Reinserção

Reshape quer moldar o futuro de quem esteve atrás das grades

Reshape quer moldar o futuro de quem esteve atrás das grades

Empresa de produtos cerâmicos, com ateliê em Lisboa, dá emprego a antigos presidiários. O projeto, criado em 2020 pela Associação de Proteção e Apoio ao Condenado, foi distinguido, este ano, com o prémio Manuel António da Mota, no valor de 50 mil euros.

Milton Godinho, de 33 anos, já esteve preso e, depois de sair da cadeia, descobriu a Reshape Ceramics. Trata-se de uma marca de produtos de cerâmica que pretende dar oportunidades concretas de reinserção a pessoas que estiveram encarceradas e que vende através de feiras e uma loja online. Apesar de nunca ter feito cerâmica, Milton sente que "o trabalho faz muito sentido", uma vez que é um projeto de "cariz humano e não apenas social".

O projeto, criado em 2020 pela Associação de Proteção e Apoio ao Condenado, foi distinguido este ano com o prémio Manuel António da Mota, no valor de 50 mil euros.

O atelier da Reshape Ceramics está situado em Arroios, Lisboa, nas traseiras do espaço "A Avó veio Trabalhar" (loja de decoração com pendor social). Lá dentro, estão prateleiras repletas de produtos de cerâmica em fase de produção. Um forno e mesas em madeira compõem o espaço onde Duarte Fonseca, fundador e diretor da Reshape, e Milton Godinho se encontravam a trabalhar no dia em que o JN os foi conhecer. A Reshape Ceramics também desenvolve a sua atividade numa "oficina" recuperada no Estabelecimento Prisional de Caxias.

Milton está há seis meses a trabalhar no atelier em Arroios, trabalha das 9 às 18 horas e está "comprometido com o projeto". Para o ex-presidiário, "fazer cerâmica é terapêutico". Enquanto produz as peças, Milton diz que reflete "sobre vários assuntos, bons e menos bons" e "trabalha melhor os sentimentos". Ao JN, este colaborador da Reshape Ceramics pede que a "sociedade seja mais aberta a quem teve problemas com a Justiça, acreditando nas suas capacidades". E deixa um apelo para que a sociedade não marginalize aqueles que estiveram presos.

"Há imenso talento"

Duarte Fonseca, de 32 anos, explicou que, uma vez que os presos, muitas vezes, "saem da prisão sem dinheiro, sem família e sem apoios", a Reshape "paga aos trabalhadores mesmo dentro da prisão" e estes "começam já a fazer poupanças". O objetivo é que, "quem sai a uma segunda-feira da prisão, à terça possa estar empregado" pela Reshape que, por sua vez, oferece um emprego de transição por "seis ou nove meses (ou mesmo para sempre). A empregabilidade não resolve a vida, mas é importante", lembra o fundador da Reshape.

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O objetivo é dotar os que já estiveram presos de mais autonomia. "As pessoas presas são tão ou mais capazes do que nós. Há imenso talento na prisão", assegura Duarte Fonseca. A Reshape Ceramics é guiada por três pilares: garantir oportunidades concretas para reinserção; sensibilizar as empresas para este tipo de criação de valor - sabendo que "convencer empresas para ir para o sistema prisional é difícil"; e dotar a sociedade de uma maior consciencialização para o tema.

No final de todo o processo de produção e de venda, o que a Reshape Ceramics pretende é "colocar os portugueses à conversa sobre o sistema prisional" a propósito das peças de cerâmica terem sido trabalhadas por pessoas que estão presas ou que já o foram. Esta metodologia de reinserção "pode ser aplicada a outras indústrias", concretiza Duarte Fonseca.

Questionado sobre a razão por que escolheram trabalhar com cerâmica, o fundador do projeto salientou o seu efeito terapêutico, uma vez que é necessário paciência e a "aprendizagem não é imediata".

Há um mantra brutal: o barro tem memória", explicou, indicando que as dedadas, as marcas de unhas e falhas no aquecimento das peças vindas do forno provam que, tal como a vida, nem tudo é perfeito.

No estabelecimento prisional de Caxias. o único onde este projeto é desenvolvido atualmente, os presos falam entre eles, garantiu Duarte Fonseca. A "Oficina da Olaria" tem uma "lista de espera superior à capacidade", daí que sejam as equipas técnicas a identificarem as pessoas para serem posteriormente entrevistadas. Os critérios são a vontade, a motivação e se as pessoas presas são da Grande Lisboa para poderem ser acompanhadas, quando deixarem o estabelecimento prisional.

Questionado sobre os objetivos para o futuro da Reshape Ceramics, o fundador do projeto afirmou querer elevar a marca para se tornar uma "referência nacional de impacto social e qualidade para ter mais gente". Para além disso, pretende, ainda, "mudar o paradigma do que é fazer negócio em Portugal - não ser só dinheiro pelo dinheiro". No total, duas pessoas já foram empregadas no atelier em Arroios - uma delas deixou a área para trabalhar em desporto - e em Caxias, sete.

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