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Montalegre

Sexta-feira 13, o dia da expiação dos males

Sexta-feira 13, o dia da expiação dos males

São vários os comportamentos que servem para justificar uma eventual falta de sorte em sextas-feiras, 13. Este ano, o calendário teve duas e reservou outras tantas para 2018, nos meses de abril e de julho.

Vila Real. Oito horas da manhã. Depósito do carro atestado de combustível. "Bom dia. Quero pagar. Bomba 4". "Bom dia. Amanhã [hoje] é o Dia das Bruxas e eu vou ser a pior de todas", sorri uma jovem, atrás do balcão. Ela será uma alma entre as dezenas de milhares que hão de estar esta noite junto ao castelo de Montalegre para celebrar mais uma Sexta, 13 - a maior festa do misticismo de Portugal. É lá que todos os males serão esconjurados pela queimada e pela "bênção" do padre Fontes.

Esta jovem não há de cruzar-se com Maria de Fátima Afonso, que ficará na aldeia de Gralhas, a dois passos da vila de Montalegre, agarrada ao pau que lhe ampara a caminhada, a jurar a pés juntos que nunca teve medo de espíritos, bruxas ou fantasmas. Nem mesmo durante as noites que passou a "abrir a água aos lameiros, para deitarem erva e manter a cria".

A vila-realense também não se cruzará com a vizinha de Fátima, que esconde o nome porque "a filha não gosta" que dê entrevistas, e, mais a mais, "isso do azar nas sextas que calham nos dias 13 é uma grande treta". Porque ela até nasceu num 13 de fevereiro e "não houve azar nenhum". "O que conta é a proteção de Deus, contra quem as bruxas nada podem", insiste. E se passar aí um gato preto? "Oh, bem, bem, senhor. Agora o gato é que tem a culpa de ser preto? Nada, senhor, isso é tudo tolice".

Porventura, Maria de Fátima ficaria agradada com a decoração que Normanda Pires colocou na sua pastelaria Doce Lar, no centro de Montalegre: 13 guarda-chuvas abertos, pendurados ao longo do balcão, cada qual com o nome de um dos que hão de estar a trabalhar hoje para servir as comidas com nomes e enfeites de bruxas. "Mas quem entrar cá só encontrará sorte", refere, mesmo que tenham de passar por baixo do escadote colocado à entrada.

Sofia Dias, da organização, anda ali no castelo de um lado para o outro, carregando no braço os papeis do guião, sob bruxas e diabos pendurados, com olhos de quem a vai comer - a ela e a todos os que por ali passarem. "Podem vir à vontade. Este pode ser um dia de azar em todo o lado, menos em Montalegre", sorri.

O ponto alto da festa será a queimada e o esconjuro do padre Fontes. A mistela será distribuída por todos os que quiserem aquecer a noite. Mas antes, serão despejados no caldeirão todos os males que, segundo o sacerdote, atormentam os portugueses, como "o despovoamento do meio rural, a falta de oportunidades, a solidão dos idosos, os maus políticos, os maus banqueiros", entre outros, para que pelo poder do fogo e da bênção possam ser destruídos.

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