Circum-navegação

Viagem da Sagres ajuda a prever mudanças climáticas

Viagem da Sagres ajuda a prever mudanças climáticas

Objetivo do projeto SAIL, do INESC TEC, é melhorar os modelos de estudo do clima e da saúde dos oceanos. Recolhidos todos os dias 13 GB de informação para investigar durante três anos.

A bordo do navio-escola Sagres, que está a recriar a viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães de há 500 anos, vão cientistas que estão a produzir 13 GB de dados por dia. Querem ajudar a prever o clima do futuro, a perceber melhor as alterações climáticas e a avaliar a saúde dos oceanos. Numa expedição rara à volta do Mundo, os investigadores estão a aproveitar para recolher informação de sítios nunca antes medidos.

Dois meses depois de partir de Portugal, o navio saiu do continente americano e está a cruzar o Pacífico. Lá dentro, os cientistas recolhem dados do oceano, da atmosfera, da radiação que vem do espaço. No mastro, dois sensores medem a cada segundo o campo elétrico da atmosfera.

"As pessoas estão habituadas a ver eletricidade atmosférica quando há relâmpagos, é a corrente que passa da atmosfera para a Terra. Em terra, é muito difícil medir, porque há muita poeira. Desta forma, só foi medida há cem anos, nunca mais houve nenhuma expedição assim, é uma oportunidade única", diz Susana Barbosa, líder científica do projeto SAIL (Space-Atmosphere-Ocean Interactions in the marine boundary Layer), coordenado pelo Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC).

A medição é importante, porque "hoje há mais poluição e o campo elétrico está diferente". Essa é a maior incerteza que há nos modelos climáticos atuais, que ainda usam os dados de há cem anos. "Isto vai permitir melhorar os modelos que preveem fenómenos climáticos, como as tempestades. E temos muitos sinais de tempestades".

O SAIL também vai ajudar a entender o que está a acontecer com as alterações climáticas. Tem sempre, pelo menos, um investigador a bordo do navio que leva rebocado uma espécie de submarino que o INESC TEC construiu. "É o Towfish, tem vários sensores para medir temperatura, salinidade, clorofila, ruído associado à vida marinha, oxigénio. Há, neste momento, zonas de mínimos de oxigénio no oceano", explica Susana.

A geofísica viajou no Sagres entre Cabo Verde e Rio de Janeiro. "O que me impressionou mais, ao atravessar o Atlântico, foi perceber que o mar está morto. Não vemos pássaros, cetáceos, peixes voadores, golfinhos, baleias, peixe-gato. Ninguém duvida que está diferente." Ao todo, são 371 dias de uma jornada única, que vai recolher informação de diferentes pontos do oceano, atmosfera, de climas tropicais e moderados. "O navio está a fazer um trajeto que não é habitual e vai permitir-nos ter medidas em locais que nunca foram medidos, principalmente do hemisfério sul, grande parte da viagem é feita em mares do sul, tipicamente menos amostrados".

Estão a produzir 13 GB de informação por dia. Mas só daqui a três anos é que há resultados. "Depois da viagem, vamos passar dois anos a processar, organizar, para disponibilizar os dados à comunidade científica". Uma coisa é certa: "Estamos a medir tudo, a tratar o sistema Terra como um todo. Por isso é que o projeto é tão multidisciplinar e raro".

OUTROS DADOS

Há cem anos

A última medição do campo elétrico da atmosfera numa expedição global a bordo de um navio aconteceu entre 1907 e 1920, com o norte-americano Carnegie. Depois, os russos tentaram uma expedição no Atlântico, e os japoneses no Pacífico.

Microplásticos

Há outro projeto de investigação a bordo do navio que vai monitorizar o lixo marinho e medir a quantidade de microplásticos no oceano, realizado com o Instituto Hidrográfico. Os dados vão contribuir para mapear zonas de acumulação e avaliar a saúde dos peixes.

Apoio do Governo

O Ministério da Defesa Nacional e o do Ambiente e da Ação Climática garantiram um financiamento de 200 mil euros aos trabalhos de investigação a bordo da Sagres, através do Fundo Ambiental. Metade é para o SAIL, no qual o INESC TEC prevê investir 300 mil no total.

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