Saúde

Quase metade dos psicólogos do SNS está em Lisboa

Quase metade dos psicólogos do SNS está em Lisboa

Quase metade (41%) dos 917 psicólogos do Serviço Nacional de Saúde (SNS) está em Lisboa. A discrepância entre regiões é maior nos hospitais públicos. Dos 458 profissionais a prestar assistência nas unidades hospitalares do país, 220 trabalham em Lisboa e Vale do Tejo.

O SNS tem 917 psicólogos em todo o país: 458 prestam cuidados nos hospitais públicos, 213 trabalham nos centros de saúde e 246 estão noutros serviços públicos, como a Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências. A resposta regional na área da psicologia é menos equitativa nas unidades hospitalares. Dos 458 profissionais que trabalham nos hospitais públicos portugueses, 220 estão em unidades da região de Lisboa e Vale do Tejo.

O grupo de trabalho, criado por despacho do Secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Fernando Araújo, em novembro do ano passado e coordenado por Daniel Sampaio, para analisar, estudar e propor novos modelos de organização da prestação de cuidados na área da psicologia no SNS, já conclui o seu trabalho. O relatório é apresentado esta quinta-feira, às 11 horas, num painel digital acessível através da página do SNS no Facebook.

Os participantes no painel, subordinado ao tema "Mais Psicologia no SNS", são Fernando Araújo, Daniel Sampaio, Francisco Miranda Rodrigues, bastonário da Ordem dos Psicólogos, Nélia Rebelo da Silva, coordenadora da Unidade de Psicologia Clínica do Centro Hospitalar de Lisboa Central, e Tiago Reis Marques, psiquiatra e investigador da "National Health Service". Qualquer pessoa pode participar e acompanhar o debate, deixando questões no Facebook.

Para a produção do relatório final a que o JN teve acesso, os especialistas enviaram um questionário, em maio passado, aos psicólogos do SNS. A taxa de resposta foi de 26,1%, ainda assim com uma boa distribuição pelos diferentes níveis de cuidados de saúde. O questionário permitiu aferir que a ansiedade é a perturbação mental mais tratada no SNS. No entanto, os transtornos mais acompanhados diferem dos centros de saúde para os hospitais. Os psicólogos nos cuidados de saúde primários encontram mais casos de depressão (quase tantos como de ansiedade); de confronto e adaptação à doença e à incapacidade; e de perturbações de desenvolvimento e comportamento infantil.

Nos hospitais, a depressão tem uma expressão residual. Além da perturbação de ansiedade, os psicólogos são chamados a acompanhar perturbações de ajustamento a eventos traumáticos, como doenças crónicas ou hospitalização prolongada; comportamentos de adesão a rastreios e a tratamentos; e crises pessoais e familiares. Muitos psicólogos destacaram que também acompanham com bastante frequência "situações de luto, vítimas de violência doméstica e perturbações bipolares".

Tanto nos centros de saúde como nos hospitais, o tipo de intervenções mais habituais é a prestação de cuidados psicológicos a indivíduos com perturbações mentais comuns.

Um dos problemas apontados no questionário é a escassez de recursos humanos, que, no caso dos centros de saúde, dificulta a realização de consultas ao domicílio. Outro obstáculo é a impossibilidade de aceder, eletronicamente, ao historial clínico do doente, apesar de o utente ter sido referenciado para tratamento. Nos centros de saúde, essa referenciação é feita quase sempre pelo médico de família, enquanto, nos hospitais, é sobretudo por médicos de outras especialidades.

Os psicólogos queixam-se, ainda, de "excesso de trabalho" e do cumprimento de funções que não estão diretamente relacionadas com o exercício clínico (como funções administrativas ou coordenação de serviços), da "necessidade de responder a vários serviços e unidades", da "ausência de apoio e de supervisão" e do "excesso de áreas de intervenção".

Um ponto crítico para o grupo de trabalho é a falta de hábito e de instrumentos para "medir o impacto" das intervenções dos psicólogos nos centros de saúde e nos hospitais, de modo a avaliar os ganhos para a saúde pública.

Em resposta à solicitação feita pelo Ministério da Saúde, o grupo de trabalho recomenda a criação de unidades de psicologia nos hospitais, que prestem cuidados clínicos a todos os departamentos, em vez da dispersão dos profissionais por diferentes especialidades. É desejável que essa equipa integre estagiários.

Aliás, sugere-se a fixação de uma quota anual pelo Ministério da Saúde, com a finalidade de acolher psicólogos estagiários nas unidades do SNS, "face à mais-valia associada à qualidade e especificidade da formação realizada em contexto de serviços públicos de saúde", como pode ler-se no relatório final. O grupo de trabalho constatou que 46% dos profissionais ao serviço dos hospitais e dos centros de saúde não realizaram estágio no SNS.

A realização de estágios em unidades do SNS "poderá implicar a alteração das restrições existentes no que concerne a remuneração desses estágios", alerta ainda,

Também propõe que se aumente o número de psicólogos nos cuidados de saúde primários e que sejam integrados em unidades de recursos assistenciais partilhadas para que possam responder a diferentes unidades do agrupamento de centros de saúde. É importante, igualmente, alargar as consultas e outras intervenções na área da psicologia nos cuidados de saúde primários, devendo privilegiar o acompanhamento das situações de depressão e de ansiedade referenciadas pelo médico de família e pela "intervenção comunitária".

O grupo de trabalho quer, ainda, que um elemento da equipa de psicologia passe a integrar a estrutura de liderança clínica dos agrupamentos de centros de saúde, de modo a permitir a articulação e o planeamento estratégico da intervenção psicológica de proximidade.

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