Entrevista JN/TSF

Tiago Barbosa Ribeiro: "Não é papel do PS ser muleta de Rui Moreira"

Tiago Barbosa Ribeiro: "Não é papel do PS ser muleta de Rui Moreira"

Não gosta de comentar sondagens e assegura ter o partido mobilizado. Tiago Barbosa Ribeiro não esconde a impaciência com o tema "requentado" da escolha do candidato e elenca apostas em áreas críticas como a habitação e a mobilidade para construir alternativas ao atual rumo no Porto. Um rumo de "lento declínio" e de esvaziamento de poder junto do Terreiro do Paço e dos concelhos vizinhos.

Não foi a primeira escolha do partido. Como foi preparar uma equipa com este entrave?

Não foi nenhum entrave. De facto, já respondi a essa questão várias vezes e acabo por perder mais tempo com essa matéria do que com questões que, a poucos dias das eleições, interessam mais aos portuenses. As listas do PS são de uma grande qualidade, grande abertura à sociedade. E esse processo, que é um tema requentado nesta altura, teve mais especulação na Comunicação Social do que aquilo que estava a acontecer. Estamos todos concentrados e mobilizados e unidos para uma grande vitória do PS no dia 26, na cidade do Porto.

As sondagens dão sinal de grande quebra em relação ao valor atingido por Manuel Pizarro, há quatro anos. Como lida com essa falta de reconhecimento junto do eleitorado?

Apenas uma sondagem dava nota dessa quebra, precisamente a do JN. As sondagens devem ser analisadas sempre com muita prudência, em especial no Porto, porque o eleitorado do Porto já nos mostrou, e ao país, que a verdadeira sondagem que conta é no dia das eleições, quando os votos são contados.

A fragilização do PS no Porto não será prejudicial para uma futura candidatura daqui a 4 anos?

Neste momento, não estou preocupado com uma futura candidatura, estou preocupado com o presente e com a candidatura do PS que encabeço em 2021. Temos de estar concentrados em mobilizar o eleitorado para essa alternativa para a cidade, porque o que vemos é uma grande dissociação entre o que é a realidade vivida na cidade, nos vários níveis - a qualidade de vida, preços da habitação, ambiente, creches, mobilidade e outros temas -, e aquilo que é a propaganda da Câmara Municipal.

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Num cenário de vitória de Rui Moreira, admite vir a aceitar pelouros se for convidado?

Estou a trabalhar para ganhar estas eleições em nome do PS. Se não for esse o resultado, ficarei na CMP por 4 anos, respeitando a vontade dos portuenses. Se os portuenses quiserem que seja líder na CMP, votam nesse sentido, se não for esse o sentido, ficarei na CMP sem pelouros, a assumir aquelas que são as nossas bandeiras, a assumir o papel que é o do PS, que é construir alternativa na cidade do Porto.

Mas porquê sem pelouros?

Porque não me revejo no modelo de cidade que atualmente é seguido por Rui Moreira e como não há qualquer tipo de proposta, nenhum tipo de projeto para os próximos quatro anos, presumo que seja a continuidade daquilo que tem vindo a ser feito por um candidato que é apoiado pelo CDS, que é apoiado pela Iniciativa Liberal, e que não tem dado resposta, no nosso entendimento, àqueles que são os problemas fundamentais.

O PS já assumiu pelouros em executivos liderados por Rui Moreira. Não entende que esse contributo tenha sido útil?

Entendo que houve um contributo muito útil do PS nessa altura. O PS fez um acordo programático pós-eleitoral há oito anos, relativamente a matérias-chave - a habitação, a ação social e o urbanismo. Na habitação acho que se sente muito a falta do PS. Hoje em dia, o programa do dr. Rui Moreira é profundamente ideológico e vinculado a uma visão absolutamente liberalizadora da nossa cidade, desde logo no alojamento local. Não é certamente papel do PS, neste cenário, ser muleta do dr. Rui Moreira.

Concorda que o Porto tem perdido protagonismo? Há falta de Porto no Terreiro do Paço?

