Covid-19

Telepsicologia ganha terreno com privacidade assegurada

Telepsicologia ganha terreno com privacidade assegurada

Ordem dos Psicólogos recomenda cuidados com a cibersegurança e privacidade no uso das tecnologias. Pacientes destacam a fácil adaptação e a flexibilidade na terapia à distância.

Com a chegada da pandemia de Covid-19 a Portugal, também o paradigma das consultas de psicologia mudou. Com o consultório a passar para a casa dos clientes e dos profissionais, a Ordem dos Psicólogos veio relançar as linhas de orientação para a intervenção psicológica à distância e recomendar o uso de tecnologias de comunicação encriptadas, para garantir a segurança dos dados e a confidencialidade das consultas. Quem aderiu à telepsicologia, recomenda.

"Para haver confiança no psicólogo, deve haver privacidade. Para aumentar a segurança, é importante que a conversa seja encriptada", explica Miguel Ricou, presidente da Comissão de Ética da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Ainda que na prática, o risco de acesso à consulta por terceiros "possa ser reduzido, existe essa possibilidade e os clientes devem ter noção disso", logo no consentimento informado, frisa o psicólogo.

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Até agora a intervenção à distância "não era muito popular" no nosso país, com poucos profissionais a explorarem-na, mas "nesta altura, há muito poucos psicólogos a trabalhar face a face", segundo Miguel Ricou. A ordem portuguesa defende a telepsicologia como alternativa à terapia presencial apenas quando se justifique, como nesta pandemia, ainda que a "videoconferência atenue a falta da presença", admite.

Segurança e confidencialidade são chave para Joana Batista, que pratica psicoterapia online há cerca de dez anos e só usa ferramentas encriptadas. Para consultas por videoconferência utiliza a plataforma Zoom, para troca de mensagens a WhatsApp e para emails o ProtonMail. De Inglaterra, onde trabalhava na proteção de menores, trouxe já alguma experiência na modalidade. Já em Portugal, encontrou nos expatriados portugueses e brasileiros um público para a telepsicologia, pela necessidade de se exprimirem na língua mãe.

Criatividade e truques

Na telepsicologia "também é preciso usar a imaginação. Vamos desenvolvendo truques, como colocar o ecrã ao nível do olhar, dividir o ecrã para poder acompanhar exercícios", explica a psicóloga de Vila Nova de Gaia.

Para a paciente Ana (nome fictício), enfermeira na Alemanha, de 28 anos, desde o início que as teleconsultas decorreram de forma "muito natural" e as regras foram estipuladas. "Senti logo que já nos conhecíamos". Em videoconferência, "parece que estou sentada à beira da Joana. Deve ter a ver com o conforto e a sensação de segurança por estar em casa". Quando sente necessidade, pede para antecipar a consulta e tem aqui uma flexibilidade que valoriza.

trabalho contínuo

A grande vantagem da telepsicologia é "a maior continuidade da terapia", nomeadamente através do envio de trabalho de casa ou do apoio imediato, ainda que para isso existam "muitas regras, para limitar a dependência dos pacientes", como tempos de resposta e cobrança de SMS e chamadas, explica Joana Batista.

Bruno (nome fictício), engenheiro informático de 40 anos, teve agora a sua primeira consulta online, mas já tinha feito terapia presencial há cinco anos. Garante que "o sigilo não é problema". "Não senti diferença. Foi tão eficaz como a presencial. Apesar de ter sido a primeira consulta, foi muito produtiva e o meu caso foi abordado com profundidade".

Pandemia é uma "bomba-relógio" para a ansiedade

surto Apesar da Covid-19´ter sido detetada há dois meses em Portugal, os efeitos do medo, do confinamento e da incerteza na saúde mental das pessoas não foi imediato.

Só nas últimas duas semanas Joana Batista, que se especializou em telepsicologia, começou a ser contactada devido à pandemia. "Até agora a terapia não era a prioridade, mas as pessoas começam a ter consciência dos sinais e a procurar ajuda. Estão a notar um impacto familiar e pessoal devastador", diz. Ansiedade, angústia de não se saber o amanhã, as responsabilidades, o stress do teletrabalho com os filhos ao lado, incapacidade de ajudar os familiares são as situações comuns nesta altura , refere.

Teletrabalho

Que o diga Bruno, imigrante brasileiro, no Porto há menos de um ano. Nos últimos tempos sentiu-se "muito impaciente". Confinado a uma casa pequena e fria, em teletrabalho com uma filha bebé e a mulher desempregada, bombardeado por notícias más e a sentir-se impotente relativamente à família que ficou num Brasil liderado por um presidente de quem diz sentir vergonha, acabou por recorrer à psicoterapia online. "Para quem é ansioso, isto é uma bomba-relógio", diz.

Ana, enfermeira portuguesa numa unidade de cuidados intensivos alemã dedicada à Covid-19, diz que o pior é não poder estar a ajudar o seu país. O stress, o desgaste emocional, o cansaço dos nove turnos seguidos, "de não ver nada positivo, de ver as pessoas a morrer", deixou-a abatida, irritada e a questionar o futuro.

A Ordem dos Psicólogos recomenda que se promova a "tranquilidade informada", seguindo orientações da DGS

Privacidade

Os pacientes devem ser informados acerca dos limites de confidencialidade, mecanismos de segurança e potenciais problemas decorrentes do uso de tecnologia. O consentimento informado deve referir o registo da informação. A comunicação deve preferencialmente ser feita através de ferramentas com criptografia de ponta-a-ponta.

Intervenção em crise

Os mecanismos para lidar com situações de crise devem ser definidos de antemão. O cliente deve facultar contacto alternativo. O psicólogo deve conhecer os recursos familiares e os serviços de saúde a que o cliente poderá aceder para encaminhamento.

Identificação

Os psicólogos devem fornecer o nome, a formação académica, a especialidade e o número de cédula profissional, que pode ser confirmado no diretório online da Ordem dos Psicólogos. Devem ainda ter endereço físico identificado.

Primeira consulta

É recomendado um contacto presencial prévio com os clientes, "pois parece ser preditivo da eficácia da intervenção à distância". Na impossibilidade, questão deve ser abordada com pacientes.

Local adequado

A terapia deve decorrer em local privado, onde nenhuma das partes seja incomodada.

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