Alimentação

Reaproveitar "o que deitamos fora" está ao alcance de todos

Reaproveitar "o que deitamos fora" está ao alcance de todos

Há restos de alimentos que são uma refeição e ao cozinhá-los é possível ficar mais tempo sem ir às compras.

Estar dois meses no mar sem ir a terra não impede Sérgio Simões, cozinheiro num barco, de confecionar pratos diferentes, durante vários dias, "sem repetir nenhum". Sara Oliveira, autora de um blogue de receitas, não precisou de ir às compras nas duas primeiras semanas de isolamento social.

O segredo para não desperdiçarem alimentos é aproveitar "o que a maioria deita ao lixo" e dar prioridade a alguns. A secretária-geral da Associação Portuguesa de Nutrição, Helena Real, confirma-o: "Um bom uso dos alimentos é fundamental".

Quando o país entrou em estado de emergência por causa da Covid-19, Sara Oliveira, naturopata, tinha acabado de publicar um livro com técnicas para se produzir menos lixo e comprar de forma consciente. "Foi uma coincidência, mas traz dicas numa altura em que se deve restringir ao máximo as saídas e em que se torna mais difícil encontrarem-se alguns alimentos", diz.

Comprar produtos menos perecíveis e "aproveitar tudo até ao tutano" é o segredo. "Deitamos ao lixo talos e folhas de legumes comestíveis que podem ser uma refeição. As leguminosas, depois de cozidas, rendem imenso. Não precisamos de açambarcar os supermercados", garante. Sara faz também os próprios molhos, iogurtes, pão, manteiga e compotas. "Há anos que não compro iogurtes. Se esgotarem, não fico preocupada", conta.

Começou por esvaziar o frigorífico, o que evitou que fosse às compras durante as primeiras semanas de confinamento. Criar uma lista de compras e uma ementa semanal também "é muito importante, principalmente para famílias mais numerosas", aconselha. Com milhares em teletrabalho, "cozinhar a dobrar" é outra solução. "Para passarem menos tempo na cozinha, senão não conseguem trabalhar", explica ainda.

Dois meses no mar

Sérgio Simões, há 26 anos a cozinhar a bordo de navios, também reaproveita tudo. "Se sobrar cozido à portuguesa, como no dia seguinte azeda, faço sopa de legumes. Uso também os restos de frangos de churrasco para fazer uma pizza ou empadão", exemplifica. Passou os últimos dois meses a cozinhar para 32 pessoas. Durante o primeiro mês, garante, não repetiu pratos. "Não gosto de estar sempre a fazer a mesma coisa", confessa.

A realização de um inventário e a compra de "mantimentos para mais um mês" ajudou a que nada faltasse, mas há outros truques. "Ao fim de dois meses em alto mar, o frio começa a sugar o sumo da fruta e dos vegetais. Corto estes alimentos bem pequenos e faço jardineira ou salada para "esticarem"", explica.

Em alto mar, come-se mais peixe fresco, mas o alimento de excelência dos pescadores não é garantido. "Às vezes, está mau tempo e não dá para pescar. Temos de improvisar", diz. O que sobra mais a bordo é o pão, mas também não se estraga. "Faço pão fresco todos os dias e sobra sempre. Quando tenho tempo, faço rabanadas e, com menos tempo, caldeiradas", conta.

Menos idas às compras

A nutricionista Helena Real corrobora a importância do planeamento semanal das refeições e da criação de uma lista para reduzir as idas às compras "até a uma vez por mês".

Para que se evite o desperdício, propõe várias dicas: usar talos e folhas dos produtos hortícolas para engrossar a sopa, utilizar frutas muito maduras para saladas de frutas, compotas e purés, e aproveitar o pão envelhecido para açordas, torradas ou pão ralado.

"Reis" à mesa

Jardineira, cozido à portuguesa, "roupa velha" e estufados, com bastante hortaliça, são alguns dos pratos recomendados pelo cozinheiro do navio pela variedade de alimentos, presença de água e vitaminas.

Gratinado de talos

Arroz, caril ou gratinado de talos dos brócolos, espinafres e grelos são as sugestões da autora do blogue para se reaproveitar o que ia para o lixo. As espinhas e peles dos peixes, os ossos das carnes e as cascas dos legumes podem ser usados em caldos. "Sopas de entulho", com massa, grão e vegetais é outra das dicas.

Congelar para poupar

Helena Real recomenda que se consuma menos produtos de origem animal e mais de origem vegetal. Se se cozinhar a mais, deve-se aproveitar para a refeição seguinte ou congelar em doses individuais. Evitar misturar maçãs com bananas é outro dos conselhos.

Há frutas que libertam substâncias (etileno) que aceleram o amadurecimento.

Alimentos prioritários

Espinafres, nabiças, brócolos e couve-flor devem ser os primeiros vegetais a serem cozinhados, pois estragam-se mais facilmente. As cenouras, nabos, curgetes, beringelas, maçãs, laranjas e peras duram mais tempo.