Saúde

Registo oncológico vai estudar tumores em cães e gatos pela primeira vez

Registo oncológico vai estudar tumores em cães e gatos pela primeira vez

O diagnóstico de cancro num animal de companhia pode ser devastador para uma família. Apesar dos inúmeros casos, os tumores são um terreno desconhecido para a maioria dos donos. O primeiro registo oncológico animal em Portugal é apresentado esta sexta-feira no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) da Universidade do Porto.

"Elsa" era uma cadela pastor-alemã com 14 anos que foi eutanasiada após complicações oncológicas. Tudo começou com um tumor na barriga, que rebentou em casa e provocou uma grave hemorragia. O animal foi operado de imediato. "A veterinária explicou que era uma espécie de cancro de mama muito frequente em cadelas não esterilizadas (o que eu desconhecia)", recorda Dulce Salvador, dona de "Elsa", ao JN.

Dois anos mais tarde, o tumor chegou à cabeça. "Para evitar mais sofrimento", a morte assistida pareceu inevitável e a mais justa para o animal. Este tipo de casos podem ser analisados em breve no primeiro registo oncológico animal criado em Portugal, criado pelo ICBAS e o Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), em parceria com a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).

Um dos principais objetivos da "Vet-OncoNet", nome do registo, é criar uma rede que engloba investigadores, médicos veterinários e donos de animais de companhia. "É uma visão que parte do princípio de que a saúde humana, animal e o ambiente estão ligados", explica João Niza Ribeiro, um dos promotores da iniciativa. O elo de ligação entre as áreas assenta no "One Health", ou seja, "Uma Saúde".

Há também algumas hipóteses que os responsáveis da iniciativa querem comprovar. Uma delas é a possibilidade de os animais serem "sentinelas" ou alertas para fatores de risco no aparecimento de tumores. Ao contrário do que acontece com o registo oncológico humano, o sucesso da iniciativa vai depender muito dos contributos que os especialistas e os donos dos animais derem ao "Vet-OncoNet", já que o fornecimento da informação será "voluntário".

A plataforma estará disponível (em parte) na Internet e terá uma versão mais restrita e pública. Os conteúdos disponibilizados podem ser diversos: desde a informação clínica dos animais, como o tipo de tumores e as zonas de incidência, até ao sexo, à raça e os conselhos para donos de como lidar com um cão ou um gato doente.

"Sabemos que a qualquer momento o podemos perder"

"Tico" tem 11 anos e "pequenos tumores" espalhados pelo corpo, nas palavras da dona, Sara Almeida. Um deles já terá rebentado e deixou-o cego. Os veterinários não aconselham a que se faça nenhuma operação pela idade avançada e também pela fragilidade que o cão apresenta: emagreceu e tem pouca mobilidade nas pernas. "Garantem que a hipótese de sobreviver a qualquer cirurgia é quase nula", conta Sara ao JN.

Para já, a família vai-se adaptando à nova condição de "Tico". "Garantiram-nos que não tem dores", explica. A família mudou a disposição dos objetos pela casa, substituiu a ração seca pela húmida (devido à falta de apetite do cão) e dão-lhe agora mais mimo do que o habitual. "Sabemos que a qualquer momento que o podemos perder", diz a dona.

Embora a oncologia animal seja uma área cada vez mais estudada pelos médicos veterinários, as especialidades ainda não reconhecidas pela Ordem, segundo João Niza Ribeiro, também professor no ICBAS. Porém, os tratamentos em animais com cancro já se fazem com quimioterapia, imunoterapia e terapias inovadoras com imagem para um diagnóstico mais eficaz do tipo de tumor.

O projeto está, para já, muito associado a cães e gatos, mas João Niza Ribeiro não exclui os animais de grande porte, selvagens ou exóticos. "Todos os casos de oncologia animal podem ser registados", esclarece.

A apresentação que acontece esta sexta-feira constitui um "arranque" do primeiro registo oncológico animal em Portugal. Espera-se que o projeto esteja mais estruturado no futuro. "A expectativa é que vá crescendo", diz o promotor, sendo que as questões financeiras vão ser cruciais para o sucesso da "Vet-OncoNet".