Covid-19

Risco na pílula e na AstraZeneca? "O importante é dizer: é seguro"

Risco na pílula e na AstraZeneca? "O importante é dizer: é seguro"

O risco de formação de coágulo sanguíneo é um dos possíveis efeitos da pílula, de toma muito mais comum que a vacina da AstraZeneca, debaixo do fogo por causa de uma possível relação, para já não confirmada, com eventos tromboembólicos. Mas, de acordo com o conhecimento atual, em nenhum dos casos há razão para alarme.

A atual investigação a uma possível ligação entre a vacina da AstraZeneca contra a covid-19 e a formação de coágulos sanguíneos detetados em pessoas vacinadas (a Agência Europeia do Medicamento descartou, para já, uma relação causal) voltou a levantar comparações com o risco que acarretam medicamentos de uso banal, como o caso da pílula contracetiva.

A porta foi reaberta na semana passada por Silvestro Scotti, secretário-geral da Federação Italiana de Médicos de Família e presidente da Ordem dos Médicos de Nápoles, que disse que, mesmo que a co-relação entre a vacina e os coágulos sanguíneos fosse comprovada, a taxa de risco seria muito inferior, por exemplo, à da pílula, "que é usada amplamente e não preocupa ninguém". Com a comparação, quis mostrar que, embora a vacina comporte riscos, como qualquer medicamento, o benefício é "extraordinariamente favorável", como ainda hoje reforçou a Organização Mundial da Saúde e a Agência Europeia do Medicamento (EMA). Mas o paralelo com um fármaco usado por 151 milhões de mulheres em idade fértil em todo o Mundo (segundo dados da ONU de 2019) pode criar medo.

"Já se tinha colocado a questão da pílula por causa do risco aumentado de tromboembolismo durante a infeção por covid-19. Mas a maioria das mulheres com covid raro tem situação de internamento, faz anticoagulação pelo risco próprio da infeção e pelo facto de estar acamada. E não faz contraceção", lembra Teresa Bombas, da Sociedade Portuguesa da Contraceção, lamentando as "implicações reais" de alguma informação pouco esclarecedora sobre os riscos da pílula. "As mulheres suspendem mesmo. E depois temos gravidez não planeada e recurso ao aborto".

Vamos ao risco real. "Na população em geral, sem contraceção, em condições normais de vida corrente, quatro a seis mulheres em cada 100 mil vão ter uma tromboembolia. Quando vamos para a população de mulheres que tomam pílula, passa a ser oito a dez". Ou seja, o risco quase duplica, mas, ainda assim, "estamos a falar de um evento extremamente raro", salienta a especialista em ginecologia e obstetrícia, acrescentando que, além de haver imensos métodos de contraceção, há pílulas sem estrogénio para mulheres que têm risco tromboembólico.

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Importante dizer que é seguro

É uma questão de pesar prós e contras: "O benefício que temos de fazer contraceção a mulheres que vivem a sua vida sexual e não querem engravidar é substancialmente superior. O importante é dizer à população: é seguro". E o mesmo se aplica na questão da vacinação, defende Teresa Bombas.

"Sim, se calhar, durante a toma da vacina, há pessoas que têm eventos tromboembólicos, mas iam tê-los na sua vida real independentemente de terem feito a vacina ou não. Não sabemos se é necessariamente uma coisa que aumenta o risco ou se os eventos iam acontecer de qualquer maneira." E mesmo que venha a confirmar-se uma relação de causa/efeito entre a substância da AstraZeneca e as tromboembolias que se seguiram (a EMA não descarou a hipótese por completo), "as vantagens de fazer a vacina são imensas comparativamente ao número de pessoas que pode ter uma complicação".

Muito maior do que o risco tromboembólico associado à vacina e à pílula é, por exemplo, o risco associado ao pós-parto, que é de "300 a 400 por 100 mil". "Durante a gravidez, o risco sobe imenso sobe imenso. E nós dizemos às mulheres para não terem filhos por isso? Não, fazemos enoxaparina [anticoagulante] às mulheres que têm fatores de risco."

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