Presidência

Recordar Maria de Lourdes Pintasilgo "é um grande serviço cívico"

Recordar Maria de Lourdes Pintasilgo "é um grande serviço cívico"

Marcelo Rebelo de Sousa diz que é "um grande serviço cívico recordar Maria de Lourdes Pintasilgo", incentivando os jovens a descobrir esta figura naquilo que é "essencial e se está a perder".

O museu da Presidência da República inaugurou, esta sexta-feira, a exposição "Maria de Lourdes Pintasilgo. Mulher de um Tempo Novo", que recorda uma figura singular da História portuguesa, a única mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra em Portugal.

Na cerimónia de abertura, o presidente da República descreveu Maria de Lourdes Pintasilgo como uma figura pela qual tinha muita estima e da qual tem muitas saudades. "Vivia a vida com intensidade. Vivia cada dia como se fosse o último", afirmou aos jornalistas. Marcelo Rebelo de Sousa lembrou que a conheceu quando era adolescente (era amiga da família e visita de casa) e que cedo descobriu que "ela rompia com tudo".

Esta iniciativa, que teve originalmente o seu começo como uma evocação dos presidentes da Primeira República e que pretende colocar jovens em contacto com a História do Portugal democrático, foi alargada para recordar os "valores de Abril, os valores da liberdade e a força e criatividade" de Maria Lourdes Pintasilgo. "Maria de Lourdes Pintasilgo pode não ter sido presidente da República, mas foi quase como tivesse sido", refere Marcelo Rebelo de Sousa.

Francisco Louçã, que esteve presente na inauguração, relembra a proximidade que teve com Maria Lourdes Pintasilgo, que descreve como alguém com uma visão mais além da época. "Ela foi uma oradora no primeiro comício público do Bloco de Esquerda. Fê-lo porque fazia parte da perceção de que o mundo estava a mudar e ela tinha um grande empenho."

Rui Vilar, antigo presidente do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos, descreve Maria de Lourdes Pintasilgo como uma "personalidade ímpar na sociedade portuguesa, que deixou uma marca inconfundível e um testemunho que vale a pena revisitar. "Neste tempo, carregado de interrogações e incertezas, é importante cuidar do futuro, e as propostas avançadas e os caminhos apontados por Maria de Lourdes Pintasilgo são, hoje, tão oportunos quanto urgentes", concluiu.

Uma mulher de "um tempo novo"

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Nascida em Abrantes, Santarém, Maria de Lourdes Pintasilgo (1930-2004) foi a primeira mulher a desempenhar a função do primeiro-ministro de Portugal, sendo convidada pelo presidente da República, Ramalho Eanes, em 1979 e ocupando o cargo durante cerca de seis meses (100 dias). Foi candidata à presidência da República em 1986, em condições extraordinárias: não só foram as primeiras presidenciais em que civis puderam participar, como foram as mais concorridas de sempre, enfrentando Mário Soares, Freitas do Amaral e Salgado Zenha; mas também por ter sido a primeira mulher a candidatar-se ao cargo.

A exposição em sua memória, que estará patente até 31 de agosto, está dividida em dois polos, localizados no Palácio de Belém. O primeiro, no Museu da Presidência da República, contém expositores com vários desenhos, fotos, artigos e esboços dos materiais que foram usados na candidatura de Maria Lourdes Pintasilgo à Presidência da República em 1986. Além dos expositores, dois painéis digitais estão presentes com testemunhos de figuras públicas que conviveram com a antiga primeira-ministra.

Entre os documentos, há um que conta uma história que ainda hoje traz tristeza a muitos que a conheceram. Uma carta assinada, datada de 1980 e proveniente da Torre do Tombo, em que Diogo Freitas de Amaral, à altura ministro dos Negócios Estrangeiros, tira a confiança política a Maria de Lourdes Pintasilgo no seu regresso enquanto delegada permanente de Portugal na UNESCO.

O segundo polo está nos Viveiros da Cascata, nos jardins do palácio, que contém outros artefactos da vida pessoal de Pintasilgo: os livros e brinquedos da sua juventude e da sua formação enquanto engenheira químico-industrial do Instituto Superior Técnico; os cartões, fotos e algumas das joias que usou durante o seu tempo enquanto embaixadora de Portugal na UNESCO; e algumas estátuas e figuras do seu tempo enquanto representante do Graal em Portugal.

O que deixou feito

Também neste polo está uma parte dedicada aos 100 dias que desempenhou o cargo de primeira-ministra de Portugal. Maria Antónia Pinto Matos, diretora do museu da Presidência, fala não só das grandes reformas sociais que Maria de Lourdes Pintasilgo fez neste curto Governo, como a implementação do Serviço Nacional de Saúde ou a criação do Número de Contribuinte Fiscal, mas também descreve-a como uma "mulher de pensamento e de ação", dedicada às causas sociais.

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