Entre o trabalho e a saudade

Relatos de profissionais de saúde isolados em hotéis para proteger a família

Relatos de profissionais de saúde isolados em hotéis para proteger a família

Estão na linha da frente do combate à Covid-19. Médicos e enfermeiros em hospitais e centros de saúde confrontados com um dilema insanável: optar entre a profissão e a família. Escolheram dar prioridade a ambos: afastaram-se de quem mais amam, para os proteger, e assim cumprir a missão de cuidar de quem mais precisa. Até quando? Ninguém sabe até onde vai a resistência. Vão enganando as saudades com videochamadas, mas todos sonham com o dia em que poderão voltar a casa. Ao lar.

penafiel O "triângulo amoroso", como lhe chama a anestesiologista Letícia Cruz, adquiriu ângulos inimagináveis. Trabalha no Hospital de Penafiel, tem o marido e o filho em Santa Maria da Feira e os pais em Viana do Castelo, onde nasceu. O Porto ampara-lhe agora as noites. Tudo por um bem maior: o pequeno Lourenço.

Devido a um problema cardíaco, com apenas seis meses de idade estava num bloco operatório. Que lhe comprometeu a parte respiratória. Seguiram-se inúmeros internamentos. O último em fevereiro, estava o novo coronavírus à espreita. Aos 37 anos, e após uma conversa com o pediatra, sabendo que na ternura irrepetível dos três anos de idade Lourenço é uma criança de risco, Letícia teve de tomar uma decisão. Escolher entre a maternidade e a medicina. Optou por ambas. Com o apoio incondicional do marido e do seu diretor de serviço.

"Durante 15 dias faço horário condensado, 12 horas por dia, depois faço o teste à Covid e espero três a quatro dias. Se for negativo, regresso a casa." Quando falamos com Letícia tinha regressado na véspera a Santa Maria da Feira, depois de três semanas longe de quem lhe faz bater o coração. "A minha vida está a ser decidida a cada 15 dias." E por quanto tempo? Só admite duas soluções: "Enquanto não tivermos uma vacina e enquanto aguentar, porque o risco para o meu filho hoje é igual a daqui a seis meses".

A explicação é simples. A entubação de doentes Covid é dos "momentos de maior risco". Porque ao "abrir a via aérea, a saída do ar faz com que haja libertação de partículas muito mais pequenas do que por gotículas, podendo permanecer no ar por 20 minutos".

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Nas cerca de duas semanas e meia que não vai a casa, a anestesiologista do Centro Hospitalar Tâmega e Sousa pernoita num alojamento local junto ao Freixo, no Porto, disponibilizado por Manuel Alves, que colocou as Green Villas Douro na corrente de solidariedade ao dispor do bem comum. Também por isso, Letícia não se vê como heroína. "Estamos todos a fazer sacrifícios."

porto A pandemia surge numa altura em que estava a entrar na reta final do internato da especialidade de Anestesiologia. Com as avaliações suspensas, foi chamada a integrar uma equipa da Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital de S. João, no Porto. Diana não podia continuar a viver com a mãe, em idade de risco, com uma doença crónica e a realizar terapêutica imunossupressora: "Estando eu a lidar diretamente com doentes Covid mais graves e sendo nós, anestesiologistas e especialistas de Medicina Intensiva, um alvo fácil de contaminação pelo tipo de atividade que desenvolvemos, seria expô-la a um enorme risco."

Depressa foi informada que o hotel que fica paredes-meias com o hospital estava disponível para recebê-la. Fez as malas, saiu de Vila Nova de Gaia e mudou-se no início deste mês para aquela unidade hoteleira, hoje com 19 quartos ocupados dos 22 disponíveis para alojar profissionais de saúde. A mãe ficou ao cuidado do seu companheiro e, desde então, só os vê através das videochamadas diárias. O único membro da família com quem vai privando é a irmã, desde o início na linha da frente no Hospital de S. João, como médica de Infeciologia.

Nas conversas com as filhas nunca faltam os tradicionais avisos de mãe: "Diz-nos sempre para termos cuidado e nos protegermos. Sabe bem como as coisas funcionam, trabalhou como enfermeira nos Cuidados Intensivos durante 30 anos. E sempre nos transmitiu o espírito de sacrifício e nos incutiu o espírito de missão em prol dos outros. É uma mãe com M maiúsculo."

Confinada ao quarto do hotel quando está fora do serviço, aproveita para matar saudades dos seus, "para refletir, mas também para ler e para estudar". E ainda para voltar a fazer algo que, já há alguns anos, não experimentava. "Comecei a fazer umas aulas virtuais de yoga, alguma meditação, procurando algum equilíbrio. É uma forma de acalmar a mente e seguir com um bocadinho mais de tranquilidade." Tudo aquilo que não existe ali ao lado.

matosinhos Um abraço é um gesto aparentemente simples, mas é aquilo que mais precisa José Afonso, enfermeiro de 41 anos afastado da família há um mês. O profissional do Serviço de Urgência do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, está há mais de um mês a viver num hotel perto do hospital para prevenir possíveis focos de contágio à mulher, duas filhas e sogro que estão em casa.

José nunca foi infetado, pelo menos que o saiba, mas lida diariamente com muitos que o foram. Ajuda na linha da frente do combate contra o inimigo invisível que ataca o Mundo e faz turnos de exaustivas horas a salvar vidas.