Acho que essa é uma realidade que sempre existiu. O centralismo é um problema do país, que temos de ultrapassar. Na minha opinião, só o ultrapassamos com a regionalização, mas o que vemos é que, se o centralismo prejudica o país, a inação de Rui Moreira relativamente aos problemas do Porto, que contribuem para essa falta de afirmação, prejudica todos os portuenses.

Disse que Rui Moreira é um católico não praticante no que diz respeito à descentralização. E o PS é um católico não praticante quanto à regionalização? Acredita que vamos tê-la?

Acredito firmemente que vamos tê-la e se Rui Moreira é, na minha opinião, um católico não praticante relativamente à descentralização, é alguém de muitas religiões relativamente à regionalização porque, tanto quanto sei, esteve contra a regionalização e votou contra no referendo, aparentemente evoluiu no seu pensamento e ainda bem. Eu sempre fui a favor da regionalização.

Mas há uma responsabilidade do PS ao não acelerar o processo.

Acha que, se amanhã fôssemos votar pela regionalização, há garantias de que o país está preparado e que não temos novamente um chumbo, como tivemos? Acho que temos de preparar o país para a regionalização. Por mim, chegava amanhã, mas há um problema constitucional, como sabemos, e temos de o ultrapassar com um referendo. Neste momento, o que temos de aproveitar, e não está a ser aproveitado pelo Porto, é o processo de descentralização.

Porque é que diz que não está a ser aproveitado?

A Câmara do Porto recusa sistematicamente as competências que o Governo quer transferir de forma protocolada, porque prefere alimentar a narrativa de um conflito permanente para justificar a sua própria inação. A Câmara tem de assumir mais competências, nos mais diferentes níveis - saúde, segurança, apoio social, educação, limpeza - e, já agora, descentralizar uma parte dessas competências para as juntas de freguesia, porque esta coisa do centralismo não é só num sentido, é muito importante que haja um vasto pacote de descentralização de competências. Por exemplo a nível de limpeza, que está absolutamente caótica na cidade, a Câmara não descentraliza.

Já mencionou que o Porto está a perder população. A gentrificação turística explica tudo?

Hoje em dia, as pessoas não conseguem viver na cidade, por mais propaganda que exista, porque os preços por metro quadrado são absolutamente incomportáveis para a classe média. A mediana do metro quadrado, entre o primeiro trimestre de 2016 e o primeiro trimestre de 2021, são os dados do INE, aumentou 105% na cidade do Porto. No centro histórico, aumentou 155%, perdemos 13% da população onde se situa a maior percentagem de licenciamento de alojamento local.

Como é que isso se inverte?

Inverte-se percebendo que este problema existe, não ignorando-o. Precisamos de políticas que são aqui multidimensionais. O setor turístico tem que ser valorizado, tem o seu papel no país, na cidade, e disso não há qualquer dúvida. O que nós precisamos é de compatibilizar a oferta turística, e a procura que ela gera, com outros direitos ao uso da cidade, nomeadamente a morar na cidade.

Mas admite mais regulação, nomeadamente na limitação do alojamento local?

Vamos apresentar a proposta de tornar todo o Centro Histórico zona de contenção a novos licenciamentos de alojamento local. Há ali um problema que é inequívoco: mais de 70% dos licenciamentos atualmente existentes estão naquela união de freguesias, que nos últimos 10 anos perdeu 12,6% da população, dados dos Censos. E isto vai prejudicar a própria oferta turística, porque nenhum turista vem ao Porto, como nós não vamos a outras cidades, para ver, perdoem-me a expressão, pessoas como nós. Vamos para ver o que é típico, o que é distintivo. A massificação da oferta, nomeadamente no Centro Histórico, vai prejudicar a qualidade da oferta turística, porque o Património Mundial não é o edificado - também, mas é sobretudo as pessoas.

Defende a construção de mais habitação municipal?

Defendo mais construção. Vamos lá ver, temos que separar aquilo que é habitação social pura, aí creio que as coisas estão mais ou menos estabilizadas, é preciso melhorar a qualidade. Eu estou a referir-me a outra dimensão, para ficar claro, que tem a ver com a falta de oferta de arrendamento acessível para as classes médias. E aí a Câmara Municipal tem que ter política pública articulada com o Estado.

E qual é o seu plano?

As zonas de contenção vão arrefecer o aumento dos preços. Em segundo lugar, o meu plano é a criação de um programa de arrendamento acessível, mobilizando o banco municipal quer de imóveis, quer de terrenos. Vamos mobilizar parceiros privados e outros, por exemplo como a Misericórdia do Porto. Já estive reunido com o provedor, a Santa Casa da Misericórdia é o maior proprietário da cidade do Porto, não público. E está muito disponível para entrar num programa desta natureza.

Tem na sua cabeça um número? Se for eleito presidente da Câmara, daqui a quatro anos terá quantas casas de renda acessível?

Tenho um número que considero realista: nos próximos seis anos, três mil fogos de arrendamento acessível, com rendas mesmo comportáveis para os portuenses. Dou um exemplo: um T1 não pode custar mais do que 250 euros. Ainda na questão da habitação, uma área que tem sido completamente esquecida, creio que os portuenses percebem bem isto, é a dimensão das cooperativas. As cooperativas tiveram um papel enorme na cidade do Porto durante muitos anos, a Câmara pode atuar como garantia das cooperativas.

Um dos grandes problemas da cidade e da área metropolitana é a mobilidade. Como é que se propõe resolver a questão da VCI?

Temos de começar por aquilo que têm sido erros sucessivos da Câmara. Não exige negociação, não exige financiamento, basta não cometer os erros que têm vindo a ser cometidos. Dou vários exemplos: os pinos, ou pilaretes, como lhe queiram chamar, que estão espalhados pela cidade e que provocam constrangimentos a toda a gente, reverter erros na sinalização de sentidos de trânsito, e novas obrigatoriedades que não fazem qualquer sentido. Não faltam erros em cima de erros, inclusivamente faixas desenhadas na Foz onde autocarros não passam e têm que ocupar duas faixas de rodagem. Ciclovias mal desenhadas, mal construídas e desligadas da rede da cidade.

Esses exemplos são de "malha fina". E a visão de helicóptero?

Vamos ter um plano local de combate às alterações climáticas, antecipando em dez anos na cidade do Porto aquilo que são as neutralidades carbónicas no país. Aqui entra a mobilidade sustentável. A Metro do Porto é uma componente fundamental da nossa mobilidade metropolitana.

Acompanha as críticas de Rui Moreira de que a TAP abandonou o Norte?

Não sei que críticas, eu gosto de comentar em concreto, porque Rui Moreira sobre a TAP já disse tudo e o seu contrário....

Mas esquecendo Rui Moreira, qual é a visão de Tiago Barbosa Ribeiro? A TAP está a cumprir o seu papel de serviço ao Norte?

A TAP não está a cumprir esse papel. E a TAP é uma empresa estratégica para o país, não se pode comparar com empresas que têm o seu papel, mas que não cumprem a legislação laboral portuguesa, que não têm trabalhadores nas condições mais adequadas, e que não pagam impostos em Portugal. Neste momento, a TAP está com um processo de reestruturação. O que eu antecipo, espero e desejo é que no fim deste processo o Aeroporto do Porto tenha a centralidade que merece. Não tenho sobre isso qualquer dúvida e cá estaremos para nos fazermos ouvir, se assim não for.

Tem sido crítico da falta de apoio da Câmara à economia local?

Considero absolutamente inacreditável que a Câmara Municipal do Porto tenha sido uma das autarquias que menos investiram no apoio às famílias e às empresas durante a pandemia. Mais recentemente, Rui Moreira anunciou um apoio de 200 mil euros para os bares e para as discotecas da cidade. Nós propusemos isso, na Câmara e na Assembleia Municipal, no ano passado, quando esse apoio era necessário. Agora que a economia, previsivelmente, vai abrir, é anunciado um programa de apoio que não será necessário implementar. Rui Moreira está a usar o orçamento da Câmara para fazer campanha eleitoral. E isto é verdadeiramente inaceitável.

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