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Telescola: "É fixe, mas um bocado aborrecido"

Telescola: "É fixe, mas um bocado aborrecido"

Começou esta segunda-feira para 850 mil alunos. Bouçós é apenas uma das muitas famílias obrigadas a reajustar o seu dia a dia ao "Estudo em Casa".

A nova telescola começou esta segunda-feira com uma aula de Português. As aulas na televisão abrangem cerca de 850 mil alunos e são emitidas, em sessões de 30 minutos, na RTP2 para o Pré-Escolar e na RTP Memória para o Ensino Básico. Por causa da pandemia, as famílias viram-se obrigadas a reajustar o seu dia a dia para enfrentar o terceiro período com o " Estudo em Casa" pela TV, de segunda a sexta, complemento das aulas por videoconferência.

O salão da casa da família Bouçós em Reboreda, Vila Nova de Cerveira, estava ontem transformado numa sala de aula. Num dos extremos de uma mesa comprida, usada para refeições em ocasiões festivas, Beatriz, de 8 anos ("Bia"), tinha instalada a sua carteira, com livros, cadernos e o computador ligado. O manual de Português estava aberto num texto, com exercício, com o título "O Jardim da Matilde". Dali, a aluna do 3.º ano espreitava a televisão, à espera do inicio da aula de Português, a que se seguiria, após um intervalo de 10 minutos, a de Matemática.

Num quarto, ali ao lado, estava Diogo, o irmão de 14 anos, que frequenta o 8.º ano e preparava no computador um trabalho, em conjunto com colegas, para uma aula por videoconferência também quase a começar. À tarde estreará a telescola. "Parece-me um bocado seca", comenta, antecipando. E avalia as vantagens de ter aulas em casa. "Estamos mais relaxados. Na escola tenho os amigos, mas aqui se quiser paro. Se me apetecer ir à cozinha vou".

A mãe, Alberta Dantas, de 43 anos, administrativa num empresa do ramo alimentar, tirou uns dias de licença para poder acompanhar a filha. "Não sabia como é que ia funcionar a telescola. Isto é tudo novo. Vou ficar em casa até ao fim do mês e depois renovo ou não a licença conforme a autonomia dela", diz.

"Bia" transfere-se da mesa para o sofá com papel, canela, lápis e borracha. Não vai muito convencida. "Já vi como é a telescola e é um bocado aborrecido. É muito diferente. Preferia estar na escola. Sinto saudades dos meus amigos. Só falo com eles no computador quando tenho aulas com a professora", diz.

A aula começa com duas professoras, Helena e Sandra, a ensinar com fazer e preencher um horário. Beatriz começa a desenhar o seu. Devagar. A mãe observa-a. E comenta, como que a pensar em voz alta: "Se calhar, eles com isto vão ganhar mais autonomia e usar mais a cabecinha".

No ecrã, as docentes anunciam várias vezes o fim da aula e pedem uma autoavaliação com direito a escolha entre três smiles coloridos: Verde para "Muito fácil", laranja para "Fácil" e vermelho para "Algumas dificuldades".

"Bia" escolhe o primeiro e repete: "É fixe, mas é um bocado aborrecido". A aula encerra com a apresentação da canção "Hora da TV", criada propositadamente para a nova versão da telescola. E a RTP Memória retoma, entretanto, a sua programação normal. "OK põe-me KO, OK se fores capaz, OK põe-me KO, Se souberes como se faz...", cantam as "Doce", enquanto não chega a próxima aula.