19. À data de hoje, encontramos mais de 18 mil artigos publicados sobre covid-19. Não é de estranhar. Estamos no meio de uma pandemia e qualquer estudo pode ter um importante impacto na abordagem diagnóstica, terapêutica ou na formulação de políticas de saúde.

Esta proliferação não é compatível com o processo de revisão clássico dos artigos científicos. Estudos recentes demonstram que os jornais científicos conseguiram diminuir em média cerca de 57 dias na demora de todo o processo de publicação, sendo esta redução evidente em todas as fases do processo - revisão, aceitação e publicação - e sobretudo para artigos relacionados com a covid-19.

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Embora a rapidez do processo de publicação de artigos científicos seja louvável, do ponto de vista da rápida disseminação de informação, ainda mais numa situação de pandemia por um novo vírus, levanta questões do ponto de vista da qualidade e até da ética.

São habitualmente os próprios pares que levantam dúvidas que podem exigir correções ou mesmo retratações no futuro. Dada a rapidez com que estas publicações atingem o público em geral e os decisores políticos e clínicos, algumas destas correções podem chegar tarde demais.

A ciência deve ser rigorosa e fundamentada para ser de confiança. A sua velocidade, para bem de todos, não pode ser a de uma publicação em redes sociais.

*Pneumologista

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