Calamidade

SNS só aguenta até quatro mil internados ao longo de dois meses

SNS só aguenta até quatro mil internados ao longo de dois meses

Marcelo Rebelo de Sousa já o tinha deixado antever e na terça-feira confirmou. Portugal sairá do estado de emergência no sábado, o que deixa uma nova questão na mesa do Governo: com a reabertura gradual da economia, e sem o respaldo do Parlamento, como manter os portugueses em casa, para evitar um descontrolo da Covid-19?

Os epidemiologistas que na terça-feira aconselharam o presidente da República, Governo e partidos na sessão do Infarmed deixaram um indicador concreto. O Serviço Nacional de Saúde (SNS) só aguenta até quatro mil internamentos, em dois meses.

O cálculo permite tomar o pulso ao expectável aumento da propagação da Covid-19, à medida que o confinamento for sendo levantado. O JN apurou que o estudo, do professor de Epidemiologia da Faculdade de Ciências de Lisboa Manuel Carmo Gomes, tem um teto indicativo, acumulado ao longo de dois meses, de quatro mil internamentos. E define limites semanais, que servirão de indicador do ritmo de aumento das infeções. Se os limites parcelares forem ultrapassados, corre-se o risco de esgotar a capacidade de resposta do SNS. Nesse caso, recomenda-se um passo atrás na reabertura.

O próprio primeiro-ministro, António Costa, tem admitido a possibilidade de voltar atrás em medidas de reabertura, se a propagação da doença ultrapassar certos limites - ainda não tornados públicos. Que as infeções vão aumentar a partir de segunda-feira, quando reabrir o comércio local, é um dado adquirido.

Portugal deverá avançar para a reabertura a partir de uma situação menos favorável do que outros países que já estão nesse caminho. Noruega, Dinamarca ou República Checa aligeiraram as restrições com uma taxa de transmissão da doença próxima do R 0,9. Portugal está com uma média de 1,04. Vários médicos especialistas têm indicado como ideal um indicador de 0,7.

Na terça-feira, porém, os peritos salientaram outros fatores a ter em conta, como a morbilidade, a mortalidade e os internamentos, bem como a pressão económica e social para a reabertura do país.

Marcelo alerta para desgaste

Apesar dos riscos para a saúde pública, o estado de emergência terminará no sábado para não se tornar "banalizável, depreciável, convidando ao desrespeito", disse Marcelo Rebelo de Sousa, após a reunião, esperando que "não seja necessário, no futuro, recorrer de novo" a esta figura. O presidente da República alertou o Governo para que "pequenos passos" de abertura têm que ser acompanhados de um controlo da evolução da doença. "As duas são inseparáveis".

Para esse controlo, pode ser fulcral a manutenção de limites às deslocações. Agora, a ordem para ficar em casa tem o respaldo do estado de emergência, decretado pelo presidente da República e aprovado pelo Parlamento. Ainda assim, um relatório da Administração Interna mostra que os portugueses saíram mais de casa entre 3 e 17 de abril do que na semana anterior. Mas o estado de emergência acaba dia 2. Questionado sobre os poderes que uma eventual declaração da situação de calamidade dará ao Governo, Marcelo não opinou: "É prematuro comentar o epílogo deste processo".

A reserva do presidente, que tem respaldado o Governo, possui uma leitura possível: foi antes de ouvir o chefe do Estado e os peritos que o Governo traçou planos para reabrir o país. Aliás, na reunião de terça-feira, e ao contrário das restantes, Marcelo não fez qualquer pergunta. A próxima reunião é dia 14.

Cronologia dos próximos dias para saída gradual do confinamento

30 de abril

Depois da sessão de ontem com especialistas, o primeiro-ministro recebe a partir das 14.30 horas os partidos políticos para conhecer as posições de cada um acerca do período pós-estado de emergência. Amanhã, o Conselho de Ministros fixa o calendário da reabertura da economia.

4 de maio

É o dia em que a economia deverá começar a abrir, com mudanças a cada 15 dias. Começa pelo pequeno comércio, embora com restrições. Costa promete monitorizar os impactos e, mediante os resultados, no fim de maio decidirá sobre o alargamento da medida ao grande comércio.

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