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Demografia

Um milhão vivem sozinhos, um aumento de 70% desde o início do século

Um milhão vivem sozinhos, um aumento de 70% desde o início do século

A tendência evidenciou-se sobretudo a partir dos anos 90 e ganhou expressão no início deste século: em 2001 contava-se pouco mais de meio milhão de pessoas a viver sozinhas; no ano passado eram quase um milhão - o crescimento foi de 70%.

É uma realidade vivida principalmente entre os idosos, mas está a alargar-se cada vez mais a outros grupos etários. Esta curva ascendente pode vir a ser achatada não só pelos efeitos da pandemia na demografia, em particular na taxa de mortalidade entre os mais velhos, mas também pelos efeitos na economia, travando a emancipação dos jovens.

No recenseamento do próximo ano, já em curso, o número de pessoas que não partilha casa "tenderá a crescer numa proporção mais ou menos idêntica àquela em que cresceu entre 2001 e 2011", admite Maria das Dores Guerreiro, socióloga, vice-reitora do ISCTE e autora das duas últimas análises do INE sobre pessoas sós. Mas os tempos que vivemos poderão trazer novas variáveis, designadamente ao nível da precariedade e do desemprego, e travar esta mudança.

"As variações decorrem, por um lado, de surtos como este, que pode levar à morte de muitos idosos, e, por outro, do desequilíbrio demográfico que apresentamos (uma taxa de natalidade muito baixa) e é possível que também possa ser afetada por esta crise que tem, de facto, reflexos nos comportamentos demográficos", explica.

Maria Filomena Mendes, demógrafa, admite que "vivemos hoje uma transição para um novo modelo de sociedade", embora todos insistam que é cedo para tirar ilações, até porque as consequências desta crise são difíceis de prever e avaliar.

57,7% sentem-se sós

Quantas das pessoas sós e em idade ativa continuarão a ter capacidade para se manterem nessa condição? "Os jovens ou os adultos jovens sós", que entraram no mercado de trabalho desregulado e precário, marcado agora pelo lay-off, poderão ficar "mais desprotegidos", admite Mara das Dores Guerreiro.

Ainda se desconhecem os resultados de muitos estudos que estão a avaliar o impacto da pandemia na vida destas pessoas. No Barómetro covid-19, projeto de investigação liderado pela Escola Nacional de Saúde Pública, a maioria dos inquiridos que não partilha casa afirmou não ter perdido rendimentos por causa da crise (62,7%), admitiu ter-se sentido mais só (57,7%) e psicologicamente afetada pelas medidas de distanciamento apenas "em alguns dias" (55,6%). Grande parte diz ter limitado a quantidade de informação consumida (68%) e não ter tomado ansiolíticos ou antidepressivos (79,6%).

Os impactos não serão tão graves, diz a socióloga Rosário Mauritti, também do ISCTE, porque "a solidariedade familiar é muito significativa", tal como a de vizinhança, que tem valido a muitos idosos nesta condição o apoio de outras gerações nestes tempos em que eles são as maiores vítimas.

"À conta da emergência, a sociedade teve que ficar mais atenta a esta população. E o facto de haver recenseamento sénior anual - que nos diz quantos idosos vivem sozinhos, quantos estão dementes, se têm redes ou não - permite que as autoridades façam um acompanhamento casa a casa".

Certo é que estas pessoas estarão sujeitas a uma maior vulnerabilidade psicológica, sobretudo no caso das que mantinham redes informais. "O facto de ter sido suspenso o contacto interpessoal, pelo menos presencialmente, pode acarretar alguns riscos", admite Rosário Mauritti.

"O meu filho fez anos e nem um beijo lhe pude dar"


Um ano depois de se ter divorciado, viu o filho sair de casa para constituir família e lhe dar duas netas, a Érica e a pequena Ema, que nasceu a 7 de março, o único dia em que a avó Cândida, 55 anos, a pegou ao colo. Desde então, só as vê à varanda "ou com muito distanciamento": "Isso é o que mais custa... É o pior. O meu filho fez anos e nem um beijo lhe pude dar".

