Saúde

A vós, mulheres: evitar tampões é minimizar riscos

A vós, mulheres: evitar tampões é minimizar riscos

Sempre - e este sempre acontece raramente - que é noticiada alguma fatalidade envolvendo o uso de tampões higiénicos, soa o alarme. É ou não seguro usá-los? As alternativas comportam menos risco? Que sinais dá o nosso corpo? Especialistas ouvidos pelo JN desfazem dúvidas e reforçam conselhos.

O último caso de síndrome do choque tóxico associado à utilização de tampões foi noticiado ontem: uma jovem belga de 17 anos morreu dois dias depois de manifestar náuseas, febre e vómitos, inicialmente entendidos como sintomas de uma gastroenterite grave. Em 2017, uma infeção originada pelo uso de um tampão além do número de horas recomendável matou uma menina britânica de 14 anos. Cinco anos antes, tinha sido a história de uma modelo norte-americana na casa dos 20, obrigada a amputar a perna, a chamar a atenção do público, sobretudo feminino, no seio do qual persistem dúvidas e mitos sobre a saúde íntima.

Vamos ao conceito. "A síndrome do choque tóxico corresponde a um choque séptico desencadeado por uma toxina, produzida por uma destas duas bactérias: a Staphylococcus [mais frequente] ou a Streptococcus [mais rara mas mais grave]. A toxina é libertada para o sangue e provoca uma série de alterações, que conduzem ao choque séptico. Tem uma mortalidade muito alta ou, se não for o caso, consequências devastadoras. É um quadro gravíssimo, normalmente associado ao uso de tampão vaginal", começa por explicar João Bernardes, professor catedrático de Ginecologia na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

As bactérias em causa, sobretudo a primeira, podem existir no nosso organismo sem que isso seja suficiente para haver uma infeção. Não são elas que provocam a doença, é a toxina por si produzida, cuja propagação é facilitada se estiverem reunidas condições. "O tampão, se estiver retido durante muito tempo, acumula sangue, que é um meio de cultura para qualquer bactéria. E havendo um meio de cultura que faça proliferar a produção desta toxina e destas bactérias - algumas com estirpes mais agressivas que outras -, esse quadro pode ser desencadeado", acrescenta o também presidente do Colégio de Especialidade de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos, destacando ainda que o próprio "traumatismo que o tampão faz na mucosa vaginal" pode fragilizá-la e aumentar a absorção das tais substâncias tóxicas.

Uso prolongado de tampão na origem dos casos atuais

Daniel Pereira da Silva, presidente da Federação das Sociedades Portuguesas de Obstetrícia e Ginecologia (FSPOG), explica que a síndrome foi relativamente frequente há 30 anos, principalmente nos Estados Unidos, onde as marcas cujos tampões estavam associados à patologia acabaram por ser retiradas do mercado. O cenário mudou e, nos últimos 20 anos, os casos são raros no mundo. "Atualmente, a patologia está mais associada ao uso prolongado, por mais de seis horas, do mesmo tampão, que favorece o desenvolvimento e generalização de uma infeção. Aquele corpo estranho, que é uma coleção de sangue menstrual, pode ser um meio de cultura incrível para desenvolver a infeção", reforça o especialista.

Apesar de a síndrome estar associada ao uso, sobretudo incorreto, de tampões, "não está sempre e está cada vez menos", diz João Bernardes, acrescentando que "até é mais recorrente em feridas cirúrgicas, embora também não seja muito frequente". Pode, por isso, ser diagnosticada em mulheres não menstruadas, crianças e homens que apresentam outros quadros infeciosos.

Mas então não se pode usar tampões?

Pode usar-se, mas em condições normais e controladas. Ou seja, "durante pouco tempo e com os cuidados que são recomendados", lembra João Bernardes. "Se houver qualquer situação infeciosa ou de aumento de risco de infeção ou debilidade física, então nesse caso é completamente proibido", acrescenta.

Para prevenir uma grande acumulação de sangue, "a melhor forma de minimizar o risco é usar o tampão por curtos intervalos de tempo - quatro a cinco horas, não ultrapassando as seis - e nunca durante a noite", continua Daniel Pereira da Silva, admitindo que, mesmo cumprindo as recomendações, as mulheres podem ainda assim desenvolver a síndrome. "É uma circunstância muito rara, é uma por 100 mil utilizadoras, mas nunca se pode dizer nunca."

De qualquer forma, defendem os especialistas, a melhor forma de minimizar os riscos é privilegiar uma alternativa mais segura. E, não, não estamos a falar do copo vaginal. "Embora mais raros, também já foram descritos alguns casos, fora do nosso país, por causa da manipulação e da coleção do sangue que ali fica. O facto de ter o copo vaginal não quer dizer que está isenta de risco", diz o presidente da FSPOG. O mais seguro é, "sem dúvida", o penso higiénico, uma vez que não é intravaginal: "É, na minha opinião, a forma de minimizar o risco ao máximo." O recurso a contraceção hormonal ou por dispositivo uterino também pode ser benéfica porque diminui o fluxo sanguíneo.

Aliado aos cuidados já lembrados, é importante também que haja uma avaliação clínica regular. "Se houver uma patologia ginecológica prévia, o risco é muito maior. A primeira regra é a vigilância médica habitual, de rotina, ir ao médico sempre que há qualquer sintomatologia", lembra Bernardes.

Quais são as consequências?

A patologia tem uma taxa de mortalidade muito elevada e, quando não é fatal, pode deixar sequelas graves: "insuficiência renal, falência múltipla de órgãos e necrose de membros", que levam à amputação. Os efeitos derivam não só do choque cético, mas também "das posteriores intervenções muitíssimo agressivas para salvar a vida do doente, que podem deixar sequelas", diz João Bernardes. "Quando está instalado o choque, que acontece de forma muito rápida, o tratamento faz-se através da prestação de cuidados intensivos. É preciso muitas vezes suporte cardiovascular e, com frequência, hemodiálise."

Casos têm diminuído mas falta consciencialização

O uso mais cuidadoso do tampão e a alteração da própria composição dos tampões, a nível das fibras, explicam a redução do número de casos. "Uma das razões drásticas foi o facto de a tecnologia ter melhorado o fabrico dos tampões", diz Daniel Pereira Silva, que em mais de 40 anos de atividade nunca se deparou ou teve conhecimento de algum caso em Portugal.

"Por ser uma situação rara, os médicos e as utilizadoras não estão abertos para ela", admite o especialista, justificando-o com o facto de os sintomas estarem muito associados a um quadro gripal. "Normalmente não se associa à presença do tampão intravaginal, que pode lá estar há várias horas e passar despercebido. E depois, quando o diagnóstico é feito, pode ser fatal. A síndrome leva a um desequilíbrio orgânico quase generalizado e torna-se irreversível."

A vós, mulheres, o conselho dos especialistas é que estejam alerta, sem alarmismos. Se porventura estiverem a usar um tampão e tiverem febre, arrepios ou outros sintomas que associem a um quadro de gripe, retirem imediatamente o tampão e consultem um médico.

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