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Símbolo, protagonista, controverso, a favor do povo na rua. Assim é lembrado Otelo

Símbolo, protagonista, controverso, a favor do povo na rua. Assim é lembrado Otelo

O coronel Otelo Saraiva de Carvalho, que morreu este domingo, no Hospital Militar de Lisboa, é lembrado como um "símbolo" e um "protagonista cimeiro" do 25 de Abril. "Figura controversa" que sempre quis o povo no meio da revolução, dizem os amigos.

Costa: "Devemos a Otelo o que hoje somos"

"Otelo Saraiva de Carvalho foi o coordenador operacional da ação militar do Movimento das Forças Armadas, que, no dia 25 de abril de 1974, derrubou o regime do Estado Novo, pondo fim à mais longa ditadura do século XX na Europa e abrindo caminho à democracia. A capacidade estratégica e operacional de Otelo Saraiva de Carvalho e a sua dedicação e generosidade foram decisivas para o sucesso, sem derramamento de sangue, da Revolução dos Cravos. Tornou-se, por isso, e a justo título, um dos seus símbolos", exortou António Costa num comunicado em que lamentou a morte do coronel e endereçou condolências à família e à Associação 25 de Abril, de que Otelo fazia parte.

"Neste dia de tristeza honramos a memória de Otelo, como um daqueles a que todos devemos a libertação consumada no 25 de Abril e, portanto, o que hoje somos", pode ler-se na nota.

Marcelo: Otelo foi "protagonista cimeiro" em momento histórico

"O Presidente da República, consciente das profundas clivagens que a sua personalidade suscitou e suscita na sociedade portuguesa, evoca-o, neste momento como o Capitão que foi protagonista cimeiro num momento decisivo da história contemporânea portuguesa", refere Marcelo Rebelo de Sousa, numa nota publicada na página da Presidência da República.

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O chefe de Estado considera que "ainda é cedo para a história o apreciar com a devida distância", no entanto salienta que "parece inquestionável a importância capital que teve no 25 de Abril, o símbolo que constituiu de uma linha político-militar durante a revolução, que fica na memória de muitos portugueses associado a lances controversos no início" da democracia, "e que suscitou paixões, tal como rejeições".

Marcelo Rebelo de Sousa relembra o que disse no último 25 de Abril "acerca da aceitação que os portugueses devem procurar construir, todos os dias, relativamente a sua história pátria".

Associação 25 de Abril: Otelo "serviu Portugal sem se servir"

A Associação 25 de Abril recordou o coronel Otelo Saraiva de Carvalho como um homem que "serviu Portugal sem se servir".

Em comunicado, a Associação presidida pelo tenente-coronel Vasco Lourenço - que assume ver "partir um grande amigo" - homenageia o "homem de enorme coragem e generosidade, sempre ao serviço dos seus ideais, com um coração onde cabiam, acima de tudo, os mais genuínos sentimentos da amizade".

Convicta de que Otelo deixa "um legado que a memória dos portugueses não esquecerá", a Associação - fundada em 1982 por oficiais dos quadros permanentes das forças armadas, mas hoje aberta a outros militares profissionais e civis - considera que o "país fica mais pobre" com a partida do Capitão de Abril.

Ferro homenageia "o maior símbolo individual do MFA"

"Apesar dos excessos que se possam apontar, nomeadamente no período pós 25 de Abril, Otelo Saraiva de Carvalho foi, e será sempre considerado, o maior símbolo individual do Movimento das Forças Armadas", pode ler-se numa mensagem de pesar do presidente da Assembleia da República, considerando que Ferro Rodrigues contretizou o sonhou de todos os "que ansiavam por viver em liberdade e em democracia".

"No momento do seu desaparecimento, e pelo seu decisivo contributo, é justo render-lhe a mais sentida homenagem", enalteceu, sublinhando o "papel fundamental" na elaboração do plano de operações militares que derrubou o anterior regime.