O drama é comum a todos os hospitais, mas muitas vezes o sofrimento está no quarto do hotel Moov onde José se isola todos os dias depois de sair do trabalho. "Uma das coisas que me faz mais falta é abraçar alguém. É tão simples e tenho uma grande saudade disso, de dar a mão à minha mulher", desabafa. Quando voltar a casa, assegura, abraçar a família vai ser a primeira coisa que vai fazer: "Tenho uma imensa falta de contacto humano e isso custa. É a coisa que mais custa".

As redes sociais como Facebook ou WhatsApp ajudam a manter o contacto atualizado com a mulher e com as filhas, de 12 e 16 anos. Fala com elas todos os dias, às vezes mais do que uma vez por dia, mas ainda assim "não substitui o estar perto, o tocar", ressalva.

As palavras fogem-lhe sempre para o momento em que vai poder ver a família. É normal, são as consequências de mais de um mês de isolamento voluntário e preventivo que começou a 23 de março. Na altura, vendo os sistemas de saúde de Itália e Espanha completamente arrasados, aproveitou a oferta do hotel para profissionais de saúde e tomou a decisão de proteger a família.

"Não quero que fiquem doentes por minha causa. Quando vou à porta de casa só os vejo da janela, é melhor que nada." Entretanto, sonha com o reencontro: "Estando as coisas mais ou menos calmas como estão agora, se abrirem as escolas, provavelmente também regresso".

gaia Depois de sete anos dedicados à enfermagem de reabilitação nos Cuidados Intensivos do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho, Ana Emerenciano teve que regressar aos cuidados gerais daquela unidade, porque "numa altura destas, não há enfermeiros especialistas, de primeira ou de segunda." Antes de ir para o terreno, andou "numa pilha de nervos", passou "noites em claro", angustiada por uma decisão. Natural de Ovar, casada e mãe de Artur, com seis anos, e de Laura, com três, como seria a sua vida a partir dali? Continuava a ir todos os dias a casa ou ficava a dormir no hotel? E quando não estivesse a trabalhar, o que faria?

"Optei por ir para o hotel quando estou de serviço e ir para casa durante a semana de folga. O ideal seria não ir, mas tenho dois filhos pequenos que precisam de mim. Mas confesso que vou sempre com o coração apertado, porque não sei se levo comigo o vírus", explica. Esse é o seu maior medo, o de infetar um dos seus, e é um risco que tenta reduzir ao máximo: não entra em casa sem antes mudar de roupa e de se desinfetar num anexo no jardim, dorme sozinha, faz as refeições numa ponta da mesa, deixou de "adormecer os meninos, de lhes dar muito colinho e muitos beijinhos".

Mesmo quando perto deles, sente-se longe: "Evito ter contacto muito direto e eles já entendem: "É por causa do vírus, mamã"...", conta a enfermeira que há quase dois meses só vê os pais ao longe, desde a rua para a janela.

Ana passou a viver dentro de quatro paredes, as de casa, as do Hospital de Gaia ou as do quarto de um dos três hotéis do concelho onde atualmente estão instalados 18 profissionais de saúde daquela unidade hospitalar. "Temos sempre o cuidado de colocar a máscara mal entramos no hotel e seguimos logo para o quarto. Não podemos, nem convém, andarmos a passear pelo hotel. E mandamos vir comida. que nos é trazida ao quarto", afirma. A vida de Ana é assim há quase um mês e assim vai continuar, ainda sem perspetiva de quando vai acabar. "E isso é o que dói mais".

s. joão da madeira Há um mês, Hiroshi Okai carregou malas, fogão e livros para as residências da Oliva Creative Factory, em S. João da Madeira. Era dia 23 de março, o médico de família fazia 23 anos de casado. No dia anterior, completou 49 de vida. Não houve tempo para festas, está a guardar essas emoções para depois. Mudou-se por "um bem maior", para proteger uma família em ansiedade com as notícias de profissionais de saúde infetados.

"O número de casos de Covid-19 estava a subir exponencialmente. E o risco de contágio, sobretudo para profissionais de saúde, era grande", relata o médico com resquícios de sotaque brasileiro. Tem origem japonesa, mas nasceu no Brasil para onde os pais emigraram. Veio para Portugal com 15 anos. Trabalha no Centro de Saúde de S. João da Madeira há uma década. "Li em fóruns que havia gente a oferecer apartamentos, hotéis, para quem não quisesse ir a casa. Na altura, não percebi a importância disso. Mas, à medida que o tempo foi passando, começou a criar-se uma ansiedade na minha família". O médico vive com a mulher e os dois filhos, de 16 e 22 anos, em Vila Nova de Gaia.

Quando soube que a Câmara de S. João da Madeira disponibilizou quartos na Oliva - em tempos normais alojam artistas - contactou o município. E já lá vai um mês. Na cozinha comum, só há frigorífico e micro-ondas. Levou um fogão elétrico, uma panela e outros utensílios. "Tive que reaprender a cozinhar", diz. Não tem televisão. Mas agradece para "desintoxicar" de dias intensos. "É uma oportunidade para me desligar. E trouxe livros."Vai acompanhando a evolução dos números pela internet e em conversa com colegas.

No centro de saúde, onde usa máscara e farda completa, já há uma tenda para receber casos suspeitos. Dá consultas por telefone e atende casos urgentes, grávidas e crianças. "Estamos a enviar receitas de medicação crónica por SMS ou por correio".Liga a infetados para fazer vigilância. O WhatsApp ajuda: "As novas tecnologias ajudam muito a não sentir a solidão destes dias".

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