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Um em cada cinco com consulta cancelada

Um em cada cinco com consulta cancelada

Estudo analisa dificuldades no acesso a cuidados de saúde.

A emergência sanitária criou novas barreiras no acesso a cuidados de saúde, com consultas canceladas e receios acrescidos de infeção nas deslocações aos serviços de saúde. De acordo com o estudo "Acesso a Cuidados de Saúde - 2020", da autoria do professor da Universidade Nova de Lisboa Pedro Pita Barros, no ano passado, 20,8% dos inquiridos reportaram cancelamento de exame ou consulta médica, enquanto cerca de 15% não foram ao SNS por receio da covid-19. Causa direta ou não, só estudos aprofundados o poderão confirmar, quase 10% procurou ajuda no sistema de saúde devido a agravamento de problema por terem adiado a decisão de procurar ajuda.

Um número que estará subestimado, diz ao JN o professor da cátedra Economia da Saúde da Fundação La Caixa / BPI. "É um dado preocupante, quase duplicou face a anos anteriores. E estará subestimado. Será certamente pior". Na medida em que há doenças, nomeadamente as oncológicas, que estão a fazer ainda o seu curso, explica. Relativamente aos atos clínicos cancelados, Pedro Pita Barros esperaria "um número superior", mas que poderá ter a sua explicação no facto de o inquérito ter sido feito já na entrada do verão do ano passado, quando a pandemia estava mais contida.

Já a proporção de pessoas que não procurou o sistema de saúde manteve-se em linha com os resultados obtidos em 2019, nos 10,23%. O que "não deixa de ser surpreendente na medida em que as respostas em 2020 foram obtidas num contexto de pandemia, mas as de 2019 não", lê-se no documento. Contudo, expurgado o efeito pandémico, as barreiras de acesso a cuidados de saúde têm vindo a diminuir desde 2015.

De acordo com o estudo que é esta manhã apresentado em Lisboa, "os agregados familiares que têm dificuldade ou muita dificuldade em pagar as despesas habituais têm duas vezes mais frequência de episódios de doença do que os agregados familiares que indicaram ter facilidade em pagar as despesas habituais - 43% e 19%, respetivamente". Contudo, a condição socioeconómica não é tida como barreira de acesso, com menos de 1%, no total de cinco anos analisados, a identificarem as taxas moderadoras como entrave.

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Tanto mais que as despesas são consideravelmente mais elevadas após contacto com o SNS. Concretamente, a despesa com medicamentos, alertando Pedro Pita Barros para a necessidade de estudar este peso no orçamento das famílias, após "uma descida significativa, nos últimos dez anos, do preço dos medicamentos". Para o economista, "devemos dar o passo seguinte e perceber melhor a despesa com medicamentos mais do que insistir nas taxas moderadoras".

Importando ainda atentar ao princípio dos cuidados de saúde centrados na pessoa. Se cerca de 75% dos inquiridos reportaram terem sido "tratados com dignidade, compaixão e respeito", o certo é que os valores "encontrados para Portugal são inferiores aos que surgem no SNS inglês". Sendo que, no nosso país, lê-se no documento, "existe uma forte associação entre nível de escolaridade e essa apreciação, sendo menor para níveis de mais elevados de escolaridade alcançada". Para Pedro Pita Barros, "há margem para fazer melhor", devendo ser uma prioridade das autoridades de saúde nos próximos anos, finda a crise sanitária.

Refira-se, por último, que o inquérito, construído pela equipa de investigação da Nova SBE Health Economics and Management Centre, abrangeu pessoas com mais de 15 anos de idade, numa amostra constituída por 1271 entrevistas realizadas em Portugal continental. Os trabalhos de campo decorreram entre 23 de maio e 30 de junho. O projeto foi desenvolvido pela Cátedra BPI / Fundação "la Caixa" de Economia da Saúde no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social, uma parceria entre a Fundação "la Caixa", o BPI e a Nova SBE.

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