Protesto

Tachos à janela? "Não devem ser os de baixo a pagar as contas"

Tachos à janela? "Não devem ser os de baixo a pagar as contas"

"Traz os tachos e as panelas a todas as janelas". Um grupo de pessoas que quiseram ir "além dos cliques na Internet" está a impulsionar um protesto contra um estado de emergência que dizem não proteger "quem precisa de proteção". A iniciativa arranca na segunda-feira, dia 13, e vai decorrer até dia 17, sempre às 19 horas.

O desafio é "chamar as pessoas à janela e fazer barulho", diz Joana Manuel, uma das impulsionadoras da iniciativa "Todos à Janela". O protesto pretende ser uma chamada de atenção para a necessidade de que o Governo "proteja quem necessita de ser protegido" e que, ultrapassada a pandemia, evite repetir a austeridade imposta pela troika entre 2011 e 2015. Para já, aderiram cerca de 500 pessoas ao evento criado no Facebook.

É preciso haver "coragem de tomar as decisões que ponham quem tem o dinheiro e o poder acumulado a ajudar quem não tem e não o contrário", defende Joana Manuel, artista, em declarações ao JN. "Falamos em tachos e panelas, mas é com o que der jeito: voz, apitos, instrumentos musicais, o que for".

A título pessoal, a ativista considera que a declaração do estado de emergência foi "extemporânea", uma vez que os portugueses estavam "a colaborar". Consumada essa decisão, esperava, "pelo menos, que ele fosse utilizado para proteger quem precisa de proteção". Mas o que tem visto é bem diferente e não lhe deixa dúvidas: nestes moldes, "o estado de emergência é contra a população".

"Está a ser usado para hiperbolizar a exploração e para agudizar as contas que os de baixo vão pagar: as pessoas que estão na linha da frente a trabalhar todos os dias sem segurança, as que podiam estar em teletrabalho mas cujas empresas não permitem" ou, ainda, os estivadores do porto de Lisboa, que "querem cumprir serviços mínimos e são os patrões que não deixam".

"'Lay-off' protege as empresas, não o emprego"

O Serviço Nacional de Saúde (SNS), continua Joana Manuel, "devia estar a ser secundado pela saúde privada". No entanto, em vez disso, "vemos o hospital do SAMS a fechar e testes [para Covid-19] cobrados ao Estado a 100€".

Numa situação de calamidade como a atual, considera, o estado de emergência "só está a ser usado para fazer 'operações stop' e para garantir que se mantém o estado de coisas que nos levou a esta fragilidade para lidar com uma pandemia e a uma crise deste tamanho".

Os 'lay-offs', diz a ativista, não protegem o emprego, mas sim as empresas. Sublinha que há várias a conseguir apoios do Estado depois de, em março, terem feito "distribuições de dividendos entre os acionistas", bem como outras que, antes de pedirem o apoio, fizeram despedimentos em massa. "Tudo isto está a ser avalizado pelo Estado".

Um novo "Que se Lixe a Troika"?

Se o "Todos à Janela" não convocou uma manifestação para um local público, não foi por "medo" do Governo ou para não desrespeitar um estado de emergência que Joana Manuel considera "absurdo"; essa decisão foi tomada por razões de saúde pública e "para nos protegermos a todos".

A ativista, que é também atriz, cantora e dirigente sindical, nega que este protesto seja meramente simbólico, considerando-o "tão simbólico como qualquer manifestação". Para já, recusa dizer que o "Todos à Janela" é um movimento e prefere chamar-lhe iniciativa. No entanto, caso seja necessário, "alguma coisa há-de nascer", assegura.

Joana esteve igualmente envolvida desde o início no movimento "Que se Lixe a Troika", criado em 2011 e que promoveu várias manifestações durante o Governo de Pedro Passos Coelho. Admite que o "Todos à Janela" tem "algumas características muito próximas" dessa plataforma, desde logo pela vontade "agregadora" de gente de vários quadrantes. Mas, sublinha, é uma iniciativa apartidária e "nem faria sentido que não fosse".

Durante a próxima semana, o objetivo do "Todos à Janela" é transformar as casas dos portugueses em pontos de protesto, sempre pelas 19 horas. Depois disso, logo se verá; tal como o estado de emergência, também esta iniciativa será "reavaliada" no dia 17.

Por enquanto, há apenas uma coisa que Joana Manuel dá como certa: "calados e parados não vamos poder ficar. É a nossa vida que está em jogo, e vamos sair desta pandemia muito mais pisados do que entrámos, quando devia ser ao contrário".

No Brasil tem havido iniciativas desta natureza de protesto contra a forma como o Governo de Bolsonaro está a lidar com a pandemia.

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