Mobilidade

Transportes públicos cumprem lotação mas vão cheios

Transportes públicos cumprem lotação mas vão cheios

Regras chegam a prever seis pessoas de pé por metro quadrado. Especialista recomenda marcação no chão.

Quem anda de comboio ou autocarro à hora de ponta sabe que vai encontrar todos os lugares ocupados e muita gente de pé, mas o Governo insiste que os transportes públicos, sobretudo o comboio, estão a cumprir as regras da covid-19, que limitam a dois terços a lotação. E ambos têm razão: apesar de irem cheios, as regras internacionais estão a ser cumpridas.

Desde o início do desconfinamento, a 4 de maio, a lotação permitida nos transportes passou de um para dois terços. Esse limite é definido através da soma "de lugares sentados e de pé", assinala ao JN/DV a especialista em Transportes do Instituto Superior Técnico Rosário Macário. As fichas técnicas da frota das empresas permitem explicar melhor.

As linhas urbanas do Porto recorrem à série 3400 e considera-se que num metro quadrado cabem seis pessoas. A lotação total por comboio é de 716 lugares, dos quais 516 em pé. Mesmo que se ocupe todos os lugares sentados (180), a composição circula a um quarto da lotação.

Na Linha de Sintra, a mais utilizada do país e que recorre à série 2300/2400 da CP, à hora de ponta, um urbano pode transportar até 1968 utentes - circulando acopladas duas automotoras elétricas de quatro carruagens cada. Com todos os bancos ocupados, são 632 pessoas. Não chega sequer a um terço, sobrando 1336 lugares de pé - a ficha técnica deste comboio prevê sete passageiros por metro quadrado.

Mais lugares de pé

Isso explica porque é que só um comboio falhou a regra de lotação desde o início da pandemia, segundo informação apurada junto do Ministério das Infraestruturas: a 24 de junho, pelas 16 horas, no sentido Lisboa-Oriente-Sintra.

As contas repetem-se no autocarro. Numa "lagarta" da Carris, há 147 lugares e só 46 assentos, pelo que para atingir dois terços da lotação é preciso levar 98 utentes, boa parte deles em pé.

Com uma lotação de 252 lugares, as novas carruagens do Metro do Porto podem não ter nenhum dos 64 bancos livres e só vai a 1/4. E no de Lisboa, que oferece 1030 lugares, dos quais apenas 240 sentados, à hora de ponta acontece o mesmo. Estão previstas seis pessoas por metro quadrado.

Como os transportes urbanos foram desenhados para serem utilizados por um máximo de uma hora, os veículos foram concebidos para levar menos pessoas sentadas: sacrifica-se o conforto à quantidade. Em viagens de longo curso, o material já é pensado para ter apenas lugares sentados. Ainda assim, Rosário Macário defende uma melhor organização: "Com opções de baixo custo, é possível colocar marcações nos veículos para que os utentes se posicionem à distância segura".

Portugal é dos poucos da UE que impuseram lotação e obrigam ao uso de máscara de proteção.

MÉTODO

Como se calcula o número de passageiros?

A olho em Lisboa, por peso no Porto. À falta de tecnologia de inteligência artificial instalada para contar os passageiros sem margem de erro, recorre-se a outras formas de fazer uma estimativa de quantas pessoas estão num veículo. Exemplo disso é o transporte ferroviário. Nos comboios urbanos de Lisboa, o revisor faz uma contagem visual por manchas de pessoas do número de passageiros que entra e sai em cada estação.

Esses dados são depois enviados para o sistema informático da CP. Para acertar na contagem, o revisor verifica quantas validações fez por viagem, percorrendo todo o comboio. Se a composição vai cheia, a CP recorre às câmaras de vigilância das carruagens para acertar as contas.

No Porto, uma vez que os comboios urbanos são mais modernos, existem sensores de carga, que permitem obter uma medição do peso de passageiros que está a ser transportado em cada momento e, a partir desse valor, chegar a um número bastante aproximado dos passageiros a bordo.

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