José Sócrates

Sócrates espera esclarecimento do Procurador sobre escutas

Sócrates espera esclarecimento do Procurador sobre escutas

Primeiro-ministro quer que o procurador-geral da República esclareça, como prometeu, se é possível num Estado de Direito ser escutado "meses a fio", com as suas conversas privadas a serem gravadas e transcritas. "Isto está a passar todas as marcas", declarou.

"Isto está a passar todas as marcas", declarou José Sócrates aos jornalistas no Centro Cultural de Belém, antes de abrir uma conferência sobre os resultados do potencial científico e tecnológico, depois de confrontado com o teor das suas conversas telefónicas com Armando Vara, arguido no processo "Face Oculta".

José Sócrates começou por se referir à natureza do processo "Face Oculta", deixando uma mensagem de apoio às investigações em curso por parte das autoridades judiciárias.

"Com certeza que o caso Face Oculta merece ser apoiado por parte das autoridades políticas no seu desenvolvimento de investigação. Já disse o quanto me entristece esse caso pelo facto de um amigo meu [Armando Vara] estar nele envolvido, mas o meu dever é incentivar as autoridades a prosseguir no combate à corrupção. E vejo neste caso um evidente sinal de combate à corrupção, que é preciso apoiar", salientou.

No entanto, Sócrates deixou duras críticas à forma como tem sido tratado o ponto referente às suas conversas telefónicas com o ex-ministro socialista Armando Vara e que, segundo o semanário "Sol", incidiram, entre outros pontos, sobre o interesse da PT na compra da TVI.

"Outra coisa muito diferente - e esse é o ponto e importa não confundir as coisas - é saber se durante meses a fio eu fui escutado - porque isto está a passar todas as marcas -, se essas escutas foram legais e se é possível fazê-las num Estado de Direito. Eu tenho o maior interesse em ser esclarecido sobre isso", disse.

O primeiro-ministro afirmou depois ficar "à espera que esse esclarecimento se faça".

"Desconheço as escutas, não estou a par de nada e sei apenas o que vem nos jornais. Espero que o senhor procurador [Geral da República, Pinto Monteiro], com o esclarecimento que prometeu, possa esclarecer-nos a todos. A questão mais importante para mim é saber se, durante meses a fio, fui escutado, com as conversas a serem transcritas e gravadas, e se isso é legal e possível de ser feito num Estado de Direito", frisou o primeiro-ministro.

Já sobre o teor dos seus diálogos telefónicos com Armando Vara, o primeiro-ministro defendeu que se trataram de "conversas privadas".

"Fazem parte da reserva da minha vida privada, tive essas conversas com um amigo. Estou à espera que alguém também diga se essas gravações são verdadeiras", disse.

Sócrates procurou em seguida fazer uma distinção entre as posições assumidas na qualidade de primeiro-ministro e o teor de conversas informais que tem com amigos seus.

"Uma coisa é naturalmente discutirmos, com amigos, como fiz, relativamente a notícias que são publicadas nos jornais e a conhecimentos informais; outra coisa é, como disse no Parlamento, como primeiro-ministro, o conhecimento oficial e o conhecimento prévio desse negócio [compra da TVI pela PT]. Em relação a esse negócio não tenha nada a acrescentar ou a retirar", declarou.

Perante a insistência dos jornalistas sobre o teor das suas conversas com o ex-ministro socialista Armando Vara relativamente à TVI, o líder do executivo deixou uma advertência.

"Não me apanham nesse jogo [de] comentar conversas que tive com amigos meus, que são do domínio privado. Não aceito essa ditadura de as quererem transformar em conversas públicas. Isso faz parte dos direitos individuais das pessoas", sustentou.