Ministro da Defesa destaca "liderança militar"

"Expresso o meu pesar pela morte de Otelo Saraiva de Carvalho, que contribuiu de forma decisiva para a concretização da revolução de 25 de abril de 1974, através da sua liderança militar e capacidade estratégica, permitindo pôr fim à ditadura e abrir caminho à democracia em Portugal. Hoje evoco o seu papel na conquista da Liberdade", lê-se numa "nota de pesar" do Ministério da Defesa, assinada por João Gomes Cravinho.

MNE: Uma das muitas pessoas a quem devemos a liberdade

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, considerou Otelo Saraiva de Carvalho "uma das muitas pessoas a que nós todos devemos a liberdade", num comentário à morte do capitão de Abril.

"Como sabemos, ele foi o comandante operacional da ação militar do 25 de Abril de 1974. É, portanto, um dos capitães de Abril, embora nessa altura já fosse major, e é uma das muitas pessoas a que nós todos devemos a liberdade", acrescentou.

Neste "dia de tristeza", continuou, deve lembrar-se a "sua memória e a sua contribuição para que a mais longa ditadura da Europa, o Estado Novo, tivesse caído e a democracia se instaurasse em Portugal".

Filho de vítima das FP-25: "Morreu o homem que mandou matar o meu pai"

Manuel Castelo-Branco, filho de uma das vítimas das FP-25, descreveu o dia da morte de Otelo Saraiva de Carvalho como "mais um dia de sofrimento", em que recordou a dor da morte do pai.

"Para muitos, morreu hoje o Capitão de Abril, para outros o responsável máximo do Copcoon [Comando Operacional do Continente], para mim morreu o homem que mandou matar o meu pai e mais 14 vítimas inocentes, um bebé, o Nuno de apenas quatro meses, o Henrique, o Diamantino, o Alexandre, o Álvaro, o Adolfo, o Agostinho, o Fernando, o José, o Evaristo e o Rogério", escreveu Manuel Castelo-Branco na rede social Facebook.

Manuel Castelo-Branco, ligado ao CDS-PP, onde foi um dos mais próximos da ex-líder Assunção Cristas, filho de Gaspar Castelo-Branco, diretor dos Serviços Prisionais, morto em 1986 à porta de casa, partilha que se interrogou durante muitos anos como reagiria à morte de Otelo Saraiva de Carvalho, pensando se poderia sentir "um qualquer sentimento de vingança".

"Hoje o Otelo Saraiva de Carvalho morreu, e não sinto, não fiz, nem farei nada disso. Pelo contrário - é mais um dia de sofrimento, mais um dia em que me lembro de toda dor que este homem causou, sem que alguma vez tivesse cumprido a pena e 17 anos a que foi condenado e perdoado sem nunca se arrepender", escreveu.

Manuel Alegre: "O país deve-lhe a liberdade"

O histórico socialista Manuel Alegre considerou que Portugal deve a liberdade a Otelo Saraiva de Carvalho, defendendo não ser preciso distanciamento para perceber o papel que desempenhou na libertação de Portugal.

Em declarações à agência Lusa, Manuel Alegre manifestou um "sentimento de luto" pela morte de Otelo Saraiva de Carvalho, um sentimento que considera estender-se a "todos os portugueses que se reconhecem no 25 de Abril e na liberdade".

"Eu não penso que em relação ao papel que Otelo desempenhou na libertação do país seja preciso distanciamento histórico. Não é preciso distanciamento nenhum. Quem se identifica com o 25 de Abril, quem gosta da liberdade sabe que o Otelo rima com esse dia, com o dia 25 de Abril e rima com liberdade", defendeu.

Para o histórico do PS e ex-candidato presidencial, o capitão de Abril, que hoje morreu aos 84 anos, já "faz parte da história de Portugal".

"O país deve-lhe a liberdade. Esse é o bem mais precioso. O país deve-lhe, a ele e a todos os que participaram no 25 de Abril, mas a ele como coordenador operacional do movimento do 25 de Abril, e como símbolo que ele foi nesse dia do próprio 25 de Abril, deve-lhe a liberdade e deve-lhe aquilo que se seguiu que foi a democracia e a paz", elogiou.

