Sono

Três milhões de euros gastos em medicamentos para dormir num mês

Três milhões de euros gastos em medicamentos para dormir num mês

Os portugueses estão a consumir mais fármacos para conseguir dormir, quer sejam sujeitos a receita médica ou não.

Em março, foram gastos mais de três milhões de euros em medicamentos, com e sem receita, e outros produtos. No mesmo mês do ano passado, tinham sido despendidos cerca de 2,5 milhões.

Só as farmácias venderam mais 42 mil embalagens de indutores do sono com receita, o que se traduz num crescimento de 13,8%. Dados da consultora IQVIA Portugal, cedidos ao JN, revelam que em março foram gastos 3,1 milhões de euros em 347 851 embalagens destes medicamentos.

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Nos fármacos não sujeitos a receita médica, o aumento percentual foi maior (26,2%), mas o volume é mais modesto. Foram mais 12 481 embalagens, num total de 61 838. Nas parafarmácias, a comercialização cresceu 20,4% (mais 1989), para 11 752. Quanto aos designados outros produtos para dormir (não medicamentos), as parafarmácias registaram uma diminuição de 0,6%. Nas farmácias, houve um aumento de 6,6% destas substâncias.

Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, reconhece que os profissionais estão a prescrever mais medicação, não tanto a nível de hipnóticos ou sedativos mas sim em termos de ansiolíticos que acabam por facilitar o sono.

"Conhecemos estes doentes, que já os usavam antes em situações adversas", revelou ao JN. Como a adversidade é transversal, principalmente por causa do confinamento e do medo e dúvidas em relação à situação económica, atribuídas à pandemia, há mais pessoas a usar estes medicamentos ao mesmo tempo. "Não é por haver mais consumidores, é por haver um consumo mais simultâneo", prosseguiu. Ficar em casa "é gerador de ansiedade".

Incerteza quanto ao futuro

A neurologista Teresa Paiva, especialista na área do sono, aponta vários fatores para que se esteja a dormir pior: a solidão decorrente do isolamento social e familiar imposto pelas medidas de confinamento; a ansiedade causada pelo medo de adoecer, pela incerteza sobre o futuro e problemas económicos; a morte de pessoas queridas em cujo funeral não se pode estar presente e o adiamento do luto; e a exposição excessiva a notícias negativas. "Aumentam as preocupações e as insónias. Há pessoas que estão em situações complicadas", frisou.

A médica fala em dois grandes riscos associados à insónia: "Um é as pessoas começarem a deitar-se muito tarde, quatro, cinco, seis da manhã, isso é muito disruptivo; o outro é não apanhar luz do dia". Dormir pior, ter uma vida mais sedentária e apanhar menos luz contribui também para aumentar de peso. Os efeitos desta situação, no seu entender, vão "depender das características de cada um". A especialista considera positiva a existência de medicação, mas é desfavorável ao seu uso.

O psicólogo Miguel Ricou considera "normal e expectável" o aumento da utilização destes medicamentos. "Neste período, é tudo mais difícil de resolver de uma forma imediata. E isso afeta o sono, sobretudo de quem já tem problemas prévios associados à dificuldade em dormir", disse.

Por isso, defende a intervenção psicológica antes que o problema se agrave: "É fundamental saber reagir às nossas emoções. É aceitarmos que há alturas que são difíceis." Com ajuda, as pessoas podem aprender e desenvolver técnicas que "vão diminuir o impacto negativo destes sintomas".

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