São João

Um dia de exceção para recuperar a normalidade

Um dia de exceção para recuperar a normalidade

Quando baterem as 20 horas, terão passado pelas consultas externas do São João mais de duas mil pessoas. A ponto de parecer um normal dia da semana. Mas este domingo foi tudo menos normal, no São João do Porto.

Na aparência, só uma coisa distingue este domingo de qualquer outro dia da semana, nos corredores do serviço de ambulatório do São João, no Porto: em vez de estarem sentadas, à espera da consulta, duas mil pessoas enchem os corredores em grupos, de olho nos painéis a indicar o gabinete em que serão vacinadas contra a covid-19. Poucas se sentam nas cadeiras das salas de espera. "São mais indisciplinadas" do que os utentes, brinca Rui Dias, enfermeiro chefe do serviço de consulta externa.

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Na aparência é um dia normal, mas este domingo será recordado como o dia em que o São João iniciou o cronómetro da campanha de vacinação em Portugal. É junto à porta de entrada, onde Rui Dias distribui um panfleto informativo sobre a vacina, que o processo começa. Minuto a minuto, entram auxiliares, médicos, enfermeiros e técnicos de diagnóstico e terapêutica. Nos balcões de "check in", seis pessoas perguntam o nome, confirmam a marcação, entregam a senha com um código e encaminham para o local onde são ministradas as vacinas. "Estou confiante", diz Conceição Moura, enfermeira de cuidados intensivos, uma das poucas pessoas que esperava sentada pela vez, marcada para as 12.06 horas.

"Confiante" e "tranquila" foram palavras muitas vezes repetidas. Paulo Teixeira, enfermeiro de oftalmologia, preferia receber a vacina da AstraZeneca, que ainda não foi aprovada, mas antecipou a toma do fármaco da Pfizer para a parte da manhã, já que estaria de urgência à tarde. Quando falou com o JN, já se tinham passado alguns minutos desde que foi vacinado e não sentia qualquer reação adversa.

Raquel Moutinho, assistente operacional há 13 anos, estava a sair do gabinete onde foi vacinada quando contou ao JN que quis prevenir uma possível infeção. "Trabalho em otorrinolaringologia e muitas vezes os doentes têm vias a aérea exposta para observação", justifica. É uma porta aberta para o vírus SARS-CoV-2 sair do corpo do doente e infetar alguém.

Vacinados 50% dos prioritários

De senha na mão, ao longo do dia, muitos profissionais de saúde esperam que o painel informativo lhes indique o gabinete onde serão vacinados. Nos dois blocos, estão 30 gabinetes prontos para a vacinação, disse ao JN Fernando Araújo, presidente do conselho de administração do São João. Só serão usados 25, mas o hospital quis ter uma margem de manobra, caso surja algum imprevisto. O plano foi pensado ao detalhe, houve simulações para antecipar cenários e, ao final da manhã, tudo decorria como previsto. Ou melhor ainda.

Às 11 horas, Xavier Barreto, diretor de Ambulatório, dizia que tinham sido vacinadas 150 pessoas, mais do que as 100 previstas. À hora do almoço, já tinham saído dos Serviços Farmacêuticos umas 500 doses, um avanço de 15 a 20 minutos face ao plano, pelas contas do diretor, Pedro Soares. "Não houve imprevistos, tudo corre bem. Até corre bem demais". Perto da uma da tarde, a dificuldade era saber como os oito farmacêuticos conseguiriam ter tempo para almoçar. À uma da tarde, quando ainda faltavam cinco horas, um quarto dos profissionais de saúde já tinha sido imunizado.

O objetivo eram 2125 pessoas, tantas quantas as doses entregues ao São João e perto de metade dos profissionais de saúde considerados prioritários. Para escolher quem seria inoculado agora e quem esperará pelas remessas previstas para janeiro, Fernando Araújo disse ter aplicado os critérios da Direção-Geral de Saúde. E garantiu que chegará a vez dos restantes, mal as farmacêuticas entreguem novos carregamentos a Portugal.

Para já, serão usadas as vacinas que chegaram no sábado. O estreante - a primeira pessoa a ser vacinada em Portugal - foi António Sarmento. Pouco passava das dez da manhã quando as câmaras se focaram no diretor do serviço de infecciologia e na enfermeira Ana Isabel Ribeiro, na presença da ministra da Saúde, Marta Temido. Um minuto para desinfetar a pele, administrar a vacina, cobrir com um penso rápido. "Igual a qualquer outra vacina", diria a enfermeira mais tarde, já depois de ter inoculado uma 10 ou 15 pessoas.

Mal foi dada a primeira injeção, a máquina arrancou. Mas, horas antes, já o serviço de farmácia trabalhava a todo o vapor.

O homem da mala azul

No piso de baixo, a equipa de farmacêuticos está em ritmo acelerado a preparar a vacina: dentro de uma câmara retangular, dilui o concentrado em soro fisiológico, insere-o na seringa, coloca a agulha e guarda tudo dentro de um saco individual azul.

À sua espera, está uma das peças-chave da megaoperação: discreto, Rui Carneiro carrega vezes sem conta uma enorme mala térmica azul entre o serviço de farmácia e os das consultas externas. Quando falou com o JN, estava a caminho de um novo carregamento: percorria o corredor do piso das consultas externas até às escadas (não vá algo suceder ao elevador), descia um lanço e seguia noutro corredor até aos serviços farmacêuticos. Nem cinco minutos, a bom passo.

A mala térmica azul contém sacos cor de laranja, que protegem o conteúdo da luz. Dentro de cada um estão sacos individuais, cada um com uma seringa. Dentro da seringa, uma dose de vacina contra a covid-19. A enfermeira Carla Ribeiro, da Saúde Ocupacional, tem a seu cargo receber o conteúdo da mala e distribuí-lo pelos gabinetes, cinco seringas a cada um. "Ainda têm?", ia perguntando, à porta dos gabinetes.

Ao lado, enfermeiras do centro de saúde de Porto Oriental ajudavam a preencher o boletim de vacinas eletrónico. "Qual é a vacina, o lote, o local onde foi dada e se houve alguma reação adversa", enumera Isabel Morais, antes de ser chamada para solucionar um problema com um dos computadores. "Até agora, ainda não houve reações adversas", disse no regresso, minutos depois.

No São João, o dia deverá acabar às 20 horas. Se tudo correr como previsto, a maratona vai repetir-se no dia 17 de janeiro, também um domingo, para a segunda toma da vacina. Sete dias depois, os mais de dois mil profissionais de saúde estarão imunizados contra a covid-19.

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