PCP: "Não é a ocasião para registar atitudes e posicionamentos"

"Sobre o falecimento de Otelo Saraiva de Carvalho deve registar-se no essencial o seu papel no levantamento militar do 25 de Abril. O momento do seu falecimento não é a ocasião para registar atitudes e posicionamentos que marcam o seu percurso político", reagiu o PCP, numa nota emitida pelo gabinete de imprensa, em que endereçou ainda condolências à família e à Associação 25 de Abril.

BE: contributo imprescindível de um "construtor do 25 de Abril"

"Otelo Saraiva de Carvalho foi um construtor do 25 de Abril, estratega da Revolução que trouxe ao país a Liberdade, pôs fim à guerra e à colonização e abriu a esperança de uma democracia política e social", pode ler-se numa nota do BE enviada à agência Lusa. No momento da morte do capitão de Abril, "o Bloco de Esquerda agradece esse contributo imprescindível e endereça à família as mais sentidas condolências".

Já no Twiiter, a coordenadora bloquista, Catarina Martins, considerou que o Otelo é "uma figura maior do que a sua própria história". "Estratega do 25 de abril, será sempre lembrado como um dos libertadores de Portugal", elogiou.

Rio reconhece "papel corajoso e decisivo"

"O dia da morte de Otelo Saraiva de Carvalho é momento para reconhecer o seu papel corajoso e decisivo no 25 de Abril e na conquista da liberdade", referiu o presidente do PSD, Rui Rio, no Twitter. Para Rio, é à história que vai competir, "com isenção", fazer "a avaliação global de tudo que ele fez de bom e de mau". "Hoje não é o dia para isso", concluiu.

CDS fala em dia "agridoce"

No dia em que "o CDS regista com tristeza" a morte de Otelo Saraiva de Carvalho, o vice-presidente Miguel Barbosa assegurou à agência Lusa que o partido "não se deixa embriagar pela história", naquele que considera ser "um dia agridoce para os portugueses".

Por um lado, Miguel Barbosa lembra Otelo como "um dos principais obreiros do golpe de estado que ficou conhecido como a Revolução dos Cravos, o 25 de Abril de 1974", reconhecendo-lhe "um primeiro ato importantíssimo para devolver Portugal à liberdade e à estabilidade de uma democracia liberal, que apenas se veio a confirmar com o 25 de novembro".

Mas, por outro, sublinha "aquilo que O CDS não esquece", apontando o capitão de Abril como "um homem que, entre estas duas datas, teve atitudes e comportamentos em que contradiz tudo aquilo que parecia defender".

Na lista do que o CDS não esquece inclui "o Comando Operacional do Continente (COPCON), os mandados de captura em branco e as vítimas mortais do terrorismo das FP25", para sublinhar: "Não esquecemos que Otelo Saraiva de Carvalho era o rosto de toda essa atrocidade".

Isabel do Carmo: morte "acaba com uma época e uma utopia"

"Esta manhã senti uma coisa, senti que acabou, que, com este homem, acaba também uma época, uma utopia. Senti isso, emocionalmente. Senti a perda, o desaparecimento. Já não vai ser possível falar com ele", partilhou Isabel do Carmo com a agência Lusa.

Para a antiga dirigente do extinto do Partido Revolucionário do Proletariado (PRP), movimento que exerceu atividade clandestina através das suas Brigadas Revolucionárias (no PRP-BR), Otelo é, juntamente com Vasco Lourenço, "o dirigente do 25 de abril, do Movimento dos Capitães e do derrube da ditadura".

"Tivemos mais de 40 anos de ditadura, tivemos uma resistência continuada contra a ditadura e contra o fascismo, repetida, desgastante, com muita repressão, mas foi preciso um movimento que fizesse mesmo uma rotura e que derrubasse a ditadura pela força. Tinha de ser pela força", acrescentou, reforçando que Otelo "ficará para a História como o chefe, entre outros, que criaram um movimento que veio de baixo, não veio de cima, que derrubou a ditadura, que derrubou o fascismo em Portugal." "Para mim, é esse que fica para a História. É o homem do 25 de Abril de 1974, entre outros", rematou.

Carlos Matos Gomes: "instinto de trazer o povo para a revolução"

"O grande relevo é o de ter tido o instinto de trazer o povo para a revolução, porque senão o 25 Abril teria sido um mero golpe de Estado militar", disse à agência Lusa Carlos Matos Gomes, amigo de Otelo desde 1972, quando ambos cumpriram serviço militar na Guiné. O ex-militar e historiador da Guerra Colonial lembrou que o capitão de abril que hoje morreu que, logo no dia 26 de abril de 1974, foi "a favor de o povo vir para a rua, de o povo tomar voz e participar no processo político" e foi quem motivou "os portugueses a tomar o destino nas suas mãos"

Uma postura que Otelo assumiu sempre, "mesmo como as suas contradições", afirmou Matos Gomes, destacando-o como "uma figura única na nossa história" e um "líder popular que tem uma ideia e tenta concretizá-la, com erros, porventura com excessos", mas, sem deixar de ser "uma figura ímpar no processo político português e nos processos políticos que ocorrem e que ocorreram na Europa", concluiu.

Manuel Begonha: "símbolo de uma revolução" que libertou o país

"Apesar de termos tido algumas divergências, não quero deixar de manifestar a minha consideração e estima por um homem que foi, sem dúvida, um dos grandes heróis do 25 de Abril e símbolo de uma revolução que nos libertou de uma ditadura", disse Manuel Begonha à agência Lusa, apresentando sentidos pêsames à família e amigos. Para o comandante, "Otelo Saraiva de Carvalho foi um homem cativante, de diálogo fácil e de uma forte empatia, cuja presença não podia passar despercebida", referindo ainda que "alguns erros cometidos não apagam o essencial de uma figura notável do panorama político português".

Raimundo Narciso: "principal figura da revolução"

O antigo membro do comité central do PCP Raimundo Narciso evocou Otelo Saraiva de Carvalho como a "principal figura da revolução do 25 de Abril pelo seu papel na coordenação do movimento das Forças Armadas".

Em declarações à agência Lusa, Raimundo Narciso, que já foi membro da direcção da Associação do 25 de Abril, lembrou ainda o papel desempenhado durante o "período revolucionário", admitindo que, mais tarde, se tenha tornado posteriormente numa "figura controversa". "Mas teve o apoio da esquerda e dos populares e nunca deixou de ser uma figura carismática", observou.

Segundo Raimundo Narciso, a participação de Otelo no caso das FP-25 de Abril acabou por prejudicar a sua imagem, mas isso "não pode fazer esquecer o seu papel na organização": "Otelo nunca deixou de ser uma figura simbólica do 25 de abril e que tem a simpatia do povo português".

Chega critica "papel perverso e destrutivo" no pós-25 de Abril

Numa nota, a Direção Nacional do Chega começa por deixar "publicamente os seus sentimentos à família e amigos" pela morte de Otelo Saraiva de Carvalho, um momento que é "de dor e saudade, sobretudo para o círculo próximo".

Apesar disso, o Chega considera que não se pode "esquecer hoje o papel perverso e destrutivo que Otelo Saraiva de Carvalho teve no Portugal pós-25 de Abril, bem como a mancha de sangue que deixou durante esse processo histórico em que foi um protagonista fundamental".

Para o partido liderado por André Ventura, hoje é um dia para, entre muitas outras coisas, "refletir sobre os momentos piores do Portugal pós-revolucionário".

Sousa e Castro: Revolução podia ter sido"mais violenta"

O militar de Abril Sousa e Castro disse que se não fossem as qualidades pessoais e militares de Otelo Saraiva de Carvalho, a revolução poderia ter sido "mais violenta".

"Uma revolução paradigmática, que alcança os seus objetivos, derruba uma ditadura, e não produz vítimas ao Otelo se deve", afirmou Sousa e Castro em declarações à Lusa, lamentando a perda de "um amigo".

Para o major reformado, "se fosse outro o comandante militar, provavelmente a conduta de operações e das próprias tropas em movimento poderia ter sido mais violenta", no 25 de Abril de 1974, salientou.

Porque Otelo tinha "características militares muito vincadas, era um homem disciplinado, mas sem ser agressivo, (...) de uma forma que quase se poderia dizer simpática", descreveu.

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