É dos afetos que mais tem sentido falta nestes tempos de isolamento: "Quem vive só não tem ninguém nem para dar um simples abraço. Sinto-me triste por não poder abraçar e beijar os meus, mas tenho de pensar que é temporário e que, mais cedo ou mais tarde, volto às corridas, ao ginásio, ao futebol, aos jantares cá em casa com os amigos... Agora é ocupar o tempo com outras coisas, como a agricultura, a culinária..."

Adepta fervorosa do Sport Club Rio Tinto, do qual é vice-presidente, Cândida Fontes é secretária e também catequista da Paróquia da Areosa. "A telecatequese tem-me ocupado muito. É importante não perdermos o contacto com as nossas crianças e é tão bom vê-las através do computador".

Nunca houve, nem tem havido, tempos mortos na vida de Cândida. Sejam eles pelos momentos de diversão proporcionados pelos vídeos que publica nas redes sociais para animar os amigos ou por aqueles em que está ao fogão, "a inventar receitas" para adocicar a vida aos que estão na linha da frente no combate à covid. "Comecei a fazer bolos todas as semanas, já perdi a conta aos que fiz nestes dois meses para oferecer à PSP, aos bombeiros, à Cruz Vermelha ou ao serviço de pediatria do Hospital S. João".

Também se inscreveu num projeto de voluntariado de apoio a idosos da câmara de Gondomar. "Viver sozinha permite-me estar mais disponível para ajudar os outros, para participar na vida associativa, que adoro".

É esta "vida agitada" que Cândida leva há dez anos e à qual não quer renunciar: "Não faz parte dos meus planos voltar a viver com alguém. Teria que ser uma pessoa muito especial que me aceitasse como sou. Sou uma mulher feliz assim. Vivo sozinha, mas não sou uma mulher sozinha. Não me sinto só".

Da "negação da realidade" à inquietação do novo normal

Festejou o 36.ºº aniversário no evento do Hard Club onde atuou um DJ a quem seria detetado o novo coronavírus. Estávamos nos primeiros dias de março, Portugal ainda podia sair à rua livremente, mas Milene já estava em quarentena voluntária e em teletrabalho.

É consultora numa multinacional, que lhe deu "todas as condições e meios necessários" para trabalhar a partir de casa. "Algo que tive sempre consciente no meio deste processo é o quão privilegiada sou por trabalhar numa empresa que nunca pôs em causa o meu lugar e me transmitiu toda a segurança. Tenho perfeita noção de que essa não é a realidade para muitos".

Nas primeiras semanas diz quase nem se ter apercebido do isolamento: "estava ocupada, a cumprir horário normal". Confessa até que "relativizava de certa forma o assunto": "Parecia que estava em negação da realidade, não queria acreditar que este regresso à normalidade seria sempre muito limitado". Com (o lento) passar do tempo, a diminuição gradual da atividade profissional, o estado de espírito deixou de ser o mesmo: "Começou a mexer um pouco o facto de me sentir muito presa a uma obrigação, a este distanciamento, de querer fazer coisas que não podia. Fiquei mais ansiosa, mais inquieta, porque sentia saudades da família, dos amigos, da minha vida normal."

Procurou calma e serenidade nas aulas online do ginásio, no ioga, no pilates, nos passeios higiénicos, nas corridas pelas ruas desertas da baixa do Porto, onde reside, e encontrou libertação com "a música aos berros", como tanto gosta de ouvir.

Essa é uma das vantagens de morar só: "Faço o que quero, não tenho que dar satisfações a ninguém, não dependo de ninguém, sou eu quem decide tudo..."

Milene sente-se "mais livre" há oito anos, desde que deixou de partilhar casa com amigos. A decisão não podia ter sido mais acertada. E, se a solidão bate à porta, tem o apoio e a companhia do amigo e vizinho, também a viver sozinho no andar de cima. É outro filho deste processo de individualização característico das sociedades modernas.