Protesto

Hino, "zeros", pacifismo e Ventura. Como foi a "manif" dos Polícias

Hino, "zeros", pacifismo e Ventura. Como foi a "manif" dos Polícias

A manifestação de profissionais da PSP e da GNR chegou pacificamente às escadarias da Assembleia da República pouco antes das 16 horas, depois de um desfile desde o Marquês de Pombal que contou com milhares de polícias e militares - 13 mil segundo a organização. Caso o protesto não se reflita nas medidas desejadas pelos sindicatos, já há data para novo encontro: 21 de janeiro.

Encabeçado por uma tarja branca com os dizeres "exigimos respeito", o cortejo chegou pacificamente à Assembleia da República perante um forte aparato policial do Corpo de Intervenção da PSP - aplaudido ao cair do pano - e barreiras metálicas reforçadas com blocos de betão para evitar a repetição de incidentes passados, que hoje não aconteceram.

De costas voltadas para o Parlamento, os 13 mil manifestantes (segundo números da organização) cantaram mais do que uma vez o hino de Portugal e gritaram em uníssono a frase "Polícia unida jamais será vencida". A organização do protesto passou o refrão da canção "Chamem a Polícia", dos Trabalhadores do Comércio, e "Sexta-feira (Emprego Bom Já)", do rapper Boss AC. "Cabrita, escuta, os polícias estão em luta" também foi uma das frases entoadas pelos manifestantes, que exibiram cartazes e bandeiras nacionais.

A maioria dos manifestantes envergou camisolas brancas do Movimento Zero, que se mostrou muito bem representado no protesto. "Zero" foi, aliás, uma das principais palavras de ordem durante todo o percurso desde o Marquês à Assembleia da República.

Entre as reivindicações que motivaram o protesto, organizado pela Associação dos Profissionais da Guarda (APG) e pela Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP), estão aumentos salariais, a atualização dos suplementos remuneratórios, o pagamento de um subsídio de risco e mais e melhor equipamento de proteção pessoal. Os polícias e militares exigem também uma fiscalização das condições de higiene, saúde e segurança no trabalho e que seja cumprido o estatuto na parte referente à pré-aposentação aos 55 anos.

Todos se solidarizaram mas Ventura foi o protagonista

Embora a maior parte dos partidos se tenha solidarizado com a causa da PSP e GNR, foi o Chega, na pessoa de André Ventura, que mais naturalmente se manifestou, até porque foi um impulsionador recente da luta pelos direitos da classe. Muito aplaudido, saiu da AR com a camisola do Movimento Zero vestida e manteve-se no meio dos manifestantes.

"Hoje não fomos nós, foram vocês que mostraram que Polícia unida jamais será vencida (...) Montaram barreiras para vos impedir de falar e de se manifestar. Nunca o aceitaremos e vamos continuar a lutar para que a nossa Polícia e as nossas forças segurança tenham as melhores condições possíveis", disse Ventura, ao microfone. Mas o protagonismo que criou não colheu uma opinião unânime, com os responsáveis das estruturas organizadoras a sublinharem o caráter apartidário e independente da manifestação. "Não entendo como é que o deputado utilizou uma manifestação que é apartidária, que é dos polícias, para usar da palavra. Não o deveria ter feito", lamentou César Nogueira, diretor da Associação de Profissionais da Guarda (APG).

Pela voz da líder parlamentar Ana Catarina Mendes, a partir da Assembleia da República, o PS disponibilizou-se para receber os representantes da classe, garantiu que as reivindicações dos sindicatos das forças de segurança estão a ser analisadas pelo Governo e defendeu que os últimos quatro anos foram marcados por mais investimento e descongelamento de carreiras, medidas que acredita que serão aprofundadas nesta legislatura.

Do lado do PSD, Carlos Peixoto, vice-presidente da bancada parlamentar, também manifestou disponibilidade para receber associações e sindicatos que solicitem uma audiência e justificou a ausência na rua: "Entendemos que esse é o palco para os agentes de autoridade que se estão a manifestar, o palco para os decisores políticos é no interior do Parlamento para, de forma institucional, receber as instituições, ouvi-las e acolher ou não as suas pretensões."

O BE já avisou todos os representantes da GNR e PSP que está disponível para reunir. Manifestando solidariedade "absoluta", a deputada Sandra Cunha apontou que os profissionais em protesto "têm sido ignorados, esquecidos e desprezados por governos sucessivos naquilo que respeita a resolver uma série de problemas e de condições que se mantêm e que se têm degradado ao longo dos últimos anos".

Em representação do PCP, o deputado comunista António Filipe esteve junto dos manifestantes no início da concentração para demonstrar "compreensão e solidariedade": "As suas reivindicações têm obtido, ao longo dos anos, um total silêncio e uma total inação por parte dos Governos. Essa continua a ser a posição do atual Governo que, ao mesmo tempo que se mostra aberto ao diálogo, não passa disso".

Também presente no arranque do protesto esteve o deputado único da Iniciativa Liberal.João Cotrim Figueiredo sublinhou necessidades "críticas", como o "reequipamento", o "número de efetivos" e as condições de "higiene, saúde e trabalho". "Tudo isso indica que há muito tempo vários governos têm desconsiderado estas forças de segurança que são pilar do Estado de direito", disse o liberal.

No fim da manifestação, quando agentes e militares chegaram ao Parlamento, o deputado do CDS-PP Telmo Correia e a líder parlamentar do PAN, Inês Corte-Real, desceram para junto dos elementos das forças de segurança.

"Hoje quisemos sobretudo cumprimentá-los e dizer-lhes que a nossa porta está sempre aberta para ouvir as suas reivindicações", disse o centrista, sublinhando que, apesar das "responsabilidades partilhadas" por todos os partidos, a governação socialista dos últimos quatro anos criou "expectativas elevadas e nada foi resolvido".

Já Inês Corte-Real exigiu que as reivindicações obtenham resposta já no Orçamento de Estado para o próximo ano. "São conhecidas da opinião pública a falta de condições nas esquadras, ou até mesmo do equipamento circulante como as viaturas automóveis ou as questões do fardamento", exemplificou, adiantando que o PAN está disponível para tentar que o governo volte às negociações "de forma mais célere".