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Rio quer controlar contactos de deputados com jornalistas

Rio quer controlar contactos de deputados com jornalistas

Rui Rio decidiu aplicar a lei da rolha à bancada parlamentar do PSD, exigindo aos deputados que pretendam falar com jornalistas que passem primeiro pelo crivo da assessora de imprensa que o acompanha há anos. Numa carta enviada por email aos parlamentares, defende-se que tal orientação visa pôr todos a falar a uma só voz, com "coerência política" e "eficácia na mensagem".

Cerca de cinco meses após ter renovado a bancada com muitas caras novas, fruto da escolha que fez para as listas de deputados, o líder do PSD veio agora ditar-lhes novas regras de relação com os jornalistas. Apesar de ser o presidente do partido, foi como líder parlamentar que remeteu aos 78 deputados laranja - sem contar consigo -, esta sexta-feira, um aviso de que a comunicação do grupo passará a ser "gerida de forma integrada por uma única equipa", liderada por Florbela Guedes, a assessora que o acompanha desde que foi autarca no Porto.

O social-democrata invoca a necessidade de "garantir a coerência política e eficácia da mensagem" para acabar com a ligação direta que sempre existiu entre deputados e jornalistas, quer pessoalmente nos corredores do Parlamento, quer nos habituais contactos telefónicos.

Rio estabelece que antes de os deputados aceitarem falar com jornalistas, terão primeiro de combinar de "forma articulada através da assessoria de imprensa" o que vão dizer.

Ainda que a bancada sempre tenha tido uma assessoria de comunicação própria, diferente da do líder e da sede nacional do partido, Rio decidiu que, a partir de agora, "o grupo parlamentar passará a ter uma equipa de comunicação em permanência nas instalações da Assembleia da República". Ela incluirá uma "assessora de imprensa, um fotógrafo e um repórter de imagem".

"Pensam que somos crianças?"

O email provocou espanto entre os parlamentares, apurou o JN, quer pelo teor da mensagem quer pelo "tom" em que foi escrito. Mas também há receio das consequências para quem furar esta disciplina.

Um dos deputados do PSD admitiu, ao JN, que não deixará de "continuar a falar com os jornalistas sem ter que pedir autorização a alguém". "Mas pensam que somos crianças, que têm de ser tuteladas? Isto ofende a autonomia dos parlamentares. Se somos uma bancada uniforme, chamada de grupo parlamentar do PSD, presume-se que, à partida, a direção não tem de recear que venhamos a falar disparates", disse.

Contudo, um outro deputado admitiu que a estratégia "resultará com os deputados mais novos". "Ninguém os conhece, ninguém sabe o que andam a fazer e mais facilmente papagueiam o que lhes for pedido. Vai ser difícil fazer depender qualquer conversa da vontade da 'doutora' [termo com que Florbela Guedes é identificada no email]. Trata-se de uma pessoa que nunca atendeu telefones aos jornalistas, nem mesmo durante a campanha eleitoral", assumiu. "Se fosse assim tão boa coordenadora, o PSD não tinha necessitado de contratar empresas de assessoria nas eleições em que já participou e nas diretas do partido", acrescentou.

E os artigos de opinião?

O JN sabe que também há dúvidas entre os deputados que escrevem artigos de opinião para os jornais, questionando se terão de os sujeitar a visto prévio da coordenadora.

A verdade é que, durante o debate e votação da eutanásia, na quinta-feira, a nova equipa, que consiste em funcionários do partido, já esteve presente na bancada dos jornalistas e é a mesma que acompanhou a comitiva de Rio durante a campanha eleitoral das legislativas. Todo esse trabalho, na quinta-feira, foi feito sob o olhar atento de Florbela Guedes, que se sentou na bancada oposta.

A fechar a mensagem, o líder do PSD responsabiliza os deputados pela eficácia da "nova organização" da comunicação, que passará a incluir produção de imagem e vídeo do trabalho que é realizado pelos deputados. "Esta nova organização da área da comunicação, sendo lógica, não deixa, no entanto, de ser ambiciosa e, por isso mesmo, o seu êxito depende, em larga medida, da capacidade de todos, seja ao nível político, como ao nível técnico".

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