Laborinho Lúcio

Se Igreja optar por "ocultação da ocultação" dos abusos está a torná-los seus

Se Igreja optar por "ocultação da ocultação" dos abusos está a torná-los seus

Se a Igreja católica optar pela "ocultação da ocultação" dos abusos sexuais cometidos no seu seio estará a torná-los seus, retirando-lhes o caráter de responsabilidade individual de quem os cometeu, defendeu o juiz conselheiro jubilado Laborinho Lúcio.

Membro da Comissão Independente do Estudo sobre Abuso Sexual de Crianças na Igreja Católica Portuguesa (CI), que esta terça-feira promoveu uma conferência ao longo de todo o dia na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, o juiz conselheiro e ex-ministro da Justiça Álvaro Laborinho Lúcio defendeu na sua intervenção que é possível considerar "três momentos distintos" sobre os abusos sexuais na Igreja católica portuguesa.

Para além do momento dos próprios abusos, há um segundo momento que corresponde à sua ocultação e um terceiro, que é momento presente, que, para o juiz conselheiro, é aquele que coloca uma "questão decisiva".

"Ou há total transparência, e nós podemos continuar a dizer que os abusos sexuais não foram abusos sexuais da Igreja, mas de alguns dos seus membros, e que a ocultação ocorrida até há pouco não foi um encobrimento no sentido de impedir a punição, mas uma atitude generalizada culturalmente na sociedade portuguesa, ou a Igreja no seu todo rejeita a transparência e promove antes a ocultação da ocultação", defendeu o magistrado jubilado.

"Se a Igreja hoje optar por ocultar a ocultação com isto não está a fazer mais do que fazer seus os abusos sexuais que ocorreram no seu seio, a aumentar a densidade de censura que se lhe deve dirigir pela ocultação anterior e retirar de todos nós e das nossas crianças a esperança de que as coisas venham a modificar-se", concluiu.

Laborinho Lúcio disse crer que continuará a haver abusos sexuais na Igreja católica, ainda que espere que "de forma mais mitigada", mas sublinhou que é importante ter a noção de que os abusos praticados na Igreja "não são abusos sexuais da igreja católica portuguesa", numa separação entre a instituição e os prevaricadores, que devem ser "individualmente considerados".

Sobre o segundo momento, o da ocultação dos abusos, que "não pode deixar de ser reconhecido por todos", frisou que essa ocultação "perpassou toda a sociedade", incluindo as famílias, muitas vezes elas próprias a origem da ocultação e disse que a censura devida à Igreja católica pela ocultação dos crimes deve ser mitigada por se inserir numa "cultura instalada no todo da sociedade".

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A comissão anunciou que há 326 depoimentos de vítimas recolhidos.

As denúncias e testemunhos podem chegar à comissão através do preenchimento de um inquérito online em darvozaosilencio.org, através do número de telemóvel +351917110000 (diariamente entre as 10 horas e as 20 horas), por correio eletrónico, em geral@darvozaosilencio.org e por carta para "Comissão Independente", Apartado 012079, EC Picoas 1061-011 Lisboa.

A comissão, presidida pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht, integra ainda a investigadora e socióloga Ana Nunes Almeida, o psiquiatra Daniel Sampaio, a assistente social e terapeuta familiar Filipa Tavares e a realizadora Catarina Vasconcelos.

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