Reportagem

Reabertura de portas com medidas de segurança e muita expectativa

Reabertura de portas com medidas de segurança e muita expectativa

Pequeno comércio de proximidade, cabeleireiros, livrarias e stands de automóveis preparam a reabertura para amanhã. Será obrigatório usar máscara e todos os espaços terão de ter desinfetante para uso dos clientes. As lojas de roupa terão de fechar os provadores ou desinfetá-los após cada uso. A roupa provada terá de ser higienizada ou posta em quarentena. Os proprietários depositam todas as esperanças na retoma da atividade para fazer face à quebra de receitas que, em alguns casos, chegam aos 80%.

Reabertura do salão deverá ajudar a "recuperar o ritmo"

Há cerca de uma semana que Joaquim Guerra, cabeleireiro profissional, começou a preparar o seu salão a pensar na possível reabertura do negócio. A principal mudança foi na decoração, substituída para responder a todas as medidas de segurança.

O espaço, na Rua de Jerónimo Mendonça, no Porto, está fechado ao público há quase dois meses. Agora, com gel desinfetante e termómetro ao balcão, as cadeiras separadas por divisórias, e as batas, que passaram a ser descartáveis, o salão está pronto para voltar a receber os seus clientes habituais.

"Estou a contar com quatro ou cinco clientes em simultâneo", refere o profissional, que admite ter feito um grande investimento na compra de equipamentos de proteção.

Relativamente aos colaboradores, para já, só metade do pessoal entrará ao serviço na reabertura. Mas, mesmo com a diminuição de trabalhadores, a reabertura do salão deverá ajudar a "recuperar o ritmo". Desde a data do fecho, a 16 de março, que todos os colaboradores foram para suas casas.

Horário mantém-se

"O salão está totalmente diferente. Isto não era nada assim. Mas pelo menos as pessoas podem estar à vontade", assegura Joaquim Guerra.

Com a reabertura a "100%", o horário do salão não irá sofrer qualquer alteração. "Mantém-se exatamente o mesmo: das nove da manhã às oito da noite, sem interrupções", assegura o profissional.

Com o anúncio da reabertura, o telefone do salão não tem parado de tocar. Os pedidos de marcações avançaram em força, com maior incidência logo no início da semana. "A única solução que temos é tentar gerir", sorri o profissional, compreendendo o elevado número de pedidos devido à falta de cuidados com o cabelo provocados pelo encerramento dos estabelecimentos e o isolamento profilático.

"Vamos ver se é viável manter o horário das 10 às 20"

Ainda não tinha sido decretado o estado de emergência e, a 13 de março, Catarina Conde fechava as portas da sua loja de roupa, junto ao Theatro Circo, em Braga. Com a insegurança que sentia no atendimento aos clientes, a quebra na procura já era evidente. Amanhã reabre, com cuidados redobrados e ainda sem perspetivas de grande faturação. "Será uma semana para experimentar várias situações", diz a sócia-gerente da Koker.

A máscara será, desde logo, o novo adereço de Catarina e de uma funcionária. Haverá gel desinfetante para os clientes, que não poderão ser mais de cinco de cada vez. O balcão será apetrechado com uma divisória em acrílico, para evitar contacto no momento dos pagamentos. Os aparelhos, como multibanco, serão desinfetados a cada uso. As roupas que forem experimentadas, também, não voltarão imediatamente para o expositor. "Vamos manter essas peças guardadas durante algumas horas, por precaução, para depois voltar a repor", elucida a empresária, de 35 anos, que desde o final da semana está a preparar o espaço para voltar a torná-lo atrativo.

Estudar o mercado

As roupas e acessórios que tinham sido acondicionados, para não se estragarem, voltaram aos cabides. O espaço já tinha sido desinfetado e, neste fim de semana, foi alvo de uma última limpeza antes da a reabertura.

"Como fechámos a loja por tempo indeterminado, tentámos precaver-nos", refere Catarina, acrescentando que, esta semana, mais do que vender, espera fazer uma análise ao mercado. "Vamos ver se é viável manter o horário das 10 às 20. Temos de estudar as horas de maior afluência, as movimentações na rua. Como temos dinamizado mais as redes sociais, podemos até ponderar dedicar um dia da semana só ao envio de encomendas", diz a empresária, ainda sem muita confiança no futuro dos negócios de rua.

"Estou com a esperança de que isto agora melhore"

O que tem ajudado a manter a atividade da Livraria Lumière, na Rua Formosa, no Porto, é a Rede de Livrarias Independentes, criada a propósito da pandemia. Através da plataforma online - a que dezenas de livreiros também aderiram -, Cláudia Benilde, responsável pelo espaço e única trabalhadora, responde a algumas encomendas de forma a compensar a quebra de receitas na ordem dos 80%.

"Ainda não tinham decidido que era para fechar e no início de março a livraria já estava encerrada", explica Cláudia, com gel desinfetante colocado à porta.

A reabertura contará com o horário reduzido, das 10 às 18 horas, de segunda a sexta. Aos sábados, o estabelecimento fecha às 13 horas.

"Nunca houve grande movimento de clientes, infelizmente. No máximo, entram três pessoas ao mesmo tempo, portanto não haverá problema em manter a distância", afirma, salientando que o uso de máscara será obrigatório, tanto para clientes como para a própria.

"Se eventualmente houver alguma multidão", ri Cláudia, a solução será ficar na rua à espera.

Mas mesmo com a reabertura do espaço, a recuperação total do prejuízo provocado pela pandemia só seria possível se, em maio, a livraria "vendesse mesmo muito". Até porque, "as despesas continuaram", incluindo a renda mensal da loja.

Livros pendentes

"Estou com a esperança de que isto agora melhore. Tenho clientes com alguns livros pendentes e já me disseram que agora vêm cá buscá-los", conta Cláudia Benilde, esperando que a população continue a cumprir com as medidas de prevenção de forma a "não haver nenhum retrocesso".

Até porque, revela, um dos títulos mais pedidos neste foi "A peste", de Albert Camus. "Têm procurado obras relacionadas com epidemias para estudar os casos e perceber mais", explica.

Quebra nos preços dos carros usados assusta

De portas encerradas desde a última semana de março, o stand de veículos usados PJN - Automóveis, na Gafanha da Nazaré, Ílhavo, vai reabrir amanhã. Mas Pedro Neves, proprietário, por muito que esteja ansioso por voltar a vender, assume que está "assustado" com a quebra de preços no ramo, que vai desvalorizar a frota automóvel na qual já tinha investido.

Na porta do escritório foi colocado um aviso que alerta para a permissão de apenas duas pessoas no interior. Na secretária onde conversa com os clientes, Pedro Neves, de 55 anos e proprietário do stand há 22, colocou um acrílico e gel desinfetante para disponibilizar a quem chega. "Tomei as minhas medidas de precaução para a reabertura, consoante o que vamos ouvindo falar. Porque se há orientações específicas para a reabertura dos stands, eu não soube de nada", garante o empresário, que já estipulou que "os carros vão ser desinfetados sempre que alguém entre neles para ver".

Aderiu ao lay-off

Com seis ordenados para pagar, incluindo o seu e o da sua mulher, Pedro Neves aderiu ao lay-off. Agora, ainda está a ponderar o que fazer, mas equaciona "meter 50% de lay-off e os funcionários a trabalhar apenas 15 dias". É que, para pagar salários, precisa de conseguir vender automóveis. E tem uma preocupação extra: "O nosso maior fornecedor de carros usados, a nível nacional, é quem nivela os preços e a baixa de preços que está a acontecer é assustadora, com reduções de dois a três mil euros por carro". "Para o consumidor final até pode ser bom, mas para nós é assustador, porque o nosso stock perdeu muito valor", sublinha.

Mentalizado de que vender "dois ou três carros por mês já será bom" - quando, no auge do negócio, vende oito a 12 -, Pedro Neves está determinado a retomar a atividade: "Com receio ou não, vamos ter que fazer negócio, mesmo a perder algum dinheiro".

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