Caso de estudo

Suécia não atingiu imunidade de grupo

Suécia não atingiu imunidade de grupo

País é segundo na mortalidade na Europa e só 7,3% da população desenvolveu anticorpos, apesar de recusar o confinamento.

Se a imunidade de grupo era um objetivo na forma mais relaxada como a Suécia enfrentou a pandemia de covid-19, falhou redondamente - ainda que continuasse a frequentar escolas (até aos 16 anos), cafés, restaurantes, bares e centros comerciais, a população não está imunizada. Assim como falhou nos resultados absolutos: tem a sexta pior mortalidade por SARS-CoV-2 do planeta.

Os suecos contabilizam cerca de quatro mil mortos, 389 por milhão de habitante, numa tabela liderada pela Bélgica (que classifica todos os casos suspeitos como covid, sem testar, e tem 795 mortos por milhão de habitantes) e em que só os países mais dramaticamente afetados pela pandemia estão no topo: Espanha (598), Itália (539), Reino Unido (536) e França (432). Portugal, com uma população semelhante à sueca, está nos 126. Se olharmos à mortalidade per capita no dia 21 de maio, a Suécia é a segunda na Europa, com 5,25 óbitos por milhão de habitantes, depois do Reino Unido (5,30). Itália estava nos 2,89 e França nos 2,32.

E agora, os primeiros estudos serológicos apresentam resultados dececionantes: em final de abril, só 7,3% da população da capital, Estocolmo, revelava anticorpos para o vírus, ou seja, esteve em contacto com ele. Muito aquém dos 60% a 80% considerados para se falar na dita imunidade de grupo. "É um pouco abaixo do esperado", admitiu o epidemiologista que lidera a resposta à pandemia, Anders Tegnell, que recusa que seja muito baixo. "Talvez dois pontos percentuais", disse ontem. Há um mês, acreditava em valores na ordem dos 15% a 20%.

Espanha, o país europeu mais sacrificado, por exemplo, teve 5% da população em contacto com o vírus. França também. Portugal ainda espera resultados.

Pelo menos aprendeu

Perante uma imagem crescentemente denegrida internacionalmente, as autoridades defendem-se. Esgrimem argumentos de que nunca pretenderam uma imunidade de grupo, apenas preferiram responsabilizar cada cidadão (e apostar na natural frieza nórdica, apoiada pela baixa densidade populacional e pelos 25% de suecos que vivem sozinhos) para o necessário distanciamento social no lugar de impor o confinamento.

E insistem que nunca viveram um colapso dos serviços de saúde (até porque a comorbilidade é mais reduzida do que noutros países) e que a ideia é olhar o ataque à covid-19 a longo prazo - como "uma maratona", foi a expressão escolhida pelo primeiro-ministro, Stefan Löfven. Mas nem a críticas de peritos internos escaparam, até admitirem que falharam, mas só nos lares, onde se registaram muitas das mortes.

"Ainda é cedo, mas a Suécia poderá representar a nova normalidade", admitiu, contudo, o diretor do programa de Emergências Sanitárias da Organização Mundial da Saúde, Michael Ryan. Porque com esta aprendizagem de distanciamento social sem confinamento, aprendeu a viver a dita nova normalidade dois meses antes do resto da Europa (do Mundo...).

"Depois de confinar, é difícil sair do confinamento. Como se faz? Quando?", avisava Tegnell, que lidera a Agência de Saúde Pública que desenhou a estratégia e que é independente do Governo e acredita que os países mais rigorosos no confinamento sujeitam-se a uma segunda vaga mais forte. A crer no estudo serológico, afinal, talvez não.

E, aí está outra lição, se a balança quis equilibrar saúde e economia, correu mal. As previsões de queda da economia são de 7%. Como na média europeia. Porque as fronteiras fecharam-se para o comércio externo